quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cristão, não!

Se Cristo vivesse hoje, há uma coisa que ele não seria: um cristão.”
Mark Twain

Na enseada de Botafogo

Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja…
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos.

Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!

Por que deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?
Manoel de Barros

Renato Luciano - De Toda Cor

Uma fábula

Para Sérgio Augusto

Em 1956, quando completei quatro anos de idade, nossa família deixou um sobrado antigo na Joaquim Nabuco e se mudou para uma casa com traços modernistas na avenida Getúlio Vargas, também no centro de Manaus.
Do nome da avenida à imagem foi apenas um salto no tempo: em 1959 vi o retrato de Vargas pendurado numa sala do grupo escolar Barão do Rio Branco: o rosto quase sério, o busto estufado dividido pela faixa presidencial, a cabeçorra enquadrada por hastes douradas. O retrato do presidente suicida sobrevivera numa sala de aula ensolarada da capital do Amazonas, como uma imagem descorada que parecia vir de outro tempo.
Na década de 1970, um retrato semelhante reapareceu nas paredes de escolas e repartições públicas dos povoados isolados e paupérrimos do rio Negro. Alguns ribeirinhos diziam que Vargas não cometera suicídio, insinuando que fora assassinado. Poucos sabiam quem era Médici ou Geisel, generais que presidiam o país naquela década. Outros juravam que Vargas ainda vivia: o “Pai dos pobres” era imortal.
Nas conversas domingueiras, quando todos se reuniam na casa de minha avó, Vargas era ao mesmo tempo venerado e odiado por dois parentes próximos. Toda vez que o suicida entrava na discussão da dupla, minha avó fechava portas e janelas e mandava as crianças jogarem futebol no quintal. Mesmo assim, o bate-boca na sala prevalecia sobre a algazarra do jogo. No fim, a matriarca intrometia-se na discussão:
Chega!”, ela berrava. “Esse Vargas não era santo nem demônio. Era político, e isso diz tudo.”
Um desses parentes foi um adepto fervoroso do trabalhismo e suas “conquistas sociais”. O outro era ácido com Getúlio: um caudilho anão, um populista vulgar que tinha banido o Partido Comunista e perseguido intelectuais, artistas e sindicalistas…
No dia do suicídio, o primeiro estava morando no Rio. Escutou a notícia trágica quando almoçava com uma namorada no Saara. Parou de mastigar, largou os talheres, chorou; em seguida, largou a moça e foi engrossar a massa de enlutados.
Muitos anos depois ele mesmo confessou que perdera uma namorada linda por causa de um suicida.
O outro morava e estudava em São Paulo. Por volta das dez da manhã, saiu da pensão e se dirigiu ao antigo hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal. Garoava, e o Viaduto do Chá estava quase deserto. No saguão do hotel, um grupo de homens e mulheres conversava em francês. Então ele soube que no Esplanada haveria uma reunião da Sociedade dos Americanistas de Paris. Reconheceu e cumprimentou o antropólogo Paulo Duarte, que fora exilado durante a ditadura Vargas. Mal a notícia do suicídio chegou ao Esplanada, um cochicho bilíngue ecoou no saguão do hotel. Alguém abriu uma garrafa de Bordeaux, duas ou três vozes tentaram explicar a razão do suicídio.
Meu parente se surpreendeu com outro fato, não menos estranho: a ausência de comoção popular no centro de São Paulo.
Quando ele nos contou esse detalhe, não sei se foi traído pela memória ou pelo ódio a Vargas. Sei que ele e mais dois amigos permaneceram ali, esperando horas a fio um hóspede, até o fim da tarde fria de 24 de agosto.
Mas William Faulkner não desceu para dar autógrafos nem entrevistas: preferiu ficar bebendo e talvez escrevendo em seu quarto do Esplanada. Naquele ano, 1954, o grande escritor norte-americano publicou Uma fábula.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Robespierre e seu executor

Maximilien Marie Isidore de Robespierre foi um dos líderes da Revolução Francesa. Chamado de “O Incorruptível”, foi o principal teórico e porta-voz dos jacobinos, a facção mais radical dos revolucionários, em oposição aos girondinos, mais moderados. Exigiu o guilhotinamento do rei e da rainha e instalou o “Terror”, que liquidou opositores da Revolução, ou apenas suspeitos de se oporem à Revolução, numa orgia de sangue que não poupou nem seu ex-companheiro Danton (o Trotsky para o seu Stalin, numa analogia um pouco forçada). Pouco depois da execução de Danton, o próprio Robespierre foi preso por seus inimigos girondinos e condenado à morte. Na mesma guilhotina.

