quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Amol divulga resultado do I Concurso João Batista Cascudo Rodrigues – conto e poesia

O concurso contemplou 1º e 2º lugares em cada categoria, além de oito menções honrosas, entre contos e poemas

A Academia Mossoroense de Letras (AMOL) divulga o resultado do I Concurso João Batista Cascudo Rodrigues (conto e poesia), que nesta edição premia os 1º e 2º colocados em cada categoria, além de conceder quatro menções honrosas para cada um dos gêneros. No edital, no entanto, estavam previstas apenas três. A comissão julgadora, por sua vez e com respaldo do presidente da entidade, resolveu conceder menção a outros dois textos que apresentaram qualidade literária e irão figurar na antologia impressa pela Academia Mossoroense de Letras (AMOL) em parceria com a Coleção Mossoroense.
Ganhadores – Na categoria contos, os vencedores foram: 1º lugar, Raimundo Antonio de Souza Lopes, com o conto Quando o amor vai embora e 2º lugar, Elilson José Batista, com o conto Dois Milagres*.
Menções honrosas: Na madrugada, casulos viram borboleta, de Marcos Venicius Filgueira de Medeiros; Assombração, de Marcos Ferreira de Sousa; A menina e a serra do feiticeiro, de Araceli Sobreira Benevides e Insensatez, de Cristiane dos Reis Braga e Silva. 
Na categoria poesia, os vencedores foram: 1º lugar, Escrever, de Marcos Ferreira de Sousa e 2º lugar, O Peixe da vida, de Antonio Francisco Teixeira de Melo.
Menções honrosas: Inverno, de Márcia Kaline Paula de Azevedo; Nudez, de José Ribamar de Carvalho Alves; Ofício de poeta, de Ângela Maria Rodrigues de Oliveira Pereira Gurgel e Tempo Passa, de Aníbal de Souza Mascarenhas Filho.
Premiação – Os 1º e 2º lugares, em cada categoria, receberão, respectivamente, R$ 800,00 (oitocentos reais) mais certificado e R$ 400,00 (quatrocentos reais) mais certificado. As menções honrosas também receberão certificados.
Os trabalhos ganhadores serão publicados pela Coleção Mossoroense, em formato de coletânea.
Cada ganhador, e os que forem agraciados com a menção honrosa, receberão, respectivamente, 5 (cinco) e 3 (três) livros.
Cerimônia será marcada pela Academia – A Amol marcará a data de entrega das premiações e das coletâneas, com os textos ganhadores desta primeira edição. “Pela qualidade dos textos, acreditamos que o concurso revelou talentos e confirmou outros. A proposta da Amol é a de sempre abrir suas portas para iniciativas literárias, acima de tudo estimulando a criação artística, em poesia e prosa”, destacou o presidente da entidade, escritor Elder Heronildes.
A Comissão Julgadora foi composta pelos seguintes membros: Mário Gerson (Amol), Geraldo Maia (Amol), Caio César Muniz (Coleção Mossoroense), Clauder Arcanjo (Amol) e Jomar Rêgo (Amol). Este último atuou como conselheiro da comissão.

Postado em 31/08/2011 às 13:20 horas por Mário Gerson na sessão Cultura, da Gazeta do Oeste.

*Obs. 1: Ficaram empatados em 1° lugar os dois contos. A Comissão julgadora se reuniu extraordinariamente para o desempate.
*Obs. 2: Posteriormente publicarei no blog meu conto "Dois Milagres", classificado em 2° Lugar. 

Verdade da Vida*


Choro a verdade da vida 
Sabendo que me enganei 
Ilusão 
Em tudo eu te encontrei 

Hoje a certeza do amor 
Dando lugar à saudade 
Solidão 
Só tu és a realidade 

Quem da vida espera 
A felicidade 
Há de ver 
Que ela dura bem pouco 
O tempo de uma flor 

Não peçam muito a ninguém 
Ninguém tem muito pra dar 
Coração 
Esquece o verbo amar 

Vamos sorrir, fazer bem 
E não sofrer, sonhar 
O amor 
Um dia nos enganará 
Solidão 
Eu sei que vais voltar. 

