domingo, 30 de setembro de 2012

O perigo

Quem vê o perigo
E não procura salvar-se
Razão de se queixar
Do fado não tem.
Pietro Metastasio

Desenredo

Do narrador a seus ouvintes:
– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Como elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.
Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que - deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela – longe - sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a aguentar-se, nas defeituosas emoções.
Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou - ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.
Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade - ideia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conte inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado - plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar - e qualquer causa se irrefuta.
Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.
E pôs-se a fábula em ata.
Guimarães Rosa

Quase Nada 177

Quase Nada 177
Fábio Moon e Gabriel Bá, in www.10paezinhos.com.br
“Parece que um país democrático é um lugar onde são realizadas muitas eleições, a um custo elevado, sem questões substantivas discutidas e com candidatos intercambiáveis.”
Gore Vidal

sábado, 29 de setembro de 2012

"O que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é justamente o oposto."
Bertrand Russell

A Arte em tecidos, de Mister Finch

















Descoberta

Tenho feito tudo que desagradaria você. Tenho bebido, fumado, dirigido em alta velocidade e usado aquela camisa de seda rosa que você odeia.
Pra fingir que não me importo.
Mas continuo me importando.
Renata Almeida, in blog a beleza do cinza

História de um parto

Com vinte e quatro anos medroso e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia despede-se da campina, ergue-se nos degraus das fragas para olhar com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a fuga dos rios.
Aquele povo soturno, endurecido a subir e descer abismos, frutificando uma terra alheia, pressentiu o perigo da minha inexperiência. Os camponeses vinham ao consultório fechados em meias palavras, avaliando os meus dotes de mágico, e nas suas faces obstinadas havia apenas desconfiança e desafio. Algumas vezes a morte estava ali entre mim e eles, troçando da minha humildade apavorada e nem assim me davam um estímulo: duros, invioláveis, lá lhes parecia que um bom médico não precisa de arrimos. Muitos anos atrás outro colega tinha sofrido o mesmo ambiente em despique com bruxas, leiloado na praça pública a votos e a murros e apesar de tudo vencera. Essa gente granítica, com ossos a esticarem uma pele morena, esperava de mim como esperara e exigira do antigo médico, antes de o aceitar, a prova indiscutível que decidisse da minha reputação: um parto por exemplo com o seu assombroso mistério, as suas horas de mortificada expectativa. O parto sempre representou aos olhos do povo uma hora solene: nele se apostam duas vidas e também as qualidades de arrojo, calma e saber de um profissional. O curandeiro pode ser insultado na sua banca de Fígaro ou no instante aflito de uma sangria de urgência, mas a comadre, a velha suja talhada em pedra enrugada, sem sorrisos nem lágrimas, que espreita a nossa entrada no mundo, tem fama e pão certos até ao fim dos tempos.
Deu-se por essa altura, na aldeia, um casamento pomposo e, como tal, estava indicada a presença ornamental do médico. Lá fui eu, sob a vaga promessa de ser acompanhado pelo amigo boticário, homem de vagas de génio que ajudavam a espertar os dias ensonados daquele desterro. Calhou-lhe vir também à boda o colega que me precedera no partido médico. Entretanto, a uma légua de estafa, para lá dos barrocais retalhados nas gargantas dos penedos, uma camponesa gemis, havia quatro dias, as dores de parto: e desde que a comadre confessara a inutilidade dos seus préstimos, justificando-se com a criança atravessada no ventre, nada restava fazer, salvo a ciência do doutor. A família veio por aí acima, entregue ao passo conformado daqueles heróicos jericos de Monsanto, que galgam e se firmam nos pavorosos declives dos caminhos. Trazia consigo um problema de parto e de cortesia: dois médicos estavam nessa tarde na aldeia, lado a lado, à mesa de uma festança. Um tinha cumprido em dois anos de partos, dores, aflições: o outro era um imberbe João Semana, que nada garantia. Mas sendo eu médico avençado – eis a cortesia em jogo – o posto pertencia-me, devia ser procurado para o trabalho e para o pago. E a família acabou por correr o risco: seria eu o escolhido. Para mim o transporte do burro, o sobressalto, a apreensão pelo que poderia acontecer. O meu nervosismo ainda foi avivado por uma rude prova de fraqueza dos campónios: sucedeu que, mal eu chegara junto da esmorecida parturiente, me confessaram, com ressaibos de deferência, as dúvidas que haviam tido na minha escolha!
E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do que esse ventre desgastado de esforços vãos, do que a bacia estreita que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me dispor àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das famílias aldeãs. Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse simular uma reacção, e enfiou-o nesse abismo insondável. E disse, sem meias-tintas:
– Se quer fazer alguma coisa, senhor Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa no osso da robadilha.
Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.