Imaginemos que na véspera da sua execução, Robespierre recebe na cela a visita de um verdugo oficial. Que se apresenta:
Louis-Phillipe Affilè.
Enchantê.
Seu admirador.
Muito obrigado.
Foi por sua causa que entrei para o serviço público. Foi ouvindo seus discursos que me decidi a servir a Revolução.
A Revolução agradece.
Sou obrigado a fazer esta visita, antes de cada execução. Para, por assim dizer, preparar o terreno...
Você quer dizer, a minha nuca.
Também devo medir a sua cabeça, para saber o tamanho do cesto. O farei com a devida reverência. É a cabeça mais brilhante da República.
Esteja à vontade. Minha cabeça não pertence mais à República. A República não a quis mais. Na verdade, minha cabeça já pertence a você.
O senhor prefere raspar a nuca?
Como foi com o Danton?
Ele disse que uma navalha antes da lâmina da guilhotina seria uma apoteose do supérfluo.
Ah, as frases do Danton. Ele foi o mais frívolo de nós dois. Se contentava em fazer frases. Eu queria fazer História.
Maria Antonieta pediu para manter todo o seu cabelo. Disse que era por razões sentimentais. Sentia-se muito apegada a ele.
Você também foi o executor da Maria Antonieta?
Sim. Foi no meu turno. Nós os verdugos não temos tido descanso. O senhor nos dá muito trabalho. Ou nos dava...
Tudo pela Revolução.
Eu sei. É por isso que mantenho este emprego, apesar das lamúrias dos condenados, das ofertas de propina... Tudo pela Revolução.
O Danton e a Maria Antonieta ofereceram propina para não serem guilhotinados?
O Danton não. A Maria Antonieta sim. Uma fortuna. Resisti. Também sou incorruptível. Inspirado no senhor.
E se eu lhe oferecesse uma fortuna para me ajudar a fugir?
O verdugo fica em silêncio. Depois sorri.
Eu diria que o senhor está me testando. Para saber se minha admiração pelo senhor é sincera. E se eu sou mesmo incorruptível, como o senhor.
E se eu insistisse na oferta?
Então todas as minhas ilusões ruiriam. Minha admiração pelo senhor desapareceria e eu não acreditaria em mais nada. Nem na Revolução.
Situação interessante — diz Robespierre.
Para continuar me admirando, você precisa me matar.
Silêncio. O verdugo pergunta:
Foi um teste, não foi?
Claro — diz Robespierre.
E então, vamos raspar a nuca?
Só uma aparadinha, para o corte da lâmina ser limpo.
Luís Fernando Veríssimo, in Diálogos impossíveis

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Justiça e dever social

O meu sentido ardente de justiça social e de dever social estiveram sempre em estranho desacordo com uma marcada carência de necessidade direta de ligação com os homens e com as comunidades humanas. Sou um verdadeiro solitário (Einspänner), que nunca pertenceu inteiramente e de todo o coração ao Estado, à Pátria, ao círculo dos amigos ou até mesmo à família mais chegada, mas antes pelo contrário experimentou sempre, em relação a todas essas ligações, um sentimento indomável de estranheza e de ânsia de isolamento, um sentimento que com a idade mais se intensifica. Apercebemo-nos nitidamente, mas sem o lamentarmos, que nos é limitada a convivência em sociedade com outros seres humanos. Um homem desta natureza perde, de certo modo, uma parte da sua maneira de ser inocente e despreocupada mas ganha em se sentir largamente independente das opiniões, dos hábitos e juízos dos homens, e não cai na tentação de estabelecer o seu equilíbrio numa base tão pouco sólida.
Albert Einstein, in Como vejo o mundo

Caligrafias


Delícia de olhar, no céu, os v v v dos voos distanciando-se…
Mário Quintana

Acerca da morte

Eu não estaria tão seguro de que a vida se eleva acima da morte. Quase diria que são irmãs, que aonde uma vai a outra acompanha e que não há mais remédio. Nós estamos morrendo em cada momento, começamos a morrer quando nascemos e vamos nessa direção fatalmente. Algumas células do nosso corpo se regeneram, outras são substituídas, mas outras morrem e, portanto, somos um corpo vivo onde esteve a morte. Nós transportamos nossa própria morte. E é preciso ter isso claro. A morte não é a inimiga que chega, na qual nós não estávamos pensando, e ficamos surpresos e perguntamos: como é que a senhora aparece aqui? Não, não, não temos por que nos surpreender. Ela está aí, ao nosso lado e temos de viver com ela.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Sesta

O poeta tem um chapéu,
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e inteligível.
Adélia Prado