*Composição de C. Lacerda - R. Mascarenhas



“O medo é perdurável. Pode um homem destruir tudo dentro de si: o amor, o ódio, a crença e até a dúvida; mas enquanto tiver vida, não lhe é possível extirpar o medo”.
Joseph Conrad

Birds. Crédito: imagem cedida pelo autor

"Birds", novo trabalho do desenhista paulista Gustavo Duarte, guarda duas histórias.
A primeira é o enredo em si. A segunda, a estratégia por trás da publicação, que tem lançamento nesta terça-feira à noite, em São Paulo.
Como é preciso começar por algum lugar, que seja pelo enredo. A narrativa repete a fórmula usada pelo autor nos quadrinhos que vêm publicando de três anos para cá.
A história têm como personagem algum animal. No caso, são dois pássaros, Palhares e Palhares, que dividem um mesmo escritório. E uma cena inesperada que surge dentro dele.                                                   
Como se trata de uma história curta, de 32 páginas, dizer mais pode revelar o que não deve. Mas dá para dizer que o conteúdo dialogo, de forma cômica, com o gênero do suspense.
Esse diálogo com outros gêneros, vertidos pelo traço bem-humorado e singular do desenhista, parece ser outro ponto comum entre a produção de Duarte.
Em "Có", de 2009, havia um quê de ficção científica. Em "Taxi", publicada no ano passado, o tom visual era dos musicais de jazz, ambientados nos bares da vida.
As histórias, produzidas sem palavras, conseguem atingir facilmente leitores de diferentes línguas, unidos pelos poliglotas recursos da linguagem dos quadrinhos.
Atingir o mercado externo é um dos objetivos do desenhista. A primeira incursão de "Birds" foi na San Diego Comic-Con, convenção de quadrinhos realizada em julho nos EUA.
A tiragem, de três mil exemplares, foi a maior das três revistas editadas por ele e bancadas do próprio bolso. Volume que deve abastecer não só pontos de venda brasileiros.
Chargista do jornal esportivo "Lance!" e ilustrador de outros veículos de imprensa, o ingresso do autor nos quadrinhos é relativamente recente. Recente, mas bem-sucedido.
Chegou ao exterior e foi premiado com um Troféu HQMix, o principal da área de HQ do país. O mérito da repercussão é exclusivo de Duarte.  Por qualquer ângulo que se observe.
No conteúdo, é dono de um traço marcante, que casa muito bem com o humor de suas histórias.
Do ponto de vista comercial, ele tem se firmado no circuito independente e sabido esgotar o que lança. Tanto que já se tornou hábito aguardar a próxima loucura de seus bichos.
Postado originalmente no blogdosquadrinhos.com.br

Dúvida


Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

José Paulo Paes - Data da última gravação: 8/10/98, 17h09 (o poeta faleceu em 9/10/98)


CHATO, s.m. Uma pessoa que fala quando você quer que ela ouça”.
Ambrose Bierce  
   

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quase nada 055

Quase Nada 055
Tira de Fábio Moon e Gabriel Bá, in www.10paezinhos.com.br

Enigmático*


*Composição do músico natalense Roberto Taufic em homenagem ao grande violonista Guiga.

“Deus não é sujeito da metafísica. (...) Nenhuma noção apropriada a respeito de Deus, concebível por nós, é apreendida imediatamente pelo intelecto humano desta vida. Assim, nenhuma ciência naturalmente adquirida pode dizer respeito a Deus sob alguma noção apropriada”.
Duns Scot

A função da arte/2

O pastor Miguel Brun me contou que ha alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça.

Eduardo Galeano, in O livro dos abraços

“A grande finalidade da vida não é conhecimento, mas ação”.
Thomas Huxley

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Charge, de Angeli


Você já me esqueceu: Brega?!