Num mutismo que não dava esperanças a ninguém, pensava que caminho devia escolher: expulsar dali a comadre, desempenhando de vez o meu papel, procurando aliviar-me de todos os pesos e dúvidas estranhas que enredavam as minhas decisões de médico, ou esperar que algum imprevisto viesse robustecer-me a ridícula posição.
Dentro do quarto, sufocando a mulher, além de mim e da comadre, completavam o ambiente as vizinhas e conhecidas, lobregamente vestidas de negro, umas abanando com o lenço o suor frio da parturiente, outras enxotando as moscas, em gestos moles e ritmados, outras, ainda, hirtas de expectativa, e todas agigantando-se como juízes proféticos.
Os homens, o pai e o marido, esperavam cá fora, sentados numa laje que ocupava quase todo o pátio, onde se abria um canal para esgoto das urinas escapadas das furdas. Vim junto deles desafogar os pulmões no ar fresco e livre. O pai da parturiente, um homem resignado, esperou-me com uns olhos em que havia prece. Sentámo-nos os três, derreados, por uns minutos. Então, pedi ao marido que fosse à vila buscar-me ferros. O velho levou as mãos à cabeça e escondeu os olhos. Eu devia encorajá-lo, dar-lhe um sinal daquele apoio de que eu próprio precisava: era ele a única pessoa em quem verdadeiramente sentia uma dor sem censuras. Mas não confiei nas minhas palavras e voltei para dentro de casa.
O útero da mulher revigorara-se com os estimulantes, contorcia-se no esforço de se libertar. A tarde estava quase no fim, uma tarde espessa, afrontada, que de súbito se vinha agachar sobre as árvores e sobre as casas. A comadre, ao ver-me em jeitos de nova observação, tornou com os seus conselhos:
– É nas nalgas, senhor Doutor.
Quando voltei ao pátio, o velho espremia as mãos e falou-me como se tivesse as maxilas retesadas.
– É a minha única filha. Salve-as, senhor Doutor. Somos pobres, não temos dinheiro, nunca o tivemos, mas eu vou trabalhar até ao fim da minha vida para lhe pagar. Mas salve-a!
Dei-lhe um cigarro e disse com simplicidade:
– Isto está a demorar. Mas vai. Espere que o seu genro me traga os ferros.
– Vai raspá-la?
– Que ideia! É uma ajuda. Custa um bocadinho, mas fica logo aliviada.
O homem chegou, por fim, desfigurado de suor. Enquanto ferviam os ferros, uma das assistentes recomendou-lhe afectuosamente:
– Vai comer alguma coisa. Ainda estás em jejum.
– Não tenho fome.
– Mas precisas.
Deu-lhe um pão de vários quilos de peso. Rijo e embolorado. O homem raspou meticulosamente o bolor, abriu o pão ao meio, tornou a esfarelar os ninhos verdes e comeu, com vagares. A mulher deu-lhe ainda azeitonas, carregadas de sal. Depois ele despejou nas goelas uma bilha de água.
Eu já sabia que aquele povo subalimentado iludia o estômago com litradas de água e pilhas de verdura, às vezes ervas do campo, numa sede provocada pelo sal dos alimentos. E assim, entulhando-o, calava aquela ânsia de plenitude.
Quando os ferros foram dispostos para a intervenção, um rumor correu a assistência. As mulheres deram passos inquietos e inúteis pela sala, balbuciaram rezas, lacrimejaram, a parturiente gemeu desconsolada, a comadre empertigou-se de gravidade. A mão da rapariga ainda tentou deter-me: varava a minha face imberbe, agora resoluta, procurando dentro de mim uma decisiva garantia.
– Será mesmo preciso, senhor Doutor? Não poderíamos esperar?
– Não, já esperámos muito tempo, minha senhora.
De memória, eu ia revendo precipitadamente as ilustrações dos tratados, as técnicas, enquanto vaselinava as colheres. Receava ter errado a posição da criança, temia amachucar o ser que viria para a vida pelas minhas mãos, obcecava-me o acaso de hemorragias, colapsos, traumatismos, e via diante de mim um recém-nascido ferido e deformado. Duas vidas estavam à mercê daqueles minutos próximos. Deles dependiam ainda o meu próprio futuro e o pesar ou o júbilo daqueles que me rodeavam. A par dos tratados, também mentalmente estava ali comigo o velho, na sua imagem de dor humilde e silenciosa. Teria preferido vê-lo a meu lado, de angústias solidárias, nós ambos e a sua filha, depois de enxotados os corvos.
Gemidos, silêncio, o morno das respirações, uma luz vacilante e fúnebre de azeite, e depois de muitos esforços dos meus pulsos e dos meus nervos, de sentir que os ferros desentranhavam não só a criança mas também todo aquele ventre dorido, a cabeça do recém-nascido rompeu para o mundo. Gritei uma ordens, com uma voz já imperante, protegido por aquilo que, após a timidez e a dúvida, sentia como um triunfo. A criança chegou às minhas mãos, mãos heroicamente ensanguentadas, sem uma beliscadura. Tirei-a depois com ostentação dos dedos engelhados da comadre, lavei-a com carinho, feliz, alvoroçado. Amava-a como se me pertencesse.
Eu, agora, dominava o ambiente. Dominava os corvos e, entre eles, o mais sinistro: a comadre. Ela, então, ergueu as mãos, em transe:
– Milagre! Vi nascer centenas de meninos, vi horas boas e más, mas um trabalho destes… A criança está aí sem um arranhão. Onde eu chegar, senhor Doutor…
E ficámos amigos.
Cá fora esperava-me uma noite afogueada de Outono. O velho tinha aparelhado o jerico e engolia saliva a todo o momento, ondulando o pescoço, mudo de emoção. De chapéu erguido, os olhos brilhantes, esperava que eu partisse. Entesado numa posição de sentido, quedou-se de chapéu em jeito de bandeira, até que desapareci na dobra da rua. E só depois conseguiu rouquejar:
– Obrigado, senhor Doutor! Obrigado. Viva!, para sempre!
Fernando Namora, in Tinha Chovido na Véspera