Partida

Fotograma do filme As vinhas da ira

Nas casinhas em que moravam, os meeiros examinavam o que lhes pertencia e o que pertencera a seus pais e a seus avós. Preparavam-se para a grande viagem rumo ao Oeste. Os homens estavam impassíveis porque o passado fora destruído, mas as mulheres sabiam que o passado clamaria por elas nos dias vindouros. Os homens iam aos celeiros e aos alpendres.
Aquele arado, aquela grade, lembram-se? Na guerra, a gente plantou mostarda. Cê lembra daquele camarada que queria convencer a gente a plantar aquela planta de borracha que ele chamava de guayule ? Fique rico, compre aquelas ferramenta. Gaste alguns dólares e verá. Oitenta dólares pelo arado, fora despesas de transporte, são da Sears-Roebuck.
Carroças, armações, semeadoras, enxadas empilhadas. Tragam tudo. Juntem tudo. Ponham tudo no caminhão. Levem tudo para a cidade. Vendam tudo por quanto puderem. Vendam a parelha de animais e a carroça também. Não precisamos deles para mais nada.
Cinquenta cents não é bastante por um arado. Essa semeadora aí custou trinta e oito dólares. Dois dólares é muito pouco. Não posso levar ela comigo... bem, fique com ela, que o diabo o leve. Fique com essa bomba também, e com os arreios. Fique com os cabrestos, coleiras, cangalhas e rédeas.
Os objetos usados empilhavam-se no pátio.
Não posso vender mais arados manuais, ninguém os compra. Cinquenta cents pelo peso do metal. Tratores, é só o que se usa agora.
Bom, leve tudo, todos esses troços, me dê cinco dólares por tudo, tá bem? O senhor não está comprando só velharias, está comprando vidas arruinadas. Mais, o senhor está comprando amargura. Comprando um arado para esmagar os seus próprios filhos, comprando aquilo que poderia salvar-lhe a alma. Cinco dólares, não, quatro. Não posso levar tudo, bem, aceito os quatro dólares mesmo. Mas eu estou te prevenindo: o senhor está comprando o que ainda vai esmagar seus próprios filhos. O amigo não vê isso, não quer ver isso. Bem, leve tudo por quatro dólares. E agora, quanto o senhor me dá pela carroça e pela parelha de animais? Esses baios são bons como o diabo, iguaizinhos que eles são, iguais na cor, iguais no trote! Puxam que é uma beleza, esticando as pernas e o lombo, rápidos que dá gosto! Pela manhã, quando lhes dava na telha, eles ficavam atrás da cerca, de orelha em pé pra ouvir a gente. E as crinas, as crinas pretas! Eu tenho uma filhinha. Ela gostava daquilo! E agora tudo acabou. Eu poderia contar ao senhor uma história engraçada sobre essa minha filhinha e aquele cavalo baio. O amigo ia rir à beça. Está vendo? Aquele ali tem oito anos. O outro tem dez, mas até parecem gêmeos, de tão parecidos. Olha só os dentes deles. Todos bons. E os pulmões, então, nem se fala! Pulmões fortes! As pernas também são um bocado fortes, saudáveis e musculosas. Quanto? Dez dólares? Pelos dois? E pela carroça?... Oh, Jesus Cristo! Prefiro matá-los pra dar a carne pra cachorro comer. Oh, vá lá, fique com eles pelos dez dólares. Leve eles depressa, seu. O senhor está comprando uma meninazinha entrançando a crina deles, tirando a fita dos cabelos dela para amarrá-la na crina dos cavalos, uma meninazinha de cabecinha encostada no pescoço dos animais, de cabeça erguida, roçando-lhes o focinho no rosto dela. O senhor está comprando anos de árduo labor, lides de sol a sol; está comprando uma mágoa que não se pode expressar. Mas olhe, seu: há uma coisa que vai junto com esse montão de troços que comprou, junto com esses baios tão lindos — é uma carga de amargura que crescerá na sua casa e ali florescerá um dia. Nós poderíamos salvar o senhor, mas o senhor nos desprezou, esmagou-nos, e cedo também será esmagado e então nenhum de nós estará aqui para salvá-lo.
E os meeiros iam embora, mãos nos bolsos, chapéus puxados sobre os olhos. Alguns compravam aguardente e sorviam-na com sofreguidão, para resistir com ânimo ao golpe. E eles não riam, não se alegravam. Não cantavam, nem tocavam viola. Eles vinham voltando aos seus sítios, mãos nos bolsos, cabeça baixa, botinas rangendo raivosamente na poeira das estradas.
Quem sabe a gente pode começar de novo, lá naquela terra tão rica, na Califórnia, onde brotam frutos saborosos? Sim, vamo recomeçar.