Vem...você bem sabe que aqui é o seu lugar
E sem você consigo apenas compreender
que a sua ausência faz a noite se alongar.
Vem...há tanta coisa que eu preciso lhe dizer
quando o desejo que me queima se acalmar,
preciso de você para viver.
É noite amor
e o frio entrou no quarto que foi seu e meu,
pela janela aberta, onde eu me debrucei,
na espera inútil e 
você não apareceu.

Você já me esqueceu,
e eu não vejo um jeito de fazer você lembrar 
de tantas vezes que eu ouvi você dizer,
que eu era tudo pra você. 
Você já me esqueceu,
e a madrugada fria agora vem dizer 
que eu já não passo de nada pra você.
Você já me esqueceu..
Você já me esqueceu.
Você já me esqueceu.

Composição: Fred Jorge

“Na embriaguez, como na morte, não se pode ser substituído”.
 Franz Kafka  

Comparar-te a um dia de verão


Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in "Sonetos". Tradução de Carlos de Oliveira


“Não se pode fugir do desgosto que a frequentação dos homens nos comunica, desgosto pegajento de que não nos curamos nem mesmo com a solidão voluntária. [...] Quanto mais frequentamos os homens, mais se enegrecem os nossos pensamentos; e quando, para clareá-los, tornamos a nossa solidão, encontramos a sombra que ali espalhamos”.
E. M. Cioran

domingo, 28 de agosto de 2011

Papagaio do futuro


“Da literatura piegas nos livre Deus, sobre todas as coisas.”
  Almeida Garrett
  

Carta ao senhor da guerra


Senhor Imperador:
escrevo-lhe estas linhas
em nome das mulheres
— as pobres e as rainhas.

Em nome das manhãs
que nascerão sem paz;
em nome das crianças
que nascerão sem pais.

Senhor Imperador:
se é bom fazer a guerra
por que não vai você
o homem que não erra?

Se a pátria pede sangue
por que não dá o seu?
Por que matar o moço
que ainda não viveu?

Um Deus que não o seu
louvando a vida humana
virá pra nos salvar
da garra dos tiranos

dos amantes da morte,
dos senhores da Dor.
Terá fim o seu crime,
Senhor Imperador! 

Renata Pallottini, poetisa paulista


“O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre de que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele: o universo desconhece tudo isso”.
Pascal

sábado, 27 de agosto de 2011

O mundo é um moinho, duo: O autor e o Intérprete




Músicos da terrinha: Máximos Comando*

*Grupo de Seresta mossoroense formado por pai e filhos


“Uma centena de amigos não é demais, um só inimigo é. Para um homem, dois inimigos juntos constituem um regimento”.
 Provérbio russo  

O sino de ouro


Contaram-me que, no fundo do sertão de Goiás, numa localidade de cujo nome não estou certo, mas acho que é Porangatu, que fica perto do rio de Ouro e da serra de Santa Luzia, ao sul da Serra Azul - mas também pode ser Uruaçu, junto do rio das almas e da serra do Passa Três (minha memória é traiçoeira e fraca; eu esqueço os nomes das vilas e a fisionomia dos irmãos, esqueço os mandamentos e as cartas e até a amada que amei com paixão) -, mas me contaram que em Goiás, nessa povoação de poucas almas, as casas são pobres e os homens pobres, e muitos são parados e doentes indolentes, e mesmo a igreja é pequena, me contaram que ali tem - coisa bela e espantosa - um grande sino de ouro.
Lembrança de antigo esplendor, gesto de gratidão, dádiva ao Senhor de um grã-senhor - nem Chartres, nem colônia, nem S. Pedro ou Ruão, nenhuma catedral imensa com seus enormes carrilhões tem nada capaz de um som tão lindo e puro como esse sino de ouro, de ouro catado e fundido na própria terra goiana nos tempos de antigamente.
É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. E a cada um daqueles homens pobres ele dá cada dia sua ração de alegria. Eles sabem que de todos os ruídos e sons que fogem do mundo em procura de Deus - gemidos, gritos, blasfêmias, batuques, sinos, orações, e o murmúrio temeroso e agônico das grandes cidades que esperam a explosão atômica e no seu próprio ventre negro parecem conter o germe de todas as explosões - eles sabem que Deus, com especial delícia e alegria, ouve o som alegre do sino de ouro perdido no fundo do sertão. E então é como se cada homem, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um pequeno sino de ouro.
Quando vem o forasteiro de olhar aceso de ambição, e propõe negócios, fala em estradas, bancos, dinheiro, obras, progresso, corrupção - dizem que esses goianos olham o forasteiro com um olhar lento e indefinível sorriso e guardam um modesto silêncio. O forasteiro de voz alta e fácil não compreende; fica, diante daquele silêncio, sem saber que o goiano está quieto, ouvindo bater dentro de si, com um som de extrema pureza e alegria, seu particular sino de ouro. E o forasteiro parte, e a povoação continua pequena, humilde e mansa, mas louvando a Deus com sino de ouro. Ouro que não serve para perverter, nem o homem nem a mulher, mas para louvar a Deus.
E se Deus não existe, não faz mal. O ouro do sino de ouro é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro no ar, o ouro da alegria. Não sei se isso acontece em Porangatu, Uruaçu ou outra cidade do sertão. Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: "eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam com mais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro".
O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesmo a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista, ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

