sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quase soneto cheio de si

Ó minha amada, canto em teu louvor
como se fora nato noutras terras
mais adestradas nos bailes do amor,
em Franças, Alemanhas, Inglaterras;
canto-te assim com tal engenho e arte
que até Camões invejaria o fogo
com que me ardo, outrora degredado
entre mil musas lusas e andaluzas,
e agora regressado aos seus brasis,
ó minha ave, minha aventura
e sobretudo minha pátria amada
pra sempre idolatrada, salve, salve:
o resto é mar, silêncio ou literatura.
Geraldo Carneiro

Ulrich

O homem sem qualidades de quem estamos falando chamava-se Ulrich, e Ulrich — não é agradável chamar alguém o tempo todo pelo nome de batismo, se o conhecemos tão pouco por enquanto!, mas seu sobrenome será omitido em consideração a seu pai — dera, na fronteira da meninice e adolescência, numa composição escolar, a primeira prova de sua maneira de ser. A composição tinha como tema um pensa mento patriótico. Na Áustria o patriotismo era assunto muito especial. Pois crianças alemãs aprendiam simplesmente a desprezar as guerras das crianças austríacas, e ensinavam-lhes que as crianças francesas eram netas de libertinos sem fibra, que fogem aos milhares quando um soldado alemão barbudo avança sobre eles. E com papéis trocados, bem como as modificações desejáveis, aprendiam a mesma coisa as crianças francesas, russas e inglesas, que também tinham sido frequentemente vencedoras. Mas crianças são fanfarronas, gostam de brincar de polícia-e-ladrão, e estão sempre dispostas a considerar a família X da rua Y a maior família do mundo, caso façam parte dela. Assim, se deixam influenciar facilmente pelo patriotismo. Mas na Áustria isso era um pouco mais complicado. Pois os austríacos também tinham vencido todas as guerras da sua história, mas depois da maioria dessas guerras tinham feito algum tipo de concessão. Isso faz pensar, e na sua composição sobre amor à pátria Ulrich escreveu que um verdadeiro patriota nunca devia considerar sua pátria a melhor de todas; sim, com um lampejo que lhe pareceu especialmente belo, embora ficasse mais ofuscado por seu brilho do que visse o que estava contido nele, acrescentara àquela frase suspeita mais outra: que provavelmente também Deus gostava de falar do seu mundo no conjunctivus potentialis (hic dixerit quispiam = aqui se poderia objetar...), pois era Deus quem fazia o mundo, pensando que bem podia ser de outra maneira.
Ele sentira muito orgulho dessa frase, mas talvez não se tivesse expressado de maneira muito compreensível, pois causara grande agitação, e quase o afastaram da escola, embora não chegassem a tomar essa decisão por não descobrirem se aquele comentário inadequado era blasfêmia contra a pátria ou contra Deus. Naquele tempo, ele estava sendo educado no aristocrático Ginásio Teresiano, que fornecia os mais nobres esteios do Estado. E seu pai, furioso com a vergonha causada por aquele filho degenerado, mandou Ulrich para o estrangeiro, para um pequeno colégio belga, localizado numa cidade desconhecida e que através de uma administração inteligente e espírito comercial, conseguia a preços baixos grande número de alunos transviados. Lá Ulrich aprendeu a ampliar internacionalmente seu desprezo pelos ideais alheios.
Desde então tinham-se passado dezesseis ou dezessete anos, rápidos como nuvens no céu. Ulrich não lamentava por eles, nem deles se orgulhava; simplesmente os contemplava com espanto, no seu trigésimo segundo ano de vida. Entrementes estivera em vários lugares, algumas vezes por breve tempo ficara em casa, e por toda parte fizera coisas de valor e coisas inúteis. Já se insinuou que era matemático, e não se precisa por enquanto dizer mais sobre isso, pois em toda a profissão que não é exercida por dinheiro mas por amor, chega um momento em que o acúmulo dos anos parece levar a nada. Como esse momento se estendia por um período mais longo, Ulrich lembrou que se atribui à terra natal a capacidade misteriosa de dar raiz e autenticidade aos pensamentos, e instalou-se nela com a sensação de um peregrino que se senta num banco para toda a eternidade, embora saiba que logo vai se levantar dali.
Quando, então, arrumou sua casa, como diz a Bíblia, teve uma experiência pela qual na verdade estava esperando. Entregara-se à agradável atividade de organizar sua devastada pequena propriedade a partir do zero, segundo seu próprio capricho. Desde a reconstrução em estilo puro até a arbitrariedade total, possuía todas as premissas para fazer o que quisesse, e na sua mente ofereciam-se todos os estilos, desde o assírio ao cubista. O que escolher? O homem moderno nasce e morre numa clínica; portanto, também deve morar como numa clínica! Um arquiteto famoso acabava de estabelecer este postulado; outro decorador reformista exigia que se colocassem paredes móveis, dizendo que o homem, convivendo com outros, tinha de aprender a confiar, e não devia confinar- se de maneira separatista. Naquele momento começara uma nova era (pois elas começam a todo instante!), e uma nova era pedia um novo estilo. Para sorte de Ulrich, o castelinho, assim como estava, já constava de três estilos superpostos, de modo que não se podia obedecer a todas essas exigências; ainda assim ele se sentia instigado pela responsabilidade de organizar uma casa, e a ameaça “Dize-me como moras e dir-te-ei quem és”, que lera tantas vezes em revistas de arte, pairava sobre sua cabeça. Depois de muito se ocupar dessas revistas, decidiu que era melhor trabalhar pessoalmente na construção da sua personalidade, e começou a desenhar seus futuros móveis. Mas assim que imaginava uma forma impressionante e impetuosa, ocorria-lhe que podia em seu lugar colocar uma forma utilitária, técnica e menor; e quando desenhava uma despojada forma de concreto, lembrava-se das magras formas primaveris de uma menina de treze anos, e começava a sonhar em vez de tomar decisões.
Era — numa circunstância que não o afetava muito a sério — a conhecida incongruência das ideias, e sua difusão sem um ponto central, característica da atualidade, cuja singular aritmética vai de cem a mil sem ter a unidade. Por fim ele só conseguia imaginar salas inexequíveis, quartos giratórios, decorações caleidoscópicas, caixas de mudança para a alma, e suas ideias eram cada vez mais inconsistentes. Finalmente chegara ao ponto que o atraía. Seu pai teria dito mais ou menos assim: aquele a quem permitem fazer tudo o que deseja, em breve não sabe mais o que desejar. Ulrich repetia isso com grande prazer. Aquela sabedoria de velho lhe pareceu uma ideia extraordinariamente nova. O homem precisa ser limitado em todas as suas possibilidades, planos e sentimentos, por preconceitos, tradições, dificuldades e limitações de toda sorte, como um louco na sua camisa-de-força; solidez; na verdade, é difícil perceber o alcance dessa ideia! Bem, o homem sem qualidades, que voltara à sua terra, deu também o segundo passo para se deixar modelar de fora, pelas condições da vida. Nesse momento entregou a decoração de sua casa ao capricho dos fornecedores, convencido de que cuidariam da tradição, dos preconceitos e limitações. Apenas renovou pessoalmente linhas provindas de tempos remotos, as escuras galhadas de cervos sob as abóbadas brancas do pequeno vestíbulo, ou o severo teto do salão, e acrescentou tudo o que lhe parecia útil ou confortável.
Quando estava tudo pronto, pôde balançar a cabeça e indagar-se: “Então é isso que vai ser a minha vida?”
Possuía um pequeno palácio encantador — quase se teria de chamá-lo assim, pois era tudo o que se pensa de uma residência de bom gosto para uma capital, segundo imaginação dos mais importantes vendedores de móveis, tapetes e instalações. Faltava apenas um fator: não tinham dado corda àquele fascinante relógio; pois, se tivessem, haveria coches de altos dignitários e damas aristocráticas subindo a rampa de acesso, haveria lacaios saltando dos estribos e perguntando a Ulrich, com certa suspeita:
Moço, onde está o seu patrão?
Ele voltara da lua e imediatamente se estabelecera como se ainda estivesse lá.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