Mas o senhor não pode recomeçar! Somente uma criança pode encetar uma tarefa assim. O senhor e eu, bem, nós somos o passado. A irritação de um momento, as mil visões — eis o que nós somos. Esta terra, esta terra vermelha, é o que nós somos; e os anos de chuva e os anos de seca, é o que nós somos. Não podemos começar de novo. A amargura que vendemos com os nossos troços ele a comprou, mas também nós a temos ainda. Somos apenas a raiva que sentimos quando os donos das terras nos expulsaram, quando o trator derrubou nossa casa. E assim seremos até morrer. Para a Califórnia ou outro lugar qualquer — cada um de nós aqui é um tambor a bater nossa amargura, caminhando com a nossa desgraça. E algum dia os exércitos da amargura irão pelo mesmo caminho. E eles todos caminharão juntos, e haverá, então, um terror de morte.
Os meeiros arrastavam-se até os seus sítios, através da poeira avermelhada.
Quando tudo que podia ser vendido estava vendido, fogões e camas, cadeiras e mesas, pequenos armários, canos e tanques, ainda havia pilhas de troços, e as mulheres sentavam-se ao redor delas, remexendo-as e olhando-as, as fotografias, espelhos quadrados e — ah, olha ali, um vaso!
Bem, vocês sabem o que a gente pode levar e o que não pode levar. Nós vamos acampar sempre ao ar livre — algumas panelas para se cozinhar, colchões e outras comodidades, uma lanterna, baldes e uma peça de lona. É pra fazer a tenda. Esta lata de querosene vai. Sabe o que é isso aqui? É o fogão. E roupas... levem todas as roupas. E... o rifle? Não vamos sair sem o rifle. Quando tudo se for, sapatos e roupas e comida — até a esperança —, teremos ainda o rifle. Quando o avô veio pra cá — eu já lhe falei? — ele só trouxe sal, pimenta e um rifle. Mais nada. Isso aqui vai. É uma garrafa com água. Basta isso para satisfazer a gente. Dá um jeito nesse caminhão; as crianças e a avó vão no colchão. Ferramentas, uma enxada, e uma serra, uma chave de fenda e alicates. E uma machadinha também. Temos esta machadinha faz mais de quarenta anos. Olhe como ela tá gasta. O resto? Deixe o resto, ou pode queimar tudo.
E vinham as crianças.
Se a Mary levar aquela boneca, aquela boneca velha e suja, eu vou levar o meu arco de índio. Vou, sim. E esse bordão aí, grande, quase do meu tamanho. Posso precisar dele. Tenho ele faz tanto tempo, faz um mês ou talvez um ano. Tenho que levar ele, sim. Como é que vai ser lá na Califórnia?
As mulheres sentavam junto aos restos desprezados, junto aos objetos que não poderiam levar, e olhavam-nos e reviravam-nos. Esse livro. Já meu pai o tinha. Ele gostava tanto dos livros! A marcha do peregrino. Gostava muito de ler ele. Escreveu o nome dele na capa, por dentro. E esse cachimbo, ainda cheirando a fumo forte! E esse quadro... um anjo. Eu olhava pra ele quando tive os primeiros três partos... mas não adiantou muito. Acha que poderíamos levar este cachorrinho de porcelana? A tia Sadie trouxe ele da Feira de St. Louis. Tá vendo? Vê o que ela escreveu nele? Não, acho que não. Aqui está uma carta que meu irmão escreveu um dia antes de ele morrer. E aqui um chapéu bem velho. E estas penas... nunca usamos elas. Não, não temos lugar.
Como poderemos viver sem tudo isso que representa a nossa vida? Como vamos continuar sendo os mesmos sem o nosso passado? Não, deixe tudo. Queime tudo.
Elas ficavam sentadas, olhavam todos esses restos e gravavam-nos na memória. Como saber que coisas as aguardavam lá longe? Como será quando acordarem pela manhã sabendo que o velho salgueiro não mais está no pátio? Pode-se viver sem o salgueiro? Não, não se pode. Aquela mancha ali — a prova de uma dor —, ali no colchão, aquela dor terrível, aquela mancha é uma parte de mim mesma.
E as crianças... se o Sam levar o seu arco indiano e o seu bastão comprido, eu também vou levar duas coisas. Eu escolho aquela almofada. É minha.
Subitamente, ficaram nervosos. Tinham que ir embora rápido. Não se pode demorar mais. Nós não podemos ficar mais tempo aqui. E amontoaram os restos no terreiro e puseram fogo em tudo. E quedaram a olhar como se queimavam, e depois, freneticamente, correram a tomar os veículos e saíram para as estradas poeirentas. A poeira pendia no ar muito tempo depois da passagem dos carros apinhados.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

