quarta-feira, 21 de junho de 2017

O mutismo

A corda da distância
tem tamanho infinito
inventemos pois
o pé
e o lenço de enxugar
lágrimas antigas
vou me pintar
disposto
na costura
de novas histórias
mas comovido
em segredo
vivo de anotar
no caderninho.
Bruna Beber

Um café lá em casa com Cainã Cavalcante e Nelson Faria

Árvore

Alta, muito alta, e branca, muito branca, de olhos verdes... Sonhei ter visto uma jovem assim? Terei sonhado ou sonhei que sonhava; não sei; essa moça devia ser irmã da árvore, que vi a vez primeira em noite de luar, erguendo para a noite azul os seus galhos unânimes. Mas de manhã, quando abri a janela, e o sol nascia sobre a Cordilheira, é que ela esplendeu em toda sua beleza.
Em muitos caminhos da Europa e do sul do Brasil vi essa árvore; é um álamo, e foram os álamos que inventaram todas as alamedas deste mundo. Em minha rua santiaguina também há muitos; mas o mais alto de todos, o mais forte em viço, em beleza, está junto à calçada, no meu jardim.
Sou um homem confuso e distraído; minha rua chamase Roberto Del Río e na primeira madrugada, quando voltava para casa, disse ao chofer que morava em Roberto Del Mar. O velho chileno riu muito dentro de seu casaco escuro, atrás de seus bigodes brancos; mas quando chegamos à rua e ele me perguntou o número da casa não precisei puxar meu caderno de endereços para responder; apontei a mais de cem metros o meu álamo real.
Nenhuma árvore se lança com tanta veemência para o alto; lança-se o enorme tronco muito branco, lançam-se todos os galhos cobertos de folhas, num impulso de chama verde, vinte jatos de seiva partindo todos para cima, ao longo da mesma reta vertical.
Há um pinheiro estático e extático, há grandes salsochorões derramados para o chão, e a graça menina de uma cerejeira cor de vinho, que o sol oblíquo acende e faz fulgurar; mas o álamo junto do portão tem um vigor e uma pureza que me fazem bem pela manhã, como se toda manhã, ao abrir a janela, eu visse uma jovem imensa, muito clara, de olhos verdes, de pé, sorrindo para mim.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

Cinco mulheres

Domitila Barrios de Chungara

O inimigo principal, qual é? A ditadura militar? A burguesia boliviana? O imperialismo? Não, companheiros. Eu quero dizer só isso: nosso inimigo principal é o medo. Temos medo por dentro.
Só isso disse Domitila na mina de estanho de Catavi e então veio para La Paz, a capital da Bolívia, com outras quatro mulheres e uma vintena de filhos. No Natal começaram a greve de fome. Ninguém acreditou nelas. Vários acharam que esta piada era boa:
Quer dizer que cinco mulheres vão derrubar a ditadura?
O sacerdote Luis Espinal é o primeiro a se somar. Num minuto já são mil e quinhentos os que passam fome na Bolívia inteira, de propósito. As cinco mulheres, acostumadas à fome desde que nasceram, chamam a água de frango ou peru, de costeleta o sal, e o riso as alimenta. Multiplicam-se enquanto isso os grevistas de fome, três mil, dez mil, até que são incontáveis os bolivianos que deixam de comer e deixam de trabalhar e vinte e três dias depois do começo da greve de fome o povo se rebela e invade as ruas e já não há como parar isto.
Em 1978, as cinco mulheres derrubam a ditadura militar.
Eduardo Galeano, in Mulheres

O dia de São Nunca (trecho)