Planeta dos Macacos: A Guerra | Trailer Legendado


Motivações

Tinha eu um amigo, o Simplício, o qual sempre dizia ao saber que alguém metera uma bala nos miolos:
Ué! por que é que ele não pôs o revólver no prego?
Para ele, a razão óbvia só podia ser a falta de dinheiro — pois isso se passava naqueles áureos tempos de miséria estudantil.
Anos após, chegaríamos ambos a esse lugar-comum de que dinheiro não traz felicidade, coisa um tanto discutível como quase todos os ditames da sabedoria popular. Aliás, já escrevera um poeta: “O dinheiro não traz ventura, certamente./ Mas na verdade vos digo:/ sempre é melhor chorar junto à lareira quente/ do que na rua ao desabrigo...”
Não, não estou brincando com as desgraças alheias: eu só brinco com as minhas.
Nunca achei tampouco que se deveria glosar tal coisa. Tanto assim que certa vez duas moças me abordaram na rua:
É só uma pergunta. Estamos fazendo uma pesquisa. O que é que o senhor acha do suicídio da Marilyn Monroe?
Não tenho competência para tratar do assunto, porque eu nunca tive a coragem de me matar. Uma justificativa? Qual nada! Sempre desconfiei desses escritores apologistas do suicídio mas que jamais recorrem ao único argumento válido, com o seu próprio exemplo.
A única opinião, aliás, que me veio a esse respeito foi depois de uma casual conversa, quando íamos pela rua da Praia, o dr. Vidal de Oliveira e eu. Estávamos em 1941. Acabara ele de traduzir O drama de Jean Barois . Ora, essa novela do autor de Os Thibault focalizava o Caso Dreyfus, que enchera durante anos os romances franceses, rivalizando em insistência com o Caso do Colar da Rainha do tempo dos folhetinistas românticos.
Aquele grande escritor já vinha tarde. Pois bem, perguntou-me o saudoso amigo:
Que tal achaste o Jean Barois?
Chato!
Ele, que adorava o livro, parou, indignado:
Mario! Por que tu não te matas?
Não posso, eu quero ver no que vai dar esta guerra. Quero ver o que será do Hitler, o que será do Mussolini... o que será de nós.
Pois só após esse diálogo histórico (estávamos em pleno bombardeio de Londres) é que acabei dizendo para os meus pobres botões: sim, o suicídio só pode ser uma falta de curiosidade, uma grande falta de curiosidade…
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Que seria de nós sem o socorro que não existe?

Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. Camus acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Só tardiamente. Foi o que aconteceu comigo. Eu sabia, mas não tinha coragem de dizer. O mundo universitário que me cercava me amedrontava. Por prudência optei pelo silêncio. Aí, de repente, uma criança entrou na minha vida, tardiamente. Uma filha temporã. Foi ela que me fez ter coragem. Penso que Bachelard deve ter tido experiência semelhante. Se assim não fosse, como poderia ter afirmado que “a inquietação que temos pela criança sustenta uma coragem invencível”?
Foi a criança que me deu coragem para que eu deixasse que o inventor de estórias que em mim vivia calado pelo medo, falasse. Estória, não histórias, contrariando assim dicionários e revisores. O mundo dos escritores não é o mundo dos gramáticos. Guimarães Rosa tinha o mesmo problema. Começa Tutameia afirmando: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História.” A “história” nos abre o mundo das coisas acontecidas no passado. Mas as “estórias” nos levam para o mundo das coisas que nunca aconteceram e só existem na imaginação.
Disse que sou um “inventor” de estórias. Mas não é bem assim. As estórias não são inventadas pelo escritor da mesma forma como as músicas não são compostas pelo compositor. Estórias e músicas já existem em algum lugar místico. Escritores e compositores são seres que têm a graça de, repentinamente, se defrontarem com essas entidades, vindas não se sabe de onde, como se fossem emissárias de um outro mundo. Fernando Pessoa se espantava com isso e dizia que era como se um anjo que não conhecemos descesse à terra e com suas asas soprasse as brasas de lugares esquecidos... Uma coisa é certa: ao terminar a estória, vem o espanto de que a tenhamos escrito. E perguntamos: “Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?”
Aconteceu assim comigo, sem se anunciar, de repente, sem preparo, sem credenciais. As estórias começaram a aparecer porque havia uma menina que precisava delas. Sim, precisava delas...
De noite, quando eu terminava a estória, ela me perguntava: “Papai, essa estória aconteceu de verdade?” Ela não era boba. Pequena, já tinha um agudo senso de realidade. Pássaros encantados, gigantes verdes, dragões dourados, panteras que falam, flores que empinam pipas, sementinhas que têm medo, gansos que envelhecem ficando cada vez mais leves até que voam na direção das montanhas onde cresce o fruto mágico vermelho – não são seres deste mundo. Nunca existiram. Assim conclui-se obrigatoriamente que as estórias são feitas com mentiras. Mas mentira é uma palavra tão feia! Ela tem o poder de matar qualquer palavra. Acontecia, entretanto, que minha filha amava as estórias. Elas eram belas, ela ficava encantada ao ouvi-las. O seu coração exigia que fossem verdadeiras. O amor deseja a eternidade da coisa amada. Acho que o padre Antônio Vieira deveria ter acabado de ouvir uma estória bonita quando escreveu: “Se os olhos veem com amor o que não é, tem de ser”. Minha filha filosofava sem saber. Perguntava-me sobre o estatuto ontológico da imaginação, lugar onde moram as estórias... E eu não podia dar a resposta. Era muito difícil para ela. A resposta seria: “Esta estória não aconteceu nunca para que aconteça sempre.” Romeu e Julieta, A Bela Adormecida, Cinderela, Édipo, O amor nos tempos do cólera, A terceira margem do rio, “O operário em construção”: essas estórias não aconteceram nunca. Mas a despeito disso queremos lê-las de novo, e todas as vezes que as re-lemos elas acontecem. A Palavra se faz carne... Prova disso são os tremores que percorrem nosso corpo, ora como riso, ora como choro. Se tivessem acontecido de fato, elas seriam criaturas da história, tempo do “nunca mais”. “Never more, never more”, repetia o corvo de Poe. “Nunca mais” é o tempo dos mortos, das sepulturas, do sem volta. Mas as estórias são criaturas do tempo da imaginação, tempo do eterno retorno, das repetições, das ressurreições. Quando se conta de novo uma estória, aquilo que nela aconteceu no passado imaginário se torna vivo no presente. Sim, já ouvimos a música muitas vezes. Sabemo-la de cor. Mas queremos ouvi-la de novo para sentir a sua beleza sempre presente, para rir e chorar. Assim é o tempo da imaginação. A alma é o lugar onde o amor guarda o que não aconteceu, sob a forma da imaginação, para que aconteça sempre.
Havíamos ido ao cinema ver o E.T. Minha filha, cinco anos, chorava convulsivamente ao voltar para casa. Depois do lanche, quis consolá-la das lágrimas que não paravam. “Vamos lá fora procurar a estrelinha do E.T.!”, sugeri. Ela me acompanhou. Mas o céu se cobrira de nuvens. Não havia nenhuma estrela visível. Fiquei sem saber o que dizer. Improvisei, então. Corri para trás de uma árvore e disse: “Venha! O E.T. está aqui!” Ela parou de chorar, olhou-me séria e disse com voz firme: “Papai, não seja bobo. O E.T. não existe.” Essa resposta realista e fria pegou-me desprevenido. Me defendi. Armei um xeque-mate: “Não existe? Então, por que é que você estava chorando?” O seu choro não era uma evidência de que ela acreditava na existência do E.T.? Mas quem levou o xeque fui eu. Foi isto que ela me respondeu: “Eu estava chorando por isso mesmo, porque o E.T. não existe.”
Eu, tolo, misturara o que não podia ser misturado. Tirara o E.T. do mundo da fantasia onde vivia – uma estrela distante, provavelmente vizinha da estrela sorridente, morada do Pequeno Príncipe – e o matara ao trazê-lo para o mundo real. Ela sabia mais do que eu. Sabia que o E.T. só existia no mundo da fantasia. Até a minha intervenção desastrada, o E.T. era real. A estória estava acontecendo. Por isso ela chorava. A alma chora pelo que não existe. Mas o seu choro parou de repente quando tirei o E.T. de sua estrela distante e o coloquei atrás da árvore do meu jardim. Acho que Fernando Pessoa teve muitos choros parecidos com o choro de minha filha. E foi para explicar o sem razões dos seus choros que ele escreveu:

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

Ri muito ao reler, depois de muitos anos, o Cem anos de solidão. E sempre choro ao ler os poemas da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Por que rimos e choramos por aquilo que não existe, aquilo que é fantasia? A resposta é simples: choramos e rimos porque a alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem. “Somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos”, afirmava Shakespeare. Com o que concorda Manoel de Barros, rude poeta do Pantanal: “Tem mais presença em mim o que me falta”. E Miguel de Unamuno:

Recorda, pois, ou sonha, alma minha
a fantasia é tua substância eterna –
o que não foi;
com tuas figurações faze-te forte,
que isso é viver, e o restante é morte.

As estórias são flores que a imaginação faz crescer no lugar da dor. Minhas estórias cresceram das dores da minha filha, que eram minhas próprias dores. Por isso disse que comecei a escrever porque ela precisava delas, das estórias. Curar a dor, isso elas não podem fazer. Mas podem transfigurá-la. A imaginação é a artista que transforma o sofrimento em beleza. E a beleza torna a dor suportável. Por isso escrevo estórias: para realizar a alquimia de transformar dor em flor. Minhas estórias são as minhas poções mágicas... Não há contraindicações nem é preciso receitas…
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

quinta-feira, 22 de junho de 2017

M, de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Troia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.
Paulo Leminski

Mafalda


O começo do fim

Quando você começa a sair com uma pessoa, os sentidos ficam aguçados, a linguagem corporal é observada: tique, jeito de andar, de sentar, pedir comida, cumprimentar o garçom, comer, entregar a chave para o manobrista, dirigir, respeitar a faixa de pedestre, vagas para deficientes e idosos, dar passagem e ligar o pisca.
Checam-se gostos pessoais, figurino, lustre do sapato, tamanho do salto, autenticidade do relógio, joias e CDs do carro, marca do celular e o toque. Uma relação pode não dar certo se o toque de chamada for estridentemente musical ou o hino do time detestado.
Os mais diretos perguntam logo no primeiro encontro quais as doenças recorrentes na família.
No fundo, desenvolve-se o instinto mais fundamental da espécie: procurarmos e selecionarmos o saudável parceiro reprodutor.
Como a civilização avançou e instituiu rituais de acasalamento, nos perguntamos então se está ali a mulher ou o homem da nossa vida, com quem seremos fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença etc.
Muitos encontros são marcados por e-mails ou torpedos.
E são baixas as chances de eles se realizarem se uma das partes solta:
Vou estar passando daqui a pouco.”
Vamos marcar para meio-dia e meio?”
Pode ser amanhã? A tempos que naum me sinto tão mau. Deve ser o calor…”
Vamos se falar amanhã então.”
Bem. Neste caso, como são dois semianalfabetos tecnológicos, pode até dar certo. 
 