terça-feira, 25 de julho de 2017

Mestrinho - Arte de quem se ama

O profeta

O Capitão Ahab, senhor do Pequod


Marinheiros! Vos engajastes naquele navio?”
Queequeg e eu havíamos acabado de deixar o Pequod e afastávamo-nos lentamente do mar, cada um ocupado com os seus pensamentos, quando aquelas palavras foram proferidas por um estranho, que parou diante de nós, e apontou seu grande dedo indicador na direção do navio. Estava vestido com um casaco surrado e calças remendadas; um pedaço de um lenço negro envolvia seu pescoço. Uma máscara pustulenta de bexigas espalhara-se por todas as direções de seu rosto, do qual restava algo como uma complicada rede de córregos, cujas águas já haviam secado.
Vos engajastes como marinheiros naquele navio?”, repetiu.
Você quer dizer o Pequod, eu imagino”, disse eu, tentando ganhar tempo para dar mais uma olhada nele.
Sim, o Pequod – aquele navio ali”, ele disse, retraindo o braço, e então lançando-o rapidamente para a frente de novo, com a baioneta fixa de seu dedo apontada para o navio.
Sim”, eu disse, “acabamos de assinar contrato.”
Alguma coisa nele sobre vossas almas?”
Sobre o quê?”
Bem, talvez vós nem tenhais almas”, ele respondeu depressa. “Não importa, conheço muitos tipos que não têm – estão numa situação melhor. A alma é uma espécie de quinta roda em uma carroça.”
Que conversa besta é essa, companheiro?”, perguntei.
Mas ele tem o suficiente para compensar todas as deficiências de outros camaradas”, disse o estranho, abruptamente, colocando uma ênfase nervosa na palavra ele.
Queequeg”, eu disse, “vamos embora; esse sujeito escapou de algum lugar; está falando sobre uma coisa e uma pessoa que não conhecemos.”
Parai!”, gritou o estranho. “Disseste a verdade – não viste o Velho Trovão, não é?”
Quem é o Velho Trovão?”, perguntei fascinado pelo seu jeito insensato e veemente.
O Capitão Ahab.”
O quê? O capitão do nosso navio, o Pequod?”
Sim, de todos nós, marinheiros velhos de guerra, é ele que atende por esse nome. Vós não o vistes, não é?”
Não. Disseram que está doente, mas que está melhorando e que em breve ficará direito de novo.”
Em breve ficará direito de novo!”, riu-se o estranho com uma gargalhada de escárnio. “Vede bem; quando o Capitão Ahab estiver direito, este meu braço esquerdo também ficará; não antes!”
O que você sabe a respeito dele?”
O que vos contaram a respeito dele? Dizei!”
Não contaram muita coisa sobre ele; sei apenas que ele é um bom pescador de baleias e um bom capitão para sua tripulação.”
Isso é verdade, isso é verdade – sim, as duas afirmações são verdadeiras. Mas quando ele dá uma ordem é preciso obedecer imediatamente. Marchar e rosnar; rosnar e ir – é assim com o Capitão Ahab. Mas não contaram nada sobre o que aconteceu com ele perto do cabo Horn, há muito tempo, quando ele ficou deitado como um morto por três dias e três noites; não contaram nada sobre o combate mortal com o espanhol diante do altar em Santa? – não ouvistes nada a respeito disso? E nada sobre a cabaça de prata na qual ele cuspiu? E nada sobre como perdeu sua perna na última viagem, para que se cumprisse uma profecia? Não ouvistes nada sobre esses assuntos e alguns outros, não é? Não, acho que não; como poderíeis? Quem é que sabe? Acho que ninguém sabe em Nantucket. Mas em todo caso ouvistes falar da perna e de como a perdeu; sim, isso vós escutastes. Ah, sim, isso todos sabem – ou seja, sabem que ele só tem uma perna; e que um cachalote levou a outra.”
Meu amigo”, eu disse, “aonde você quer chegar com esse blábláblá, eu não sei e nem quero saber; porque me parece que você não bate muito bem. Mas se estiver falando do Capitão Ahab, daquele navio ali, o Pequod, permita que eu lhe diga que sei tudo sobre a perda da perna.”
Tudo sobre a perna, é? Tens certeza? Tudo?”
Absoluta.”
Com o dedo apontado e os olhos erguidos na direção do Pequod, o estranho com cara de mendigo ficou parado por uns instantes, como se estivesse mergulhado numa conturbada meditação; depois se mexeu um pouco, virou-se e disse: – “Vos engajastes como marinheiros, não é? Com os nomes no papel? Bem, o que está assinado, assinado está; e o que será, será; talvez não aconteça nada. De qualquer modo, já está combinado e determinado; imagino que alguns marinheiros tenham que ir com ele; de uns e de outros, que Deus tenha piedade! Um bom dia, companheiros de bordo, bom dia; que os inefáveis céus vos abençoem; lamento ter-vos incomodado.”
Escute aqui, amigo”, eu disse, “se você tem algo importante a nos dizer, desembuche; mas, se estiver querendo engambelar a gente, está perdendo o seu tempo; é tudo o que tenho a dizer.”
Muito bem, gosto de ouvir um camarada falando desse jeito; você é o homem certo para ele – como outros iguais a ti. Bom dia, companheiros, bom dia! Ah, quando chegarem lá, digam que decidi não ser um deles.”
Ah, meu caro amigo, não pode nos enganar dessa maneira – não pode nos enganar. Nada mais fácil para um homem do que fingir que guarda consigo um enorme segredo.”
Bom dia, companheiros, bom dia.”
De fato, bom dia”, eu disse. “Venha, Queequeg, vamos deixar esse louco. Mas espere aí, não quer dizer como se chama?”
Elijah.”
Elijah! Pensei, e afastamo-nos fazendo comentários, cada um a seu modo, sobre o velho marinheiro maltrapilho; e concordamos que devia ser apenas um cara-de-pau querendo se fazer de bicho-papão. Mas não tínhamos nos afastado nem cem jardas quando, ao virar uma esquina e olhar para trás, vi Elijah a certa distância. De certo modo, fiquei impressionado ao vê-lo, mas não disse nada a Queequeg, e prossegui com meu camarada, ansioso por ver se o estranho viraria a mesma esquina que nós. Ele virou; então me pareceu que estava nos seguindo, mas não tinha idéia de qual seria sua intenção. Aquelas circunstâncias, combinadas com seu jeito ambíguo, meio revelador, meio escondido de falar, despertou em mim todos os tipos de apreensões e questionamentos em relação ao Pequod; ao capitão Ahab; à perna que tinha perdido; ao ataque que sofrera no cabo Horn; à cabaça de prata; ao que o capitão Peleg tinha dito sobre ele quando eu saí do navio no dia anterior; à profecia da indígena Tistig; à viagem que íamos empreender; e centenas de outras coisas obscuras.
Para saber, afinal, se o maltrapilho Elijah estava mesmo nos seguindo, atravessei a rua com Queequeg; do outro lado, andamos em sentido contrário. Mas Elijah prosseguiu como se não tivesse percebido. Foi um alívio para mim; e mais uma vez, e definitivamente, do fundo de meu coração, repeti para mim mesmo, que cara-de-pau.
Herman Melville, in Moby Dick