Lagartixa? Ui!
Aquilo era nojo, o menino sabia. Agora era capaz de vê-lo de perto, via-o por trás das palavras, de cada uma das duas únicas palavras que a moça disse: o nojo estava estampado em seu rosto, na sua perturbadora cara de espanto, no tremelicar de seus braços arrepiados, como se esta estranha moça tivesse num repente pressentido a própria morte. Nojo de uma coisa de que ninguém devia ter nojo, o menino pensou, encolhendo-se ainda mais debaixo da coberta encardida que ele puxou sobre as pernas. Ele pelo menos não tinha. Talvez já soubesse também (ou suspeitasse) a pior das verdades: era dele que a moça estava com nojo e não apenas daquilo que ele disse, quando falou em “minha irmãzinha lagartixa”. Havia dito isso com a mesma e tranquila certeza com que falara antes em “meu paizinho Santo Antônio”, apontando para o santo no nicho à sua frente, seu velho companheiro de todos os dias, como as lagartixas. Este santo era um presente de um tio que tinha cara de santo, isto é, foi feito pelas mãos abençoadas de um marceneiro que foi capaz de transformar um toco de madeira num santo verdadeiro — e todos viram o dia em que o padre lhe deu validade de santo, naquele dia em que ele veio à sua casa para benzê-lo.
Quieto estava, quieto continuou. Ia fazer o que podia: revirar os olhos (duas jabuticabas idiotas que giravam descompassadas de um canto a outro sem a menor consciência de si mesmas), para novamente voltar a olhar para as telhas. Voltaria a conversar com suas amiguinhas. E lá estavam elas, estas preguiçosas, cochilando entre as ripas, alheias a tudo. Com elas, sim, ele podia contar. Iria dizer-lhes que não tinha culpa se a moça não as estimava. Mas quando o sangue que se agitava no rosto da moça voltasse a se acalmar, ele iria ter que explicar melhor as coisas, para que a sua inesperada visita não se vá pensando bobagem. As pessoas das cidades não são como as daqui. Nada entendem de lagartixa.
Lá fora havia calma, nenhum sinal de gente. Ele sabia o que isto significava: todos os homens já tinham ido para a roça. Era um dia claro, completamente azul. Nos dias assim sua mãe abria a janela e ele podia ver a rua. Prostrado a vida inteira num estrado, o menino se alegrou muito com a chegada da moça e dos dois rapazes. Não sabia o que queriam, mas isso não importava. Estes três forasteiros pareciam enviados de Deus para lhe fazer companhia. Ia ter muito o que contar quando sua mãe voltasse.
E foi assim que os recebeu: feliz. Feliz, feliz.
Eram estranhos até na maneira de chegar. Primeiro amontoaram-se na janela, falando entre si, numa língua incompreensível. Depois perguntaram-lhe qualquer coisa, que não compreendeu direito. Pelas falas via-se logo que não era gente destes lados. Mas apesar disso iriam se entender, como ficaria sabendo daí a pouco.
Cheguem à frente — disse o menino e não precisou dizer mais nada. A porta estava encostada, como sempre.
Visita era coisa boa, viesse de onde viesse, fossem parentes ou não. Sempre experimentava um prazer imenso quando aparecia alguma. O difícil era saber se o que lhe agradava era apenas a companhia, a novidade da presença de alguém — menino ou gente grande, tanto fazia —, alguém disposto a dedicar-lhe um pouco de tempo, por menor que fosse. Os que chegavam traziam-lhe o mundo de fora, o desconhecido e largo mundo a que não pertencia. Por isso sugava cada palavra que lhe era dita, com a mesma fé cega com que engolia a hóstia que o padre metia em sua boca de ano em ano. Foi assim que ele aprendeu, desde muito pequeno, a conversar com os outros: prestando muita atenção nas palavras que ouvia, guardando-as para repeti-las mais tarde, como se ele próprio fosse um paiol muito fundo capaz de armazenar toda a sabedoria da vida que os outros lhe passavam, naturalmente. Mas talvez tivesse nisso também o prazer de ver as pessoas sofrerem por sua causa (ou fingir que sofriam), sempre aqueles olhares caídos para o chão, o não dito e o por dizer escritos em cada cara, que-pena-que-eu-tenho-desse-menino, tadinho. Tadinho! E aí (quem sabe nem o soubesse?) estava a sua vingança, sua espécie particular de crueldade: vê-las sofrer enchia-lhe a boca de saliva.
Estes três forasteiros eram diferentes. Olhavam-no de frente, sem cerimônia. Faziam-lhe muitas perguntas, às vezes dando a impressão de que queriam embaraçá-lo. Tiravam muitos retratos. Essa parte foi a que mais gostou: aqueles cliques-cliques rápidos e até engraçados, parecidos com a fala dos grilos. Como gostaria de ter um brinquedo desses. Só não falou isso porque se lembrou de uma coisa que sua mãe costumava dizer. Nunca se deve pedir nada a ninguém. Espere que lhe ofereçam.
Mais tarde ele diria que a moça era parecida com uma ovelha, por causa da cor de seus cabelos lanzudos. E que um dos rapazes era um sujeito amarelo, de olho rasgado, e que gente assim nunca tinha visto antes. E que o outro lembrava um copo de leite, de tão branco. Foi o que sua mãe contou para o delegado, que contou na venda, de noite, quando o alvoroço já estava formado. O delegado especulava, precisava registrar o caso. Uns disseram que aquele menino vivia sonhando acordado. Ninguém viu forasteiro algum. Outros estiveram de acordo quanto a um ponto: os tempos estavam mudando. Até paulista já aparecia por aqui. Mas não faltou quem dissesse ter visto, com seus próprios olhos, os três chegarem e sumirem dentro de uma bola esquisita, que mais parecia um cavalo de fogo, e que só podia ser o tal de disco voador.