Se a etapa da comunicação for vencida, e o interlocutor sabe que “pra” não tem acento, as diferenças de “mal” e “mau” e quando usar “por que” e “porque”, algumas frases ditas entre o couvert e a sobremesa são suficientes para indicar que talvez ali, tomando aquele vinho caro, todo efusivo, não esteja o reprodutor (ou a reprodutriz) ideal:
Tocantes as declarações de Ahmadinejad. Fala a verdade, alguém tem provas do Holocausto? Isso é exagero dos judeus. Não tenho preconceitos. Minha dermo é judia. Se eu tivesse, nem deixava ela encostar em mim. Os melhores médicos são judeus. Fazer o quê?”
Pra mim pagar essa conta, vai pesar no orçamento. Bebe este vinho com gosto, curtindo cada gota!”
Saudades do Maluf. O cara mudou a cidade. Minhocão, Marginais. São Paulo ficou bem mais bonita.”
A nível de governo, na época do Quércia não tinha essa violência. Tem que colocar a Rota nas ruas! Rota, Exército, Marinha, Aeronáutica e a Guarda Florestal! Só tem animal solto por aí.”
Bom mesmo era na época da ditadura. Não tinha corrupção, o Brasil crescia, não tinha nada de sem-terra, sem-teto… Todo mundo tinha alguma coisa.”
Uma vez fiz sexo com o time de futebol da faculdade. E não era o de salão. Nem estava bêbada.”
Desde que esses nordestinos vieram pra São Paulo, a cidade nunca mais foi a mesma.”
Tinham que jogar uma bomba em cada favela carioca antes dos Jogos Olímpicos.”
Que ator é o Van Damme. Fora que é o mó gato. Ficaria com ele fácil. Só perde para o Steven Seagal, que é um ator mais denso.”
Quer ir lá em casa? Não tenho bebida. Mas chegou um carregamento da Colômbia. Purinha. Galera até soltou fogos.”
Eu transo sem camisinha. Mas tomo cuidado, transo com quem conheço. Eu confio nas minhas transas. Só quando vou no Carnaval pro sul da Bahia, aí, sei lá. Ah, pra que encanar com isso? Conhece Itabuna?”
O melhor do Paulo Coelho é Veronika decide morrer, leu? O final é chocante. Ela não morre! Ih, contei o final…”
Tenho piercing em cada orelha, na língua, no pescoço, nos bicos dos seios, no umbigo e… Terá que descobrir os outros. Tenho mais sete.”
Na minha casa ou na sua? Vou avisando que durmo na cama com meus quatro cachorrinhos. Ah, somos inseparáveis. São pit bull, mas são de confiança e não têm pulgas. Tudo bem, nem gostam de dormir de conchinha.”
Eu só viajo de primeira classe. Acho a comida da executiva um lixo. E o aperto?”
Minha apneia do sono é grave, mas convivo numa boa com ela. A da minha avó é pior. Ela dorme na cama ao lado. E é sonâmbula. Doidona. Quer ir lá conhecer? Mas precisamos levar uma garrafa de Bell’s. Ela só dorme com uísque nacional.”
Teatro só vou em Nova York. Vi Cats mais de vinte vezes. Acho que da última finalmente entendi o final. Mudou a minha vida.”
Mais gata que a Ivete só a Cláudia Leite. E como cantam…”
Meu sonho é entrar para o BBB, todo ano me inscrevo. Mas se rolar um teste pro programa A Fazenda também pego.”
Meu pai que é esperto, trabalhou com o PC Farias, Daniel Dantas, Celso Pitta, Marcos Valério. Cresci com esses caras lá em casa jogando truco. Agora, meu pai quer abrir uma offshore comigo no Caribe. Sou um laranja dele desde pequenininho. E ano que vem tem eleições.”
O filme da minha vida é O guarda-costas, com Whitney Houston e Kevin Costner. Aliás, o disco dela não sai do meu carro. Tô louco pra comprar o DVD em que ela canta com a Mariah Carey. Animal, né? Adoro aquela. Canta comigo I’ll Always Love You. Tô até arrepiado. Chorei tanto na morte dela…”
Neste caso, rache a conta e saia fora.
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

O homem está sozinho

Na Antiguidade, nas origens da poesia, o epos constituiu a primeira consagração do feito humano. Para propiciar o sucesso de suas empresas, os homens celebraram o primeiro vencedor das dificuldades, o herói: não deus, mas homem, ainda que aparentado com os deuses — homem na medida em que seu destino se cumpre na Terra, é um percurso terrestre eriçado de obstáculos. A épica antiga narrava o primeiro ato do homem para sair do caos do indistinto, a luta contra uma natureza virgem, ainda povoada de monstros, uma natureza amiga ou inimiga, conforme nela se manifeste a ajuda dos deuses favoráveis ou a hostilidade dos deuses adversos. Também o choque contra os outros homens, as batalhas, a história, não passam de manifestações terrestres de dissídios divinos: mas os duelos dos heróis, seus itinerários aventurosos, a matéria, em suma, da narrativa, é toda humana, desdobra-se segundo as leis da Terra.
A épica moderna já não conhece deuses: o homem está sozinho e tem diante de si a natureza e a história. E, se a esta altura seria fácil dizer que natureza e história são os deuses do mundo moderno, encarnações renovadas das antigas divindades, podemos logo rebater dizendo que tal divinização se encontra mais facilmente nas páginas dos filósofos do que naquelas dos escritores. A mesma coisa seja dita no que tange à divinização do primeiro termo: a consciência, a razão humana. Os grandes romances parecem nascer pontual e propositadamente para corrigir as idolatrias intentadas pela filosofia, para olhá-las com o olhar crítico e relativo do homem que já não se considera o centro do universo. O romance do século XIX não podia decerto nascer sem ter atrás de si o trabalho dos escritores e dos filósofos do século XVIII, que haviam fundado uma nova noção do ânimo humano, criando — podemos dizer — a dimensão do indivíduo, que haviam fundado uma nova visão da natureza e uma nova consciência da história. Mas também é verdade que a geração pós-napoleônica, que com Stendhal e Puchkin inaugura o novo romance, já dissolve o caráter providencial da natureza de Rousseau e o da história do nascente historicismo, para dar destaque, diante de um cenário natural e histórico que é apenas teatro de ocasiões para o indivíduo, a heróis nada exemplares na complexidade de suas paixões, na forte carga vital de seu egotismo: em Puchkin, fundamentado na sinceridade e no ser quem se é; em Stendhal, no sutil cálculo secreto, e talvez na hipocrisia cultivada com o rigor de uma virtude.
Italo Calvino, in Assunto encerrado