Rubem Braga, in A borboleta amarela


“Um homem é infinitamente mais complicado que seus pensamentos.”
  Paul Valéry 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Beleza do Sertão


O sertão nordestino, o semiárido é uma belíssima região. O povo sertanejo é apaixonado por sua terra. Só parte em extrema necessidade e, sempre que pode, retorna. Com abundância de sol aproximadamente 3 mil horas/ano, clima estável, com boa pluviosidade, embora irregular no tempo e no espaço, é uma belíssima região para se viver. Trata-se apenas de romper com as amarras culturais, sociais, ambientais e políticas que impedem o povo de avançar. Povo lutador, forte, alegre, festeiro, sabe ver e cantar tudo que há de bom no sertão do Nordeste.

Trecho do encarte do CD Belo Sertão, de Nilton Freitas, Targino Gondim e Roberto Malvezzi, gentilmente cedido ao blog por Etinho.




“Ser escravo dum homem é duro; mas ser escravo de si próprio é pior ainda”.
  de La Paste du Theil  

Doces sonhos

Para minha filha, Bárbara Beatriz, quando bebê

Toda vez que você dorme,
Minha pequena Beatriz,
Imagino-a no País dos Sonhos,
Pisando em nuvens de algodão-doce,
Sentando-se na ponta de uma estrela
E girando qual carrossel.
A lua, você tenta alcançá-la,
Pensando ser uma bola de queijo.

Bem sei que estará ao lado
De um ser resplandecente,
E zeloso na hora de te acordar,
Que dirá palavras meigas na despedida,
Esperando ansioso para encontrá-la,
Outra vez, noutro sonho.

Elilson José Batista, in Miscelânea Poética

“Política é a arte de impedir as pessoas de participarem de assuntos que são de seu interesse”.
Paul Valéry

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Encontro Histórico: Frank Sinatra & Tom Jobim


“Toda a ciência do mundo não vale um ato de caridade”.
Pascal

FotoArte: Cauda de golfinho

Foto: National Geographic


A verdade dividida

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

“A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento de nossa civilização - especialmente das instituições legais e parlamentares”.
Karl Popper

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O mossoroense João Almino vence o prêmio literário Zaffari & Bourbon 2011


Ainda se ambientando a Madri, depois de três anos e meio como cônsul-geral em Chicago, o diplomata mossoroense João Almino trocou nesta semana os 40ºC da cidade espanhola por dias gélidos em Passo Fundo (RS), onde foi anunciada, ontem à noite, sua vitória no 7º Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura, pelo romance "Cidade Livre" (Record).