O Realismo brasileiro no traço de Almeida Júnior

O Violeiro (1899), de José Ferraz de Almeida Júnior

Quemadmodum

E é um gato. (Pela janela as grandes gaivotas do mar nunca entram, não está em nosso poder.) Saltara do chão à mesa, sem esforço o erguer-se, nada o sustentando ou suspendendo, tal nas experiências mágicas. São mestres de alta insinuação, silêncio. Dele, claro, tem-se só um avesso. Tudo é recado. Coisas comuns comunicam, ao entendedor, revelam, dão aviso. Raras, as outras, diz-se respondem apenas a alguma fórmula em nossa mente — penso, tranquiliza às vezes achar com rapidez. Mais há, vaga, na gente, a vontade de não saber, de furtarmo-nos ao malesquecido; o inferno é uma escondida recordação. O gato, gris. Não mero ectoplasma, mas corpóreo, real como o proto-eu profundíssimo de Fichte ou bagaço de cana chupada pelo menino corcunda. O gato de capuz. Se em estórias, ele logo falava: — “Meu senhor, dono da casa...” A lâmpada não o tira de penumbra. Seus olhos me iluminam mui fracamente.
Apareceu, ao querer começar a noite, feito sorriso e raio, e conquanto como entende de cavernas e corujas. A aventura é intrometida. Antes de cochilar, eu a ele me acostumara; decerto estranho-o, agora, quando o rapto de mim mesmo me faz falta. Que mundo é este, em que até insônia a gente tem! Desenrola volutas, ilude e imita o desenho de alma do amoroso. Circunscreve-se. Vá fosse um vulgar, sem ornato, gato de sarjeta. Porém, não: todo de lenda, de origem — corpo leonino, a barba cerimonial, rosto quase humano — formulador de pergunta. Senta-se nas patas de trás, por uma operação de inteligência. Convidado para sonhar eu morava perto de alguma mulher desconhecida... A beleza insiste — ao som de tornozelos e opalas, as danaides do mundo seco. A vida, essa função inevitável. Suas pupilas endireitam-se em quarto minguante. Só é preciso perder-se, a todo instante, o equilíbrio?
— “Bast...” Ouvisse-me. Sem fu nem fufo, nenhum bufido. Temo enxotá-lo, de quantas sombras. Quieto, quedo — “Sape-te!” Não é um sonho. Resiste, imoto. Imóvel pedra a cara, barbas até à testa, pintadas, crivadas as bochechas, donde os bigodes. Desfecha ideias. Amor mínimo qualquer preenche abismos formidáveis (não de sonho; no sonho só há ½ dimensão, nenhuma desordem)... E está aqui, idosamente, quer-se que em si imerso. Descobriu o fulgor da monotonia. O tempo é o absurdo de sua presença. (A que alvo buquê de dedos longos... mentiu que sorriu... Ininteligimo-nos. O adeus estreita-nos...) O tempo, fazedor, separador, escolhedor. Talvez eu tenha sido sozinho. Ainda vou viver anos, meses, minutos. Saio. Ora, deixemo-nos do que somos.
Sua dela lembrança, incristalizável — resumo de vertigens, indefinível como qualquer dor. Longe de nós, há alegria. Os ônibus tinham festa dentro. — “Fale e vou...” — digo, entre mim. É profundo o futuro: é. O passado é urgente... Marraxo! Morrongo.
Comina-me. Capta o menor movimento, esperdiçando perspicácia, decifrador de mímicas. Por um evo. Tem-me no centro de sua visão. O gato, inominado. Despiu-se de qualquer fácil realidade. (Ela — padeço-a, entre o eu inexistente e o movediço mim. Se para sempre? — por minha culpa, ignorância privativa...) Sentado, arrumadas retamente à frente as patas dianteiras, fita-me com fantasia luminosa, assesta-me os poderes mais sutis.
— “Quem é você?” — a interminável questão. Agora engatinho, ando, apoio-me: contra o nada, só minha memória trabalha, quase vencida. Juro por Tutmés, deus! E o mundo come-nos. Creio, que digo: — “Eu sou a minha própria lacuna, e todas...” — resposta de abismo a abismo.
Então, sim, sou. Ele apagou os olhos. Tem de ir-se, quando eu readormecer, como brinca o menino cego, no inesperado sossego. Salta, quadrilongo e real, sem pena o alar-se, precipita-se, feito impelido por meiga mão. Some-se, em esfumo — e contudo belo diverso, como uma análise de poema. A janela exata, a imensa curva da noite, o fundo, não são o contrário de mim; talvez seja-se o mesmo. Só podemos alcançar sábios extratos de delírios.
E ei-la (sua lembrança apaziguada) forma subsistente. Tanto o telefone é um frêmito, calado, na madrugada, na vida. Mas, a voz. A que o menino surdo sabe de cor. (Quem sabe a palavra mais doce: b u l b u l — como os árabes chamam o rouxinol.)
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Na cabeceira do rio