Nina

Nos encontramos no dia seguinte, num bar em Copacabana, ela sugeriu, moro ali perto. Eu cheguei cedo, sentei numa mesa ao fundo, queria ter uma visão mais ampla de quem entrava e quem saía. Nina chegou com meia hora de atraso, me desculpe, eu nunca me atraso, não sei o que aconteceu. Ela colocou a enorme bolsa sobre a mesa. Está de mudança? eu apontei para a bolsa, ela riu, não, na realidade costuma estar quase vazia, mas eu sempre acho que pode acontecer de eu precisar carregar algo inesperado, tipo o quê?, eu perguntei, sei lá, tipo um chapéu, um abajur, ou um tamanduá. Um tamanduá?, é, eu coleciono, de barro, pedra-sabão, mas os de madeira são os meus preferidos, por causa da textura. E você, coleciona? eu?, não, eu não coleciono nada, aliás nem sei direito como é um tamanduá, ah, parece um urso, um urso com um focinho de tamanduá. Olhei para ela com carinho, ia dizer que estava feliz com o nosso encontro, quando ela me interrompeu, vamos pedir alguma coisa? Eu pedi uma dose de uísque, na época eu achava que todo escritor bebia uísque, ela pediu um suco de acerola, Nina não tinha pretensões literárias. Depois falamos sobre o calor, sobre a faculdade, depois Nina contou da sua família, o pai engenheiro, o avô, meu avô era cineasta quando jovem, dava aulas na universidade e fazia documentários para o partido socialista. Eu bebi várias doses de uísque, muito mais do que estava acostumado, Nina continuou com o suco de acerola, quanto ao final da noite, lembro muito pouco, apenas de ter tentado beijá-la e de ela ter correspondido.
Carola Saavedra, in O inventário das coisas ausentes

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O mutismo

A corda da distância
tem tamanho infinito
inventemos pois
o pé
e o lenço de enxugar
lágrimas antigas
vou me pintar
disposto
na costura
de novas histórias
mas comovido
em segredo
vivo de anotar
no caderninho.
Bruna Beber

Um café lá em casa com Cainã Cavalcante e Nelson Faria

Árvore

Alta, muito alta, e branca, muito branca, de olhos verdes... Sonhei ter visto uma jovem assim? Terei sonhado ou sonhei que sonhava; não sei; essa moça devia ser irmã da árvore, que vi a vez primeira em noite de luar, erguendo para a noite azul os seus galhos unânimes. Mas de manhã, quando abri a janela, e o sol nascia sobre a Cordilheira, é que ela esplendeu em toda sua beleza.
Em muitos caminhos da Europa e do sul do Brasil vi essa árvore; é um álamo, e foram os álamos que inventaram todas as alamedas deste mundo. Em minha rua santiaguina também há muitos; mas o mais alto de todos, o mais forte em viço, em beleza, está junto à calçada, no meu jardim.
Sou um homem confuso e distraído; minha rua chamase Roberto Del Río e na primeira madrugada, quando voltava para casa, disse ao chofer que morava em Roberto Del Mar. O velho chileno riu muito dentro de seu casaco escuro, atrás de seus bigodes brancos; mas quando chegamos à rua e ele me perguntou o número da casa não precisei puxar meu caderno de endereços para responder; apontei a mais de cem metros o meu álamo real.
Nenhuma árvore se lança com tanta veemência para o alto; lança-se o enorme tronco muito branco, lançam-se todos os galhos cobertos de folhas, num impulso de chama verde, vinte jatos de seiva partindo todos para cima, ao longo da mesma reta vertical.
Há um pinheiro estático e extático, há grandes salsochorões derramados para o chão, e a graça menina de uma cerejeira cor de vinho, que o sol oblíquo acende e faz fulgurar; mas o álamo junto do portão tem um vigor e uma pureza que me fazem bem pela manhã, como se toda manhã, ao abrir a janela, eu visse uma jovem imensa, muito clara, de olhos verdes, de pé, sorrindo para mim.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

Cinco mulheres

Domitila Barrios de Chungara

O inimigo principal, qual é? A ditadura militar? A burguesia boliviana? O imperialismo? Não, companheiros. Eu quero dizer só isso: nosso inimigo principal é o medo. Temos medo por dentro.
Só isso disse Domitila na mina de estanho de Catavi e então veio para La Paz, a capital da Bolívia, com outras quatro mulheres e uma vintena de filhos. No Natal começaram a greve de fome. Ninguém acreditou nelas. Vários acharam que esta piada era boa:
Quer dizer que cinco mulheres vão derrubar a ditadura?
O sacerdote Luis Espinal é o primeiro a se somar. Num minuto já são mil e quinhentos os que passam fome na Bolívia inteira, de propósito. As cinco mulheres, acostumadas à fome desde que nasceram, chamam a água de frango ou peru, de costeleta o sal, e o riso as alimenta. Multiplicam-se enquanto isso os grevistas de fome, três mil, dez mil, até que são incontáveis os bolivianos que deixam de comer e deixam de trabalhar e vinte e três dias depois do começo da greve de fome o povo se rebela e invade as ruas e já não há como parar isto.
Em 1978, as cinco mulheres derrubam a ditadura militar.
Eduardo Galeano, in Mulheres

O dia de São Nunca (trecho)