Que disco voador, que nada. Você está é bestando.
Esse tal de disco voador é coisa do diabo, homem.
Quem sabe ele não está certo? Vai ver é o fim do mundo que está chegando. Ele viu uma bola de fogo, não viu?
Com estes olhos que a terra há de comer — garantia o homem em quem não se estava acreditando.
Vocês estão é bestando. Todo mundo bestando aí como uns tontos — cortou o que não ia nessa conversa de disco voador. — Esses forasteiros não passam de uns moleques sem-vergonha, uns vidas-tortas que não têm o que fazer. Se pego eles boto tudo num cabo de uma enxada, pra eles verem o que é bom.
Vamos ou não vamos pegar esses cachorros, delegado? — O primeiro adepto do que falara antes também espumava, seu ódio também não era pequeno. Ele exigia uma ação qualquer, uma medida prática, pedia o que muitos queriam: a caça urgente aos dois rapazes e à moça, que mereciam o mesmo castigo dedicado aos ladrões de galinha.
Calado e inquieto, o delegado ouvia a todos. Parecia escutar até os mais maldizentes resmungos, o disse-me-disse cochichado, a desconfiança — essa surrada desconfiança local que tem olho torto e sempre se denuncia: onde estavam ele e os dois soldados que não viam nada? Por que deixaram a rua escancarada, como um curral sem dono, justamente na hora em que todos estavam na roça, trabalhando? Jogavam damas na cadeira, damas ou baralho, qualquer coisa assim — era só para isso que serviam essas autoridades?
Já não adianta — a voz do delegado parecia convencida da sua própria derrota, uma derrota que estava mais do que clara aos olhos dos outros. Uma voz de quem implorava: Tenham dó de mim. Que posso fazer? Mas que em vez disso, disse: — A estas horas eles estão bem longe. Já pegaram o asfalto há muito tempo. Depois (nesse instante olhou com firmeza para os homens à sua frente, como se os chamasse à responsabilidade), depois, como é que eu vou saber quem são eles? Ninguém anotou a chapa do carro, ninguém viu esses forasteiros.
Ninguém era maneira de dizer. Ou melhor: de dar o caso por encerrado. Porque o menino tinha as provas, os dados reais e indiscutíveis que confirmavam a existência deles. Bastava que se acreditasse no seu relato, nos tintins por tintins que não se cansava de repetir. Agora sua casa se enchia. Nunca imaginou que pudesse ser tão visitado num mesmo e único dia. Era uma festa.
E eis como tudo aconteceu:
A moça entrou na frente; era a mais assanhada. Disse que estava com sede. O menino pensou: eles vieram aqui porque querem água. E mamãe sai logo numa hora dessas. Apontou lá para dentro, indicando a cozinha, no fundo do corredor. Lá havia um pote, que devia estar cheio. A caneca estava por perto. Era só procurar. Não deu, porém, maiores explicações sobre o fato de não poder sair do seu estrado para servir à moça. Disse apenas:
Estou doente. — Quase completa: Estou doente desde sempre. Nasci assim. Pelo menos é o que me dizem. Como papai quando tomava umas cachaças e reclamava lá do quarto, pensando que eu não estava ouvindo: “E eu que precisava tanto ter um filho com pernas para andar e braços para o cabo da enxada.” Mamãe não gostava: “Homem, não diga uma coisa dessas. Olha o castigo de Deus.” Eu era bem pequeno quando papai morreu. Será que foi castigo?
Um dos rapazes começou tirando retrato do santo no nicho. O outro fotografava o menino. Ele perguntou:
O que é isso?
Máquina fotográfica.
E o que é isso?
Fotografia... retrato.
Ah, bom — retrato ele sabia o que era. Já tinham lhe contado. A cara da gente num papel, como um espelho. A gente olha e se vê.
Foi então que a moça voltou. Disse uma coisa para os dois, que acharam muita graça. O menino não entendeu a razão das risadas. O que ela disse:
Isso aqui é tão primitivo.
O menino ficou olhando para os três, sem saber o que dizer. Então eles pararam de rir e começaram a fazer perguntas:
Você fica sempre assim... sozinho?
É o jeito — ele disse, mas sem amargura. Encantado como estava, nem sequer prestava muito atenção no que dizia, nem no que lhe era perguntado.
É o jeito?
Sim. Mamãe está trabalhando. Quando der meio-dia, ela vem para me dar comida, depois volta.
Ela vem exatamente ao meio-dia? — o que fez esta pergunta olhou no relógio. Disse para os outros: — Já são onze horas. Temos pouco tempo.
Mais ou menos — informou o menino. — Quando o sol estiver a pino.
Calma — falou a moça para o rapaz que disse as horas. — Dá tempo. — E, para o menino: — Você não tem medo de ficar aqui sozinho? Não tem medo de ladrão?
Ladrão? Aqui não tem ladrão.
Porque não tem o que se roubar, não é?
Eu acho que é.
A moça quis saber onde a mãe dele estava trabalhando. O menino disse:
Na roça. Está plantando feijão. — E acrescentou: — Mas ela é rezadeira.
Então a moça disse:
O que é isso?
O menino sorriu. Agora, sim, ele estava verdadeiramente excitado. Tanto que lambia os beiços e esfregava uma mão na outra, apertava uma mão com a outra, estalava os dedos. Então havia uma coisa que essa moça não sabia? Então ele agora ia poder dar uma lição para estes sabidos? Ia. Nenhum deles sabia o que era uma rezadeira. Faziam confusão, falavam em gente que vive rezando.
Podemos dizer — o menino explicava — que gente que vive rezando é gente rezadeira. Mas uma rezadeira é outra coisa. Se mamãe chegasse logo para dar um exemplo…
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