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Maria Rita - Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)


A minha alma
Está armada e apontada
Para a cara do sossego
Pois paz sem voz
Não é paz, é medo

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz

As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que está nessa prisão

Me abrace, me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe
Sentar na poltrona
Num dia de domingo

Procurando novas drogas de aluguel
Nesse vídeo coagido
É pela paz que eu não quero seguir admitindo.

E agora, José?

Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drumonnd de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso do tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora, José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atônitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo de interminável ladainha que é piedade por nós próprios.
Em todo caso, há situações de tal modo absurdas(ou que pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.
Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem  ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drumonnd de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem. “E agora, José?”
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que trem como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, mas mais riquezas de apelido e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbado, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente - “E agora, José?”
Afasto para o lado meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, avilta-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota - matando sem matar, sob a asa da lei ou perante sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel a porta - e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.
Escrevo estas palavras a muitos quilômetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenômeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda parte, uma espécie de loucura epidêmica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo o que agora és.
Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?
Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever. E agora, José?  
José Saramago, in A Bagagem do Viajante

É de confiança?!

Charge de Newton Silva

A vida pessoal e a social


“Na vida de cada homem existem duas faces: a vida pessoal, que é tanto mais livre quanto mais abstratos forem seus interesses, e a vida geral, social, na qual o homem obedece, inevitavelmente, as leis que lhe são prescritas. Por si próprio, o homem vive conscientemente, mas serve de instrumento inconsciente às finalidades históricas da humanidade. O ato praticado é irreparável e sua importância histórica está em concordar, no tempo, com milhões de atos praticados por outros homens. Quanto mais o homem se elevar na escala social, quanto mais próximo estiver dos homens superiores, quanto maior for sua influência sobre os outros, mais evidente será a predestinação e a fatalidade de cada um de seus atos.”
Leon Tolstoi, in Guerra e Paz

Os vencedores também perdem

"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue."
Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poema-bilhete

Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...

Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora. 
Geir Campos, in Poesia sempre

Político em pele de cordeiro

Charge de Clayton (O Povo)

Sexa

- Pai........
- Hummmmm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê?
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e Feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra "SEXO" é masculina. O SEXO masculino, o SEXO feminino.
- Não devia ser "A SEXA"?
- Não.
- Por que não?
- Porque não! Desculpe. Porque não. "SEXO" é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- É.Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo mesmo. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- É. Quer dizer...Olha aqui .Tem o SEXO masculino e o SEXO feminino, certo?
- Certo.
- São duas coisas diferentes.
- Então como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes?
- Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina .
- Não." A palavra" é feminino. Se fosse masculino seria "o pal..."
- Chega! Vai brincar, vai.
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
-Temos que ficar de olho nesse guri...
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática.
Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"O que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos: eis o verdadeiro saber."
Confúcio