Lagartixa? Ui!
Aquilo era nojo, o menino sabia. Agora era capaz de vê-lo de perto, via-o por trás das palavras, de cada uma das duas únicas palavras que a moça disse: o nojo estava estampado em seu rosto, na sua perturbadora cara de espanto, no tremelicar de seus braços arrepiados, como se esta estranha moça tivesse num repente pressentido a própria morte. Nojo de uma coisa de que ninguém devia ter nojo, o menino pensou, encolhendo-se ainda mais debaixo da coberta encardida que ele puxou sobre as pernas. Ele pelo menos não tinha. Talvez já soubesse também (ou suspeitasse) a pior das verdades: era dele que a moça estava com nojo e não apenas daquilo que ele disse, quando falou em “minha irmãzinha lagartixa”. Havia dito isso com a mesma e tranquila certeza com que falara antes em “meu paizinho Santo Antônio”, apontando para o santo no nicho à sua frente, seu velho companheiro de todos os dias, como as lagartixas. Este santo era um presente de um tio que tinha cara de santo, isto é, foi feito pelas mãos abençoadas de um marceneiro que foi capaz de transformar um toco de madeira num santo verdadeiro — e todos viram o dia em que o padre lhe deu validade de santo, naquele dia em que ele veio à sua casa para benzê-lo.
Quieto estava, quieto continuou. Ia fazer o que podia: revirar os olhos (duas jabuticabas idiotas que giravam descompassadas de um canto a outro sem a menor consciência de si mesmas), para novamente voltar a olhar para as telhas. Voltaria a conversar com suas amiguinhas. E lá estavam elas, estas preguiçosas, cochilando entre as ripas, alheias a tudo. Com elas, sim, ele podia contar. Iria dizer-lhes que não tinha culpa se a moça não as estimava. Mas quando o sangue que se agitava no rosto da moça voltasse a se acalmar, ele iria ter que explicar melhor as coisas, para que a sua inesperada visita não se vá pensando bobagem. As pessoas das cidades não são como as daqui. Nada entendem de lagartixa.
Lá fora havia calma, nenhum sinal de gente. Ele sabia o que isto significava: todos os homens já tinham ido para a roça. Era um dia claro, completamente azul. Nos dias assim sua mãe abria a janela e ele podia ver a rua. Prostrado a vida inteira num estrado, o menino se alegrou muito com a chegada da moça e dos dois rapazes. Não sabia o que queriam, mas isso não importava. Estes três forasteiros pareciam enviados de Deus para lhe fazer companhia. Ia ter muito o que contar quando sua mãe voltasse.
E foi assim que os recebeu: feliz. Feliz, feliz.
Eram estranhos até na maneira de chegar. Primeiro amontoaram-se na janela, falando entre si, numa língua incompreensível. Depois perguntaram-lhe qualquer coisa, que não compreendeu direito. Pelas falas via-se logo que não era gente destes lados. Mas apesar disso iriam se entender, como ficaria sabendo daí a pouco.
Cheguem à frente — disse o menino e não precisou dizer mais nada. A porta estava encostada, como sempre.
Visita era coisa boa, viesse de onde viesse, fossem parentes ou não. Sempre experimentava um prazer imenso quando aparecia alguma. O difícil era saber se o que lhe agradava era apenas a companhia, a novidade da presença de alguém — menino ou gente grande, tanto fazia —, alguém disposto a dedicar-lhe um pouco de tempo, por menor que fosse. Os que chegavam traziam-lhe o mundo de fora, o desconhecido e largo mundo a que não pertencia. Por isso sugava cada palavra que lhe era dita, com a mesma fé cega com que engolia a hóstia que o padre metia em sua boca de ano em ano. Foi assim que ele aprendeu, desde muito pequeno, a conversar com os outros: prestando muita atenção nas palavras que ouvia, guardando-as para repeti-las mais tarde, como se ele próprio fosse um paiol muito fundo capaz de armazenar toda a sabedoria da vida que os outros lhe passavam, naturalmente. Mas talvez tivesse nisso também o prazer de ver as pessoas sofrerem por sua causa (ou fingir que sofriam), sempre aqueles olhares caídos para o chão, o não dito e o por dizer escritos em cada cara, que-pena-que-eu-tenho-desse-menino, tadinho. Tadinho! E aí (quem sabe nem o soubesse?) estava a sua vingança, sua espécie particular de crueldade: vê-las sofrer enchia-lhe a boca de saliva.
Estes três forasteiros eram diferentes. Olhavam-no de frente, sem cerimônia. Faziam-lhe muitas perguntas, às vezes dando a impressão de que queriam embaraçá-lo. Tiravam muitos retratos. Essa parte foi a que mais gostou: aqueles cliques-cliques rápidos e até engraçados, parecidos com a fala dos grilos. Como gostaria de ter um brinquedo desses. Só não falou isso porque se lembrou de uma coisa que sua mãe costumava dizer. Nunca se deve pedir nada a ninguém. Espere que lhe ofereçam.
Mais tarde ele diria que a moça era parecida com uma ovelha, por causa da cor de seus cabelos lanzudos. E que um dos rapazes era um sujeito amarelo, de olho rasgado, e que gente assim nunca tinha visto antes. E que o outro lembrava um copo de leite, de tão branco. Foi o que sua mãe contou para o delegado, que contou na venda, de noite, quando o alvoroço já estava formado. O delegado especulava, precisava registrar o caso. Uns disseram que aquele menino vivia sonhando acordado. Ninguém viu forasteiro algum. Outros estiveram de acordo quanto a um ponto: os tempos estavam mudando. Até paulista já aparecia por aqui. Mas não faltou quem dissesse ter visto, com seus próprios olhos, os três chegarem e sumirem dentro de uma bola esquisita, que mais parecia um cavalo de fogo, e que só podia ser o tal de disco voador.