terça-feira, 20 de junho de 2017

A noite desce

A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das coisas,
E m’aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Calvin e Haroldo


Imagino

Necessito, logo imagino.”
Carlos Fuentes

Betúlia

A moça — esguia, linha “dançante”, sapatos de bico quadrado — dirigiu-se à livreira:
Ele me pediu que viesse ver uns livros. A senhora está informada?
Estou. Telefonou pedindo que separássemos todos os livros sobre Betúlia. Mas ele não vem escolher pessoalmente?
Coitado, não pode. Está estudando.
Estes livros também servem para estudo — a livreira sorriu.
É claro. Mas além disso está tomando providências, para não ser colhido de surpresa.
Surpresa? Pois já não foi escolhido?
Escolhido, foi. Não foi é convidado. Estamos aguardando a qualquer hora.
Ahn.
O presidente deu-lhe um tapinha no ombro e disse que precisava dele.
Precisava para quê?
Só pode ser para embaixador.
Em Betúlia?
Ele escreveu um artigo sobre ritos tribais em Betúlia. O presidente não perde os artigos dele. Se bem que ele preferisse ficar por aqui mesmo, num posto de responsabilidade. Há tantos. Me mostre os livros, por gentileza.
São esses. A pilha é grande, como vê.
Ótimo. Quanto mais volumes ele ler, mais habilitado estará para ser um grande embaixador em Betúlia, não é mesmo? Se bem que, para mim, não há nada como a observação direta, a vivência. Ele é inteligentíssimo, chega a Betúlia e domina logo a situação.
De qualquer maneira, os livros não lhe farão mal…
Lógico. Livro nunca é demais, ajuda a compor o ambiente de uma embaixada. Tem algum de estampas?
Muitos são ilustrados.
Eu vou selecionar as obras, mas queira começar pelos álbuns de estampas. A gente fica tendo uma ideia rápida dos lugares, das pessoas, do jeito de vida. O texto tem muita importância, é evidente, mas nessa época de viagens siderais… a senhora não acha?
Este álbum sobre Opopônax é muito curioso.
Opopônax? Eu sei, capital de Betúlia. Só esse nome dá vontade de ir lá. As outras cidades principais são… Bem, este ele não pode perder. Reserve um exemplar. E sobre tradições, artes, história da Betúlia, será que tem? Ótimo, ótimo. Dizem que eles trabalham em marfim que é um estouro. Esses livros sobre economia, a senhora guarda para ele mesmo examinar, negócio de minério, de rebanhos, eu não entendo. E daí, ele também precisa fazer um pouco de força, não é? Estou brincando. Trabalhar, para ele, é até um vício. Que horas são?
Doze menos cinco.
E hoje é sábado, preciso ir correndo a uma boutique da rua Constante Ramos! Não tenho tempo de ver mais nada, vamos fazer o seguinte. Selecione os que a senhora achar bons mesmo, que possam impressionar os senadores, e mande para ele, com a fatura. É mais prático. O álbum eu mesma levo. Depois ele paga tudo, sim?
Pois não, senhora embaixatriz.
Embaixatriz, eu? Por quê?
Não é a senhora dele?
Sou a secretária. Ela também anda ocupadíssima. Trabalho com ele há cinco anos e posso garantir que é um amor de homem, vai ser o melhor embaixador do mundo. E como não pode passar sem o meu trabalho, vai me levar também para Betúlia. Adeusinho, muito obrigada!
Carlos Drummond de Andrade, in A bolsa & a vida

Serei pra ti - Mestrinho e Ivete Sangalo

Inteligência pura, sábia, temperante, justa

Não te arrastes penosamente em tuas ações nem sejas confuso em tua conversa nem devaneies em tua imaginação nem, resumindo, deixes que tua alma se feche em si mesma ou seja efusiva demais nem te deixes absorver inteiramente por teus afazeres. Assassinam-te, despedaçam-te, perseguem-te com maldições. Em que isso impede tua inteligência de permanecer pura, sábia, temperante, justa? É como e um caminhante, parando diante de uma fonte límpida e doce, a injuriasse. Ela não pararia, por isso, de correr sempre boa para beber. Se ele jogar lodo ou esterco nela, logo eles se diluirão, levados por ela, e nenhuma impureza restará. Como possuir, então, uma fonte perene? Faze crescer em ti a cada hora a liberdade, além da benevolência e franqueza e modéstia.”
Marco Aurélio, in Meditações

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fita-verde no cabelo (Nova velha estória)


Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: — “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.” A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiínhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
— “Quem é?”
— “Sou eu...” — e Fita-Verde descansou a voz. — “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”
Vai, a avó, difícil disse: — “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.”
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: — “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
— “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”
— “É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta...” — a avó murmurou.
— “Vovozinha, mas que lábios, ai, tão arroxeados!”
— “É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta...” — a avó suspirou.
— “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?”
— “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha...” — a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: — “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!”
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Esboço do sonho do líder