Preciso me encontrar, de Candeia, com Cartola


Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

O perfil do político ideal



Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco será assim

“Quero agradecer a todos os amigos que têm se empenhado de coração para me ver candidato. Infelizmente não posso aceitar. Sei que os adversários de sempre vão insinuar que essa minha recusa não passa de tática eleitoreira. Acostumado que estou à calúnia das campanhas, não me espanta que o digam. Respondo também àqueles que de forma melíflua espalham boatos, dizendo que de qualquer forma eu não estaria preparado para o cargo. Mais mentiras. Meu interesse sempre foi tão grande que, quando governador, cheguei a propor a construção de um centro cultural no meu Estado. Na época fui combatido pela ousadia do empreendimento. Disseram que tudo não passava de conchavo com empreiteiros gananciosos.
Há ainda os que me acusam de nepotismo pelo simples fato de alguns membros de minha família fazerem parte da minha equipe de assessores mais chegados. Pergunto a esses que me achincalham sem pensar nas consequências: que culpa tenho eu se o acaso quis dotar de talento a competência exatamente essas pessoas ligadas a mim por laços consanguíneos? Devem pagar com o ostracismo pelo simples fato de serem meus irmãos, primos, tias e sobrinhos?
Quanto aos que me atacam, por duvidar da minha honestidade, respondo com a minha declaração de bens. Se às vezes me vi às voltas com processos de corrupção foi tão-somente por excesso de confiança nos homens públicos que cercavam, estes sim, verdadeiros responsáveis por vários desvios ocorridos durante os anos do meu governo.
Chegaram até me chamar de alcoólatra simplesmente por causa de inocentes coquetéis ingeridos durante infindáveis recepções oficiais, das quais, como político, não poderia jamais ter me furtado. Admito um ligeiro estado de euforia em algumas dessas festividades, mas nunca devido à bebida e sim, por causa das datas patrióticas nelas festejadas. Quem quiser confundir um mero escorregão provocado pela lisura do assoalho com os tropeções desajeitados de um bêbado que o faça: sei que a História me fará justiça.
Os mais canalhas chegam ao cúmulo de afirmar que quando eu era proprietário rural mandei eliminar meus adversários políticos valendo-me de jagunços acobertados pelo delegado local, homem íntegro e justo, somente acusado pelo fato irrelevante de ser meu cunhado. A esses, não dou nem a satisfação da resposta. Se, por coincidência, quinze do meus inimigos mais ferozes morreram de morte violenta, só tenho a agradecer ao cruel e merecido destino que lhes era reservado, sem que eu tenha movido um dedo para precipitá-lo.
Finalmente, me dirijo àqueles que, sem mais argumentos para me conspurcar com sua lama, vasculham minha vida íntima, chamando-me de devasso. Minha esposa e companheira por mais de vinte anos conhece a minha retidão. Reconheço que por deveres de Estado várias vezes tive de me ausentar do leito conjugal ao anoitecer, mas nunca para degradar-me com prazeres ilícitos e pecaminosos e sim para lutar de peito aberto contra os que sempre conspiraram, na calada da noite, contra a Democracia e a Liberdade.”
Jô Soares (texto atemporal, publicado na Veja em 16/10/1991)

Estudo de Mulher (1884), de Rodolfo Amoedo


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Conto em letras garrafais


Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.
Marina Colasanti, in Contos de amor rasgados

Leiga seria a arte

“Leiga seria a arte se, ditando o recato aos limites da capacidade, não procurasse dissimular os ímpetos do afeto. Tão acreditada está esta parte da subtileza, que sobre ela ergueram Tibério (Imperador de Roma) e Luís (Luís XI de França, cognome 'O Prudente') toda a sua máquina e política.Se todo o excesso em segredo o é também em torrente, sacramentar uma vontade será soberania. São os achaques da vontade desmaios da reputação e, logo que se declaram, esta vulgarmente morre.
O primeiro esforço basta para violentá-los, o segundo para dissimulá-los. Se aquele tem mais de valoroso, este tem mais de astuto. Quem a eles se rende, baixa de homem a bruto; quem os repudia conserva, pelo menos nas aparências, o crédito.
Acusa torrentosa eminência o penetrar-se toda a vontade alheia, e conclui superioridade saber selar-se a própria. Descobrir-se um afeto a um varão é o mesmo que abrir um postigo na fortaleza da torrente, pois é por ali que maquinam politicamente os astutos, e na maior parte das vezes o assaltam com sucesso. Sabidos os afetos, sabem-se as entradas e as saídas da vontade, tornando-se senhores dela a todas as horas.”
Baltasar Gracián y Morales, in O Herói