Quinto livro de uma série que tem Brasília como pano de fundo, "Cidade Livre" seguiu uma tradição das obras anteriores do autor ao superar 227 outros romances na escolha do júri - dos cinco títulos de Almino que envolvem a capital federal, apenas o segundo, "Samba Enredo" (1994), não recebeu nenhuma honraria importante no País. Mas o Zaffari & Bourbon, como lembra, oferece hoje ao vencedor "o maior prêmio brasileiro não estatal", R$ 150 mil.
"Fico contente sobretudo porque estou em boa companhia. Aqueles que foram previamente premiados são todos bons escritores", diz, sobre nomes como Mia Couto e Cristovão Tezza. "Isso sem falar na minha concorrência nesta edição. Havia lido vários dos dez antes mesmo de serem finalistas, era muita coisa boa", comentou hoje pela manhã, durante entrevista coletiva na 14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, o diplomata, reconhecido pelo apoio que dá à causa da literatura brasileira no exterior. Assim como na ficção, Almino tem várias passagens por Brasília - viveu na cidade por um período antes de cursar o Instituto Rio Branco e, depois, nas funções de diplomata. Descobriu no local uma cidade que serve também como metáfora. "Não é só uma cidade, é um projeto que acompanha toda a história do Brasil independente, associada a esse sonho de modernização."
Nascido na cidade norte-riograndense de Mossoró em 1950, dez anos antes da fundação de sua cidade-personagem, Almino disse que via desde o começo dois caminhos possíveis para sua ficção. A primeira era o regionalista, desde sempre alimentada pelas várias temporadas que passou no sertão do Ceará e pela leitura privilegiada que pôde fazer de romances como os de Graciliano Ramos na pequena biblioteca de seu pai. Mas sentiu que a segunda permitiria maior inovação. "A ideia de tratar de Brasília coincidiu com o momento em que havia uma mudança política importante no Brasil. Achava que a literatura tinha que tomar um rumo novo. Não podia ser aquela literatura altamente engajada do ponto de vista da crítica e do regime militar. Precisava de um horizonte novo, e Brasília era um espaço vazio naquele momento", conta, sobre o caminho que o levou a Ideias para Onde Passar o Fim do Mundo, de 1987, e às obras subsequentes. Almino buscou em todas as obras um diálogo, não necessariamente central, com os novos meios de comunicação, mas é em Cidade Livre que essa característica se manifesta de forma mais clara. Embora o romance aborde, como os outros, o período de formação da cidade, para escrevê-lo o autor recorreu a uma linguagem de blog, ferramenta de publicação usada pelo narrador na história como instrumento para colher informações para o livro que pretende criar. 

Por Raquel Cozer, da Tribuna do Norte, de 24/08/2011


As cobras*

*Tira de Luís Fernando Veríssimo

“O homem não morre, mata-se”.
Elie Metchnikoff  
  

A fronteira da arte


Foi a batalha mais longa de todas as lutadas em Tuscatlan ou em qualquer outra região de El Salvador. Começou a meia-noite, quando as primeiras granadas caíram da montanha, e durou a noite toda e foi até a tarde do dia seguinte. Os militares diziam que Cinquera era inexpugnável. Os guerrilheiros tinham atacado quatro vezes, e quatro vezes tinham fracassado. Na quinta vez, quando foi erguida a bandeira branca no mastro do quartel-general, os tiros para o alto começaram os festejos.
Julio Ama, que lutava e fotografava a guerra, andava caminhando pelas ruas. Levava seu fuzil na mão e a câmara, também carregada e pronta para ser disparada, pendurada no pescoço. Andava Julio pelas ruas poeirentas, procurando os irmãos gêmeos. Esses gêmeos eram os únicos sobreviventes de uma aldeia exterminada pelo exército. Tinham dezesseis anos. Gostavam de combater ao lado de Julio; e nas entre-guerras, ele os ensinava a ler e a fotografar. No turbilhão daquela batalha, Julio tinha perdido os gêmeos, e agora não os via entre os vivos ou entre os mortos.
Caminhou através do parque. Na esquina da igreja, meteu-se numa viela. E então, finalmente, encontrou-os. Um dos gêmeos estava sentado no chão, de costas contra um muro. Sobre seus joelhos jazia o outro, banhado em sangue; e aos pés, em cruz, estavam os dois fuzis.
Julio se aproximou, e talvez tenha dito alguma coisa. O gêmeo que vivia não disse nada, nem se moveu: estava lá, mas não estava. Seus olhos, que não pestanejavam, olhavam sem ver, perdidos em algum lugar, em nenhum lugar; e naquela cara sem lágrimas estavam a guerra inteira e a dor inteira.
Julio deixou o fuzil no chão e empunhou a câmara. Rodou o filme, calculou num instante a luz e a distância e colocou a imagem em foco. Os irmãos estavam no centro do visor, imóveis, perfeitamente recortados contra o muro recém-mordido pelas balas.
Julio ia fazer a foto da sua vida, mas o dedo não quis. Julio tentou, tornou a tentar, e o dedo não quis. Então baixou a câmara, sem apertar o botão, e se retirou em silêncio.
A câmara, uma Minolta, morreu em outra batalha, afogada pela chuva, um ano mais tarde.