O sono do líder é agitado. A mulher sacode-o até acordá-lo do pesadelo. Estremunhado, ele se levanta, bebe um pouco de água, vai ao banheiro onde se vê diante do espelho. O que vê ele? Um homem de meia-idade. Ele alisa os cabelos das têmporas, volta a deitar-se. Adormece e a agitação do mesmo sonho recomeça.”Não, não!” debate-se com a garganta seca.
É que o líder se assusta enquanto dorme. O povo ameaça o líder? Não, pois se foi o povo que o elegeu como líder do povo. O povo ameaça o líder? Não, pois escolheu-o no meio de lutas quase sangrentas. O povo ameaça o líder? Não, porque o líder cuida do povo. Cuida do povo? Sim, o povo ameaça o líder do povo. O líder revolve-se na cama. De noite ele tem medo.
Mesmo que seja um pesadelo sem história. De noite vê caras quietas, uma atrás da outra. E nenhuma expressão nas caras. É só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada noite, mal adormece, mais caras quietas vão-se reunindo às outras, como na fotografia em branco e preto de uma multidão em silêncio. Por quem é este silêncio? Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como numa repetição monótona de um rosto só. Parece uma terrível fotomontagem onde a inexpressão das caras dá-lhe medo. Nesse painel monstruoso, caras sem expressão. Mas o líder se cobre de suores porque os milhares de olhos vazios não pestanejavam. Eles o haviam escolhido. E antes que eles enfim se aproximassem definitivamente, ele gritou: sim, eu menti!
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Já?

Cem vezes o sol jorrara, radioso ou entristecido, da cuba imensa do mar, cujas bordas mal se deixam perceber; e cem vezes tornara a mergulhar, cintilante ou melancólico, no imenso banho da noite. Havia numerosos dias, podíamos contemplar o outro lado do firmamento e decifrar o alfabeto celeste dos antípodas. Todos os passageiros gemiam e ressonavam. Dir-se-ia que a aproximação da terra exasperava-lhes o sofrimento. Diziam eles: — Quando deixaremos de dormir este sono sacudido pelas vagas, perturbado por esse vento que ronca mais alto do que nós? Quando poderemos sossegar numa poltrona imóvel? Havia os que pensavam no lar, com saudade da mulher infiel e impaciente, e da prole barulhenta. Estavam todos tão alucinados com a imagem da terra ausente, que teriam, creio, comido a erva com mais entusiasmo do que os irracionais.
Por fim, surgiu uma praia. Aproximando-nos, vimos que era uma terra magnífica, deslumbrante. Parecia que as músicas da vida se destacavam dela num vago murmúrio e que daquela costa, rica em verduras de toda espécie, se desprendia, até várias léguas, um cheiro delicioso de flores e frutos.
Logo se alegraram todos, abdicando o mau humor. Todas as rusgas foram esquecidas, todas as recíprocas ofensas perdoadas. Riscaram-se da memória os duelos marcados, e o rancor dissipou-se como fumaça.
Somente eu estava triste, inconcebivelmente triste. Como um sacerdote a quem se arrancasse sua divindade, eu não podia, sem uma aflita amargura, separar-me daquele mar tão monstruosamente sedutor, tão infinitamente variado em sua medonha simplicidade, que parece conter e representar, com suas diversões, suas maneiras, suas cóleras e seus sorrisos, os humores, as agonias e os êxtases de todas as almas que viveram, vivem e viverão! Dizendo adeus àquela beleza incomparável, eu me sentia mortalmente abatido.
Quando os meus companheiros disseram: “Enfim!”, só pude gritar: “Já?” No entanto, era a terra, a terra com seus ruídos, suas paixões, suas comodidades, suas festas. Terra rica e magnífica, cheia de promessas, que nos enviava um misterioso perfume de rosa e de musgo, e de onde as músicas da vida nos chegavam num amoroso murmúrio.
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

domingo, 18 de junho de 2017

Fazer poemas

Ora (direis) fazer poemas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi também
Que, por fazê-los, muitas vezes despertou
E encontro os bolsos sem nenhum vintém.

Mas vou seguindo o meu futuro incerto
Compondo versos, muito mal ou bem,
Enquanto vejo algum fulano esperto
Nadando em cifras que tão poucos têm.

Direis agora: - Sendo assim desiste!
O que procuras, tresloucado amigo,
Pode ser nobre, mas também é triste!

E eu vos direis: Amai!… Amai primeiro!
Pois só quem ama pode ter consigo
Tantos poemas e nenhum dinheiro!
Marcos Ferreira, poeta mossoroense