Segura a onça que eu sou caçador de preá

Mestre Vitalino

Não passava de um modesto caçador de preá. Era Bentinho Alves, dos Alves de Arió do Pará. Em dia de semana gastava os olhos no pilulador da Farmácia Brito. Em tempo de feriado consumia as vistas no rasto dos preás. Até que resolveu caçar bicho de maior escama:
- Comigo agora é na onça! Ou mais que onça! Na tal da pantera negra.
Foi quando deu em Arió do Pará um doutor de erva aparelhado para fazer os maiores serviços de mato adentro. Mediante uns trocados, o curandeiro botava macaco para desgostar de banana e tamanduá correr com perna de coelho. Bentinho, exagerado, mandou que o especial em erva preparasse simpatia capaz de fazer morrer na pólvora de sua espingarda as caças mais grossas, coisa assim no montante de uma capivara de banhado ou uma onça das mais pintadas. E no ardume do entusiasmo:
- Ou mais! É aparecer e morrer.
O curandeiro tirou uma baforada do covil dos peitos e mandou que Bentinho largasse no rodapé do arvoredo mais galhoso uma figa de guiné de sociedade com fumo de rolo e pó de unha de tatu. Bentinho não fez outra coisa. E montado nessa simpatia, uma quinzena adiante, o aprendiz de botica entrava no mato. E bem não tinha dado meia dúzia de passos já o trabalho do curandeiro fazia efeito na forma de uma onçona de três metros de barriga por quatro de raiva. Bentinho, diante daquela montanha de carne e pêlo, largou a espingarda para subir de lagartixa pelo primeiro pé de pau que encontrou na alça de mira. E enquanto subia Bentinho falava para Bentinho:
- Curandeiro exagerado! Isso não é onça para aprendiz de farmácia. Isso é onça para doutor formado. Ou mais!
E voltou para sua caça miúda de preá.
José Cândido de Carvalho, in Os mágicos municipais

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pré-posfácio

Poeta sou! Cumpro o meu Fado, estranho
Como o dum santo ou um louco:
Só posso dar demais ou muito pouco,
Que é tudo quanto tenho.
José Régio

Favela

Favela, de António Tapadinhas

Variedade e flexibilidade de vida

“Não nos devemos apegar assim tão fortemente às nossas tendências e temperamento. O nosso talento principal é sabermos aplicar-nos a práticas diversas. O estar vinculado, e necessariamente obrigado, a um único estilo de vida não é viver, é ser. As almas mais belas são as que têm mais variedade e flexibilidade.
Se me fosse possível constituir-me a meu modo, não haveria nenhuma forma, por melhor que fosse, na qual eu me quisesse fixar de sorte que não fosse capaz de dela me apartar. A vida é um movimento desigual, irregular e multiforme. Não é ser amigo, e muito menos senhor, de si mesmo, deixar-se incessantemente conduzir por si e estar preso às próprias inclinações que não possa desviar-se delas nem torcê-las - é ser escravo de si próprio.
Digo-o neste momento por não me poder facilmente desembaraçar da importunidade da minha alma que consiste em ela normalmente não saber ocupar-se senão do que a absorve, nem aplicar-se senão por inteiro e de forma tensa. Por mais trivial que seja o assunto que se lhe dê, ela logo o aumenta e estica a ponto de ter de se empenhar nele com todas as forças. A sua ociosidade é-me, por esta causa, uma ocupação penosa e prejudicial à saúde. A maior parte dos espíritos precisa de matéria de fora para se desentorpecer e exercitar; o meu dela antes precisa para se acalmar e repousar ‘os vícios do ócio devem-se dissipar com o trabalho’ - Sêneca - pois o seu principal e mais laborioso estudo é de si mesmo.”
Michel de Montaigne, in Ensaios - De Três Espécies de Convivência

O galo e a pérola

Google Imagens

Num monturo esgravatando,
Formoso galo aguerrido
Acha uma pérola fina,
Que havia um nobre perdido.
Por três vezes a escoucinha
Sem nela querer pegar,
À quarta, erguendo-a no bico,
Se põe a cacarejar.
Vêm logo algumas galinhas
Cuidando que era algum grão;
Mas vendo a pérola, tristes
Vão-se, deixando-a no chão.
Acaso passa um ourives,
E apanhando-a, alegre diz:
“É uma pérola fina!”
“Que belo achado fiz!”
“Homem”, lhe pergunta o galo,
“Tanto essa jóia merece?
Pois eu por um grão de milho
Te dera mil, se as tivesse.”
Pérola em poder de galo,
Que lhe não sabe o valor,
É como entre as mãos dum néscio
As obras de um sábio autor.
Curvo Semedo

Um sonho de simplicidade

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
Rubem Braga, in A traição das elegantes