Eduardo Galeano, in O livro dos abraços

Dialética do poema

Fazer um poema
não é dizer coisas profundas.
É ver as coisas como as coisas não são.

Fazer um poema não é viajar no espelho.
É ir à procura do rosto do homem
perdido na escuridão.

É descer às raízes do sangue e do mito.
Fazer um poema é estar em conflito
 
com os dedos da mão.

Francisco Carvalho, poeta cearense de Russas

“Não há homens maus e ervas más. O que há é maus cultivadores”.
Victor Hugo

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Meninos do Sertão


Quando me lembro dos meninos do Sertão
Olho pro céu e vejo eu entre os pardais
Cantando estrelas, desenhando a solidão
Ouvindo estórias de fuzis e generais
Lembrando rezas que aprendi no juazeiro
Que um violeiro me ensinou numa canção
Bebendo sonhos era assim o meu destino
 
Mais um menino na poeira do Sertão
Quando me lembro dos meninos do Sertão
Beijando flores era eu em meu jardim
Qual borboletas bailarinas de quintais
E um arco-íris de esperança só pra mim
E a liberdade feito um pássaro de seda
Voava alto nos planos de menino
Nas travessuras imitava os meus heróis
Luiz Gonzaga, Lampião e Vitalino
Quando me lembro dos meninos do Sertão
Vejo Hiroshima nos olhares infantis
Vejo a essência da desigualdade humana
Num verdadeiro calabouço dos guris
Meu coração bate calado enquanto choro
A Deus imploro mais carinho e atenção
Tirai a canga do pescoço dessa gente
Que só precisa de amor, trabalho e pão
Adeus meu carro de boi
Adeus pau de arara
No ano 2000 que mal virá
Cola, Carandirú, Candelária
Quando isso vai parar
Será que será sempre assim
Será que assim sempre será.

Composição: Petrúcio Amorim e Maciel Melo

Alô? eu queria falar com
a substituta da assistente da
secretária da coordenadoria
da secretária da assessoria
da chefia da procuradoria da
defensoria da corregedoria
da ouvidoria da dona Maria
que está na portaria.
ah, saiu? não volta mais hoje...

Nicolas Behr, in 
Braxília Revisitada



“O verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de generosidade; é impossível imaginar um revolucionário autêntico sem esta qualidade”.
Ernesto Che Guevara

Humor no Sertão*

Era um domingo de manhã. Debaixo do Tamarindo frondoso eu, meu pai e alguns vizinhos botávamos a prosa em dia. Entrementes, minha mãe aparece na porta a reclamar:
- Dois homens em casa e os potes secos! 
Diante da Reclamação pai faz uma constatação: 
- Se pegassem a água que carreguei nos ombros, de galão, desde os meus oitos anos de idade e derramassem lá na Serra de Luís Gomes, esse rio aqui ficava com água no pescoço!

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Vendo minha mãe de saída para a feira, meu pai fez um pedido:
- Compra uma carninha!  
E minha mãe: - Ambom, não comesse carne ontem?! 
Nova constatação do meu pai: 
- Juntando toda carne que eu comi na minha vida num dá um bode de oito quilos!

*Causos envolvendo Francisco José de Oliveira, pai do poeta Zenóbio Oliveira.