Pirajá, 8 de novembro de 1822

Sentado debaixo de uma jaqueira com as pernas esticadas e abertas, comendo um pão de milho meio seco e dando dentadas enormes num pedaço de chouriço assado, Perilo Ambrósio Góes Farinha resolveu reclamar com os dois escravos que lhe faziam companhia, embora eles não tivessem cometido falta alguma e apenas o observassem de olhos famintos. Estava irritado com a comida. Sempre fora assim, desde pequeno, muito sensível a decepções relativas a comida. Podia ser apenas uma expectativa frustrada, podia ser qualquer coisa, até mesmo alguém que conseguisse chegar antes a um naco em que estivesse de mira feita, apesar da boca cheia e da atenção vigilantíssima que costumava dar a toda a comida sobre a mesa, enquanto devorava fragorosamente a que empilhava nas duas ou três selhas de louça da terra que lhe serviam de pratos. Lembrou, como de hábito sentindo o peito ofender-se e doer a solidão pesada da injustiça, que o pai ameaçara pela décima ou trigésima vez expulsá-lo da vila e da fazenda, ao vê-lo atacar uma das irmãs com um chuço de assar porque ela se apossara primeiro de um pedaço de carne distante mas cobiçado. Não tinha como alcançar aquela salpresa a resplender entre maxixes e jilós na outra ponta da mesa, nem mesmo podia reservá-la para si com gritos e ameaças, porque o atrapalhava a boca ingurgitada de toras de toucinho com farinha que calcava com ânsia por todos os espaços da boca e, ao mesmo tempo, não se permitia deixar de angustiar-se por medo de furtarem de suas pilhetas abarrotadas bocados já antecipados aos fungos e suspiros, se parasse de lhes dar atenção ainda que alguns instantes. Então não cabia fazer nada, a não ser, com os olhos de uma baleia ferida, voar por cima daquele intolerável abismo entre ele e o pedaço de carne e, antes que a irmã mordesse o que era dele, transfixar-lhe a mão com o chuço preto e gorduroso. Por que me perseguem? — pensou em gritar ainda, revoltado, mas, enquanto carregavam para dentro a irmã com o espeto atravessado da palma às costas da mão, as negras levantando uma algazarra descabida, o pai arrancou-lhe a lasca de carne de entre os dentes em meio a uma chuva de tabefes, obrigando-o a sair da mesa e não mais comer naquele dia. Dentro do quarto em que o pai o trancou, ardeu de ódio e despeito e chorou quase o tempo todo, em soluços esganiçados tão fundos que às vezes pensava que nunca teriam fim. Entre outras vinganças com as quais sonhava de quando em quando e acordava pingando suor, jurou em voz alta que um dia obrigaria aquela irmã a passar fome enquanto ele comesse diante dela, pois jamais, agora que fora ingratamente magoado, existirá em toda a Terra carne suficiente para matar a fome por aquele pedaço usurpado e arrancado à força de seus dentes desesperados. Expulso de casa, sim, tinha sido, muito depois. Mas isso não queria dizer mais nada agora, chegou quando todos os seus outros rancores já o envenenavam a cada momento do dia.
Pois dão-me água a beber! — falou, com a voz mais estridente e alta que o normal, como sempre acontecia quando se dirigia aos negros. — Água! Não basta que tenha de comer esta massamorda pestífera, há também que lavar a goela com água! Anda lá, dá-me cá esta cabaça! Feliciano, o negro mais jovem, saiu do sol onde seu amo o obrigara a ficar junto com o outro e apanhou lentamente a cabaça para passá-la.
Avia-te, estafermo! — gritou Perilo Ambrósio.
Puxando a rolha pela cordinha que a atravessava na parte mais grossa, bebeu ruidosamente alguns goles, baixou a cabaça e deu um pontapé na perna de Feliciano, tão forte quanto lhe consentia a posição escarrapachada.
Ficas com esta cara de merda, sem dúvidas porque deixei-os ao sol — e lá os deixo pela Eternidade, se tanto me der na telha! — e porque querem botar essas bocas de estrumo cá na cabaça de onde bebo esta água imunda que me trazem! Por que me deitaram desta água imunda à cabaça? Por quê? Responde, pedaço d’asno, bosta do demônio! E, se te deixo ao sol, por isso devias ter-me em melhor conta, pois que lá te faço um grande favor, que teus miolos hão de estar acostumados a ser cozidos pelo sol das Áfricas e assim te confortas um pouco. E não me faças cá esta feição de monge silenciário, macaco deslavado, não me faças feição alguma, os negros não têm alma e têm quanto direito a expressar-se quanto o têm porcos e galinhas! O que hás de expressar é a vontade de teu amo, como o que tereis ambos de relatar sobre a minha bizarria e valentia neste combate contra as hostes do Madeira, a padecer a mais triste condição, a comer desta gafanha mortal, a beber desta água pestilencial, na companhia de dois negros sujos e fedorentos que peidam como bugres bêbedos e arrefecem-me cá o ânimo de luta, isto é o que tens de expressar e mais que te ordene!
Levantando um pouco de poeira, um grupo de cavaleiros repontou na estrada de barro que passava pela borda da mata. Perilo Ambrósio teve um sobressalto.