Ouviu a queixa do rio e prometeu salvá-lo. Dali por diante ninguém mais despejaria monturo em suas águas. Contratou vigilantes, e ele próprio não fazia outra coisa senão postar-se à margem, espingarda a tiracolo, defendendo a pureza da linfa.
Seus auxiliares denunciaram que alguém, nas nascentes, turvava a água. Foi lá e verificou que um casal de micos se divertia corrompendo de todas as maneiras o fio d’água. Os animais fugiram para reaparecer à noite. E explicaram, antes que levassem tiro na barriga:
Não fazemos por mal, apenas brincamos. Que pode um mico fazer para se divertir, senão imitar vocês?
A mim vocês não imitam, pois estou justamente lutando para proteger este rio.
Já não se pode nem imitar — observaram os micos, fugindo outra vez. — O homem é um animal impossível. Agora deu para fazer o contrário.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Contradições

Antigamente se passava com gravidade de uma contradição a outra; agora sofremos tantas ao mesmo tempo que não sabemos mais por qual nos interessar, nem qual resolver.”
E. M. Cioran

Solidão e falsa solidão

Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: ‘Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.” E mais adiante: “A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade quanto para o indivíduo que quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre.
A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.
Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes de bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta para todos os homens.
Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.”
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Mariana Aydar - Te faço um cafuné