Que disco voador, que nada. Você está é bestando.
Esse tal de disco voador é coisa do diabo, homem.
Quem sabe ele não está certo? Vai ver é o fim do mundo que está chegando. Ele viu uma bola de fogo, não viu?
Com estes olhos que a terra há de comer — garantia o homem em quem não se estava acreditando.
Vocês estão é bestando. Todo mundo bestando aí como uns tontos — cortou o que não ia nessa conversa de disco voador. — Esses forasteiros não passam de uns moleques sem-vergonha, uns vidas-tortas que não têm o que fazer. Se pego eles boto tudo num cabo de uma enxada, pra eles verem o que é bom.
Vamos ou não vamos pegar esses cachorros, delegado? — O primeiro adepto do que falara antes também espumava, seu ódio também não era pequeno. Ele exigia uma ação qualquer, uma medida prática, pedia o que muitos queriam: a caça urgente aos dois rapazes e à moça, que mereciam o mesmo castigo dedicado aos ladrões de galinha.
Calado e inquieto, o delegado ouvia a todos. Parecia escutar até os mais maldizentes resmungos, o disse-me-disse cochichado, a desconfiança — essa surrada desconfiança local que tem olho torto e sempre se denuncia: onde estavam ele e os dois soldados que não viam nada? Por que deixaram a rua escancarada, como um curral sem dono, justamente na hora em que todos estavam na roça, trabalhando? Jogavam damas na cadeira, damas ou baralho, qualquer coisa assim — era só para isso que serviam essas autoridades?
Já não adianta — a voz do delegado parecia convencida da sua própria derrota, uma derrota que estava mais do que clara aos olhos dos outros. Uma voz de quem implorava: Tenham dó de mim. Que posso fazer? Mas que em vez disso, disse: — A estas horas eles estão bem longe. Já pegaram o asfalto há muito tempo. Depois (nesse instante olhou com firmeza para os homens à sua frente, como se os chamasse à responsabilidade), depois, como é que eu vou saber quem são eles? Ninguém anotou a chapa do carro, ninguém viu esses forasteiros.
Ninguém era maneira de dizer. Ou melhor: de dar o caso por encerrado. Porque o menino tinha as provas, os dados reais e indiscutíveis que confirmavam a existência deles. Bastava que se acreditasse no seu relato, nos tintins por tintins que não se cansava de repetir. Agora sua casa se enchia. Nunca imaginou que pudesse ser tão visitado num mesmo e único dia. Era uma festa.
E eis como tudo aconteceu:
A moça entrou na frente; era a mais assanhada. Disse que estava com sede. O menino pensou: eles vieram aqui porque querem água. E mamãe sai logo numa hora dessas. Apontou lá para dentro, indicando a cozinha, no fundo do corredor. Lá havia um pote, que devia estar cheio. A caneca estava por perto. Era só procurar. Não deu, porém, maiores explicações sobre o fato de não poder sair do seu estrado para servir à moça. Disse apenas:
Estou doente. — Quase completa: Estou doente desde sempre. Nasci assim. Pelo menos é o que me dizem. Como papai quando tomava umas cachaças e reclamava lá do quarto, pensando que eu não estava ouvindo: “E eu que precisava tanto ter um filho com pernas para andar e braços para o cabo da enxada.” Mamãe não gostava: “Homem, não diga uma coisa dessas. Olha o castigo de Deus.” Eu era bem pequeno quando papai morreu. Será que foi castigo?
Um dos rapazes começou tirando retrato do santo no nicho. O outro fotografava o menino. Ele perguntou:
O que é isso?
Máquina fotográfica.
E o que é isso?
Fotografia... retrato.
Ah, bom — retrato ele sabia o que era. Já tinham lhe contado. A cara da gente num papel, como um espelho. A gente olha e se vê.
Foi então que a moça voltou. Disse uma coisa para os dois, que acharam muita graça. O menino não entendeu a razão das risadas. O que ela disse:
Isso aqui é tão primitivo.
O menino ficou olhando para os três, sem saber o que dizer. Então eles pararam de rir e começaram a fazer perguntas:
Você fica sempre assim... sozinho?
É o jeito — ele disse, mas sem amargura. Encantado como estava, nem sequer prestava muito atenção no que dizia, nem no que lhe era perguntado.
É o jeito?
Sim. Mamãe está trabalhando. Quando der meio-dia, ela vem para me dar comida, depois volta.
Ela vem exatamente ao meio-dia? — o que fez esta pergunta olhou no relógio. Disse para os outros: — Já são onze horas. Temos pouco tempo.
Mais ou menos — informou o menino. — Quando o sol estiver a pino.
Calma — falou a moça para o rapaz que disse as horas. — Dá tempo. — E, para o menino: — Você não tem medo de ficar aqui sozinho? Não tem medo de ladrão?
Ladrão? Aqui não tem ladrão.
Porque não tem o que se roubar, não é?
Eu acho que é.
A moça quis saber onde a mãe dele estava trabalhando. O menino disse:
Na roça. Está plantando feijão. — E acrescentou: — Mas ela é rezadeira.
Então a moça disse:
O que é isso?
O menino sorriu. Agora, sim, ele estava verdadeiramente excitado. Tanto que lambia os beiços e esfregava uma mão na outra, apertava uma mão com a outra, estalava os dedos. Então havia uma coisa que essa moça não sabia? Então ele agora ia poder dar uma lição para estes sabidos? Ia. Nenhum deles sabia o que era uma rezadeira. Faziam confusão, falavam em gente que vive rezando.
Podemos dizer — o menino explicava — que gente que vive rezando é gente rezadeira. Mas uma rezadeira é outra coisa. Se mamãe chegasse logo para dar um exemplo…
Antônio Torres, in Meninos, eu conto