Acode-me cá! — disse ao escravo, que lhe estendeu a mão para que se levantasse, o que fez penosamente, a barriga decidida a permanecer no chão, enquanto ele arfava com os joelhos dobrados em grande esforço. — Que tens, não mais podes com peso? Não saíste à tua mãe então, que muitas vezes a fodi deitando-lhe em cima todas estas arrobas e não me recordo que houvesse ficado amassada e, se não já se tivesse tornado numa burra pelancuda e cheia da gafa que apanhou aos cães, ainda ia eu lá muitas vezes àquele rabo preto. Mas não há de ser nada — acrescentou com um riso obsceno, passando a mão gorda e peluda pelo traseiro de Feliciano —, pois destes cus da tua família ainda não tive cá o meu quinhão completo, e chegará o dia em que te chamarei a meu quarto para que te ponhas de quatro pés e te enfie toda esta chibata pelo vaso de trás, que nisto lá hás de ser bom. Mas então são milicianos que lá vêm? São os homens do Madeira em debandada? Estão a tirar uma peça de artilharia, por isso que demoram e vão tardar, ainda bem. Crês que são mesmo dos nossos? Tens vistas melhores que as minhas, olha bem. Se me mentes, se me dizes que são dos nossos e não são, será tua última velhacaria, pois que te esfolo antes que cá cheguem. Ouve lá, são mesmo dos nossos? Como passa a batalha, não posso arriscar-me, como passa a batalha?
Nem mesmo o som da batalha chegava-lhes agora como antes, embora antes tampouco houvesse o retumbo tremendo que esperavam. Perilo Ambrósio, que escolhera aquele ponto bem distante da luta para passar o dia, pois aguardava somente que vencessem os brasileiros para juntar-se a eles em seguida, temia que o combate não tivesse terminado ainda e que, por algum azar, fosse obrigado a tomar parte nele. Se queria que os brasileiros prevalecessem, não era por ser brasileiro — e na verdade se considerava português —, mas porque, expulso de casa, abominado pelos pais e por todos os parentes, sob ameaça de deserdação, deliberara adquirir fama de combatente ao lado dos revoltosos. Desta maneira, seu pai, fiel à Corte, já foragido e acusado de todos os crimes e perfídias concebíveis, poderia perder tudo com a vitória brasileira, passando os bens muito justamente confiscados a pertencer ao filho varão, distinto pelo denodo empenhado na causa nacional. Preferia Perilo Ambrósio que a família fosse degredada para muito longe, talvez para Angola, entre pretos cozinhando homens para devorar e moscardos traficando moléstias fatais, mas, na impossibilidade disto, conformava-se com a ideia, que o fazia rolar horas a fio na cama a esfregar uma mecha de cabelo entre os dedos com ar estúpido, de tornar-se senhor absoluto da fazenda, dos negros, das casas e de tudo mais. O que aconteceria com a família não importava agora, era assunto para mais tarde, depois que a situação presente fosse aproveitada da melhor forma.
Eram dos nossos, não havia dúvida. Alguma coisa, pressentia-se daqui, acontecera com as rodas de uma carreta que transportava um canhão pequeno. Dois burros castanhos se esticavam junto às guias da carreta, que mal se movia, apesar da força empregada. Cinco ou seis cavaleiros paradeavam as montarias para a frente e para trás como numa cavalhada, alguns infantes se mexiam em volta da roda direita, a poeira levantada pelos cascos foscava o ar, que ao redor era muito claro, e assim tudo se via como numa pintura antiga, ouvindo-se os estalos do chicote do carreiro, as imprecações e os gritos um pouco depois de haverem acontecido.
Que tiram as duas mulas? — perguntou Perilo Ambrósio, franzindo os olhos para estudar as figuras distantes. — Arrastam um canhãozito de campo, um falconete, é assim que lhe chamam? Trabalho esforçadíssimo, haviam que parar e arranjar a roda, pois que se lhe despega uma, é o que de cá se percebe. Creio que devo ir ter com eles. Quem nos regulares tem os quatro galões e as agulhetas de prata ou oiro? Há uns que vão sempre com dragonas a abanar-lhes os ombros, além de outros ornamentos. A ver cá: depois do cabo de esquadra, segue-se o furriel, temos então os cadetes e daí por cima são todos grandes capitães, sargentos-mores e mestres de campo. Ouve lá, acreditas que nos deem boa acolhida e que nos tenham por voluntários desgarrados do Barros Falcão? Como passa a batalha, isto é o que cabe saber, isto sim! Pois, se lá formos e ainda não tiver passado, é mais certo do que o Bom Senhor nos céus que nos chamarão a marchar com eles. Então conto-lhes um par de histórias, que é de mentiras e patranhas que se faz a narração da guerra. E, afinal, estávamos do outro lado do rio e bem que nos podia ter apanhado de rebate o inimigo, não podia? Mas, sim, em questões de batalhas não se leva à conta quem se mostra cansado da lide, ela ainda continua. Não, não, se devo ter razões com aquele comandante, não hão que ser simples razões, sem nada a mostrar por elas. E então lá não vou sem antes cuidar de alguns aprestos. Anda cá, estafermo de fumo, anda! Apura-te, infeliz!
Pouco depois, somente na companhia de Feliciano, Perilo Ambrósio saudou um tenente, que, ao ver os dois se aproximando, afrouxou a brida e galopou em direção a eles, estacando no miolo de uma nuvem de barro avermelhado.
Ferimento à bala? — perguntou, pois, assim que parou, percebeu que Perilo Ambrósio trazia o braço esquerdo numa tipoia empapada de sangue, assim como o jaleco e a camisa. — Ainda pode andar bem? Vê-se que perde muito sangue.