A espingarda de Alexandre

Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia? perguntou Alexandre às visitas, um domingo, no copiar. Ora muito bem. Olhem aquele monte ali na frente. É longe, não é?
Muito longe, respondeu o cego preto Firmino.
Como é que o senhor sabe, seu Firmino? grunhiu o narrador. O senhor não vê.
Não sei não, seu Alexandre, voltou o negro. Eu disse que era longe porque o senhor é o dono da casa e deve saber. O senhor achou que era longe e eu concordei. Não está certo?
Está, resmungou Alexandre. Mas eu quero a opinião dos outros. Que distância vai daqui àquele monte, seu Libório?
Seu Libório arriscou meia légua. Mestre Gaudêncio afastou o monte para duas léguas. E Das Dores afirmou que ele devia estar a umas cinquenta:
É o que eu digo, meu padrinho. Cinquenta léguas, daí para cima.
Alexandre, moderadamente, repreendeu a afilhada:
Isso não, Das Dores. Que desconchavo! Assim também é demais. Deixe esses despotismos, para os nossos amigos não fazerem mau juízo, não pensarem que eu ando com invenções. As minhas histórias são exatas.
Tudo ali no duro, opinou seu Libório. Ponha meia légua.
Eu propus duas, disse mestre Gaudêncio.
E eu cinquenta, cochichou Das Dores. Mas parece que foi bobagem.
Foi, gritou Alexandre. Vamos dividir isso. Juntamos tudo e depois repartimos. Cinquenta com dois são cinquenta e dois. Mais meio: cinquenta e dois e meio. Qual é a terça de cinquenta e dois e meio, Cesária?
Isso é um número muito comprido, respondeu Cesária. Se eu tivesse aqui os meus caroços de mulungu, a resposta ia logo; mas assim de cabeça, que dificuldade! Negócio de conta é um desespero, Alexandre. Você conhece a adivinhação dos lenços? Não conhece. Pois eu digo. Uma rua tem cem casas, cada casa cem janelas, cada janela cem moças, cada moça cem vestidos, cada vestido cem bolsos, cada bolso tem cem lenços, cada lenço quatro pontas e cada ponta um vintém. Quanto é o dinheiro que há na rua? Hem? Nunca houve quem soubesse. Quebro a cabeça desde pequena e não sei. Faz vergonha a gente confessar que ignora um troço? Não tenho vergonha não, Alexandre. Esses lenços me têm estragado os miolos. Conta é um buraco. Vou acender o cachimbo lá dentro. E penso na sua pergunta, Alexandre, que não gosto de pensar misturada com outras pessoas. Já volto.
Cesária entrou, alguns minutos depois regressou cachimbando e falou:
Alexandre, a terça de cinquenta e dois e meio é muita coisa, mais de quinze, mais de dezesseis. Talvez chegue a dezessete e ainda um pedacinho. Mas para que saber isso tão direito? Ninguém vai medir a terra. Bote dezessete léguas, Alexandre. Que acha?
Acho que devem ser pouco mais ou menos dezessete léguas, concordou Alexandre. Ou antes: apurada a opinião de vocês todos, ficam dezessete léguas bem estiradas. Eu não dei opinião, aceito o que os outros disseram. É muita légua, não é? Pois, meus amigos, tenho uma lazarina que engole todas elas e não falha. Nunca houve outra igual.
Alexandre levantou-se, foi à sala e voltou com uma espingarda velha e enferrujada, a coronha meio comida pelo cupim, enrolada em arame:
Olhem que beleza. Meu irmão tenente, em troca do couro da onça, ofereceu-me esta maravilha, quando entrou na polícia. Que presente! Qualquer dia hei de mostrar aos amigos quanto ele vale. Só vendo, seu Firmino. O senhor vai ver. Isto é: os outros vão ver e o senhor terá notícia. Já falei no porco bravo que partiu a cachorra pelo meio? E nas duas araras? Bem. O porco e a cachorra dão para uma noite e vêm depois, mas as duas araras podem vir logo, e os senhores ficarão de queixo caído. Um dia destes acordei ouvindo gritos. Cheguei aqui ao copiar e avistei duas araras, uma voando muito alto, outra mais baixo. Corri mais que depressa, fui buscar a espingarda e atirei nos bichos. Vinha amanhecendo, ainda havia um resto de escuridão, era difícil enxergar as coisas afastadas. Mas, como já sabem, este olho torto vê tudo. As araras morreram. A que voava mais baixo caiu ali no terreiro ao meio-dia; a outra chegou às seis horas da tarde e esbagaçou-se na queda. Eu não tinha intenção…
Quer dizer que a espingarda junta o chumbo, não é, seu Alexandre? perguntou mestre Gaudêncio.
Por que, seu Gaudêncio? Que lembrança foi essa?
É que as araras estavam longe. Se o chumbo se espalhasse, não havia pontaria que servisse.
Perfeitamente, seu Gaudêncio. O senhor entende. Faz gosto a gente conversar com uma pessoa de tino assim. A espingarda junta o chumbo. E não respeita distância. Só falei nas duas araras para mostrar aos amigos até onde vai um tiro dela. O que agora me ferve no pensamento é o caso do veado. Conhecem, não? Pois foi aquilo mesmo. O veado apareceu acolá, em cima do monte, espiou os quatro cantos, desconfiado, depois sossegou e pôs-se a comer. Percebi todos os movimentos dele. Um animal bonito e fornido. Peguei a espingarda, examinei a carga, limpei o cano por dentro com o saca-trapo e mudei a espoleta, já velha. Dormi algum tempo na pontaria, puxei o gatilho e — bum! — vi na fumaça o bicho dar um pulo, correr algumas braças e amunhecar. — “Aquele está esfolado e comido”, pensei. Saí de casa, andei muito, dezessete léguas, pela conta de Cesária, e achei o corpo já frio, com dois caroços de chumbo, um na cabeça, outro no pé direito.
Que está dizendo, seu Alexandre? exclamou o cego. O senhor garante que o veado tinha um caroço na cabeça, outro no pé?
Que pergunta, seu Firmino! Pois se eu tirei o couro dele e mandei fazer aquele gibão que está ali dentro, pendurado no torno!
Mas, seu Alexandre, insistiu o negro, o senhor não disse que a espingarda junta o chumbo? Se a espingarda junta o chumbo, como é que os dois caroços estavam tão separados? Creio que houve engano.
Alexandre baixou os olhos, tirou do aió um rolo de fumo e palha de milho, desembainhou a faca de ponta e fabricou lentamente um cigarro, procurando a resposta, que não veio.
Seu Firmino, o senhor duvida da minha palavra?
Deus me livre, seu Alexandre. Quem é que duvida? Estou só perguntando.
E pergunta muito bem, gritou Cesária, salvando o marido. Seu Firmino gosta de explicações. Está certo, cada qual como Deus o fez. Quer saber por que o chumbo se espalhou? Não se espalhou não, seu Firmino: o veado estava coçando a orelha com o pé.
Graciliano Ramos, in Histórias de Alexandre