Meu comandante, vinte almudes de sangue tivera, todos os vinte os daria gostosamente, e mais os tivera que os daria pela liberdade — respondeu Perilo Ambrósio, com a voz débil e cortada de ofegos lacrimosos.
Mas é português, não é?
Sim, meu comandante, foi Portugal onde primeiro vi a luz e entre portugueses fui criado, pois que o são meu pai e minha mãe, como hão de ser também os vossos maiores. Mas, se lá vi a luz, cá no Brasil foi que vi a vida e, se falo desta maneira, isto se deve ao que forcejaram desde sempre por meter-me na cabeça, eis que até aos estudos na Corte quiseram enviar-me, não houvera eu lutado para não formar-me em meio aos inimigos da liberdade e da Independência. Meu pai, sim, muito infelizmente, se alia à causa do opressor e isto me parte o coração, sendo eu brasileiro mais que por presença aqui, senão porque me sinto tão nativo a estas terras quanto as aves e os bosques. Eis por que saí da casa dos meus pais, renunciei à fazenda e ao espólio e vim cá combater até não me restar alento, ainda que de pouca valia seja. E já vínhamos desde a madrugada, sem descanso, para nos juntarmos aos homens do grande mestre de campo coronel Barros Falcão, quando, ao vencermos a travessia do rio, pilhou-nos um magote deles. Não fora a bizarria do negro Inocêncio, que vinha na nossa companhia e atacou dois sabreadores inimigos, quando já sucumbia eu pelo balaço de algum escopeteiro que nos fez fogo por trás, aqui não estávamos agora. Esse negro Inocêncio, fiel e bravo, continua lá sob a árvore, malferido, talvez à morte, não pode mexer-se nem ser carregado. Mas ainda estou pronto para o combate, meu Senhor comandante, e no aguardo das ordens de Vossa Mercê.
Não, meu bravo, meu camarada — disse o tenente, com os olhos detidos de admiração, o corpo inclinado para a frente, as mãos na maçaneta da sela. — É necessário que descanses, que cures as tuas feridas. Aqui por este fianco, um pouquinho na direção do Sul, as forças do Madeira nos sufocam, há quem afirme que recebeu reforços de três ou quatro mil homens, porventura muitos mais. Mas também nós temos acolhido reforços de toda parte e não podemos deixar que nossos bons camaradas, os que lutam e derramam sangue pela insurreição, fiquem sem amparo e assistência. Aqueles lá, menos um, estão montados mas são praças a pé, moços de cavalariça que se engajaram. Um deles mostrará o caminho por onde irão encontrar alguma ajuda, algum lenitivo para essas feridas. Não podes perder mais sangue, já foi demais.
Não, meu comandante, minhas feridas já as pensou este outro negro que me acompanha e cuja bravura e dedicação são dignas de uma verdadeira pessoa, tanto assim que, a triunfar a causa brasileira como Deus há de ser servido prover, minha tenção é dar-lhe carta de alforria, para que se veja tão livre quanto seremos os brasileiros, embora seja a única propriedade que possuo no mundo. Temo que seja tarde, pois esvaía-se em sangue e já desfalecia quando o deixamos em busca de ajuda, mas causa-me cuidado maior que eu aquele negro lá ao pé da árvore, que com tanta valentia se houve na defesa de sua pátria e de seu amo. Cá por mim posso arranjar-me. Um daqueles cavalicoques que me cedais para mim será um palafrém real e nele, mesmo em marcha descansada, hei de chegar a algum pouso onde me deem abrigo, pois são muitos os amigos que tenho em toda parte e mais incontáveis ainda os corações generosos.
Com um meneio de cabeça curto e enérgico, o tenente, que não parecia ter mais de vinte anos e ao falar via-se que fazia esforço para a voz soar mais grave do que de fato era, disse “pois muito bem” em tom marcial e, segurando o chapéu armado que balançava um pouco frouxo no cocuruto, galopou de volta a seu grupo. Fazendo apear um dos praças depois de levá-lo até Perilo Ambrósio, passou o cavalo e uma quartinha de água, acenou como quem esboça uma saudação. Com o negro Feliciano cabisbaixo mas ligeiro à frente, Perilo Ambrósio oscilava devagar, montando o cavalo em marcha andadeira, já quase chegando aonde a estrada dobrava por trás dos matos e desaparecia em outra direção. Parou um momento, olhando de longe o tenente desmontar junto da árvore onde tinham estado, andar alguns passos, curvar-se brevemente, tirar e recolocar o chapéu e talvez benzer-se — a distância era grande demais para se ter certeza. O tenente montou outra vez e chouteou de volta a seu grupo emoldurado de poeira. Perilo Ambrósio ficou contente em verificar que tudo resultara muito bem até o último pormenor, embora já antes estivesse seguro de que o tenente encontraria Inocêncio morto. Afinal, quando o sangrara à faca para lambuzar-se de seu sangue e assim apresentar-se ao tenente, terminara por dar-lhe mais cuteladas do que planejara, já que os braços e as mãos lhe fugiram do controle e golpeou o negro como se estivesse tendo espasmos. Melhor que haja morrido logo e não se pode negar que de um modo ou de outro deu sangue ao Brasil, pensou Perilo Ambrósio, voltando as costas e cutucando mansamente as ilhargas do cavalo para tomar de vez a estrada.
João Ubaldo Ribeiro, in Viva o povo brasileiro