quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A morte de Susana San Juan

Estou com a boca cheia de terra.
Sim, padre.
Não diga: “Sim, padre.” Repete comigo o que eu for dizendo.
O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez?
Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte.
Eu já vou morrer?
Vai, filha.
Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila?
Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la... Você não vai voltar a despertar nunca mais.
Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser.
O padre Rentería, sentado na beira da cama, as mãos postas sobre os ombros de Susana San Juan, com sua boca assim quase grudada na orelha dela para não falar alto, encaixava secretamente cada uma de suas palavras: “Tenho a boca cheia de terra.” Depois se deteve. Tratou de ver se os lábios dela se moviam. E os viu balbuciar, embora sem deixar sair som algum.
Tenho a boca cheia de ti, da sua boca. Seus lábios apertados, duros como se mordessem oprimindo meus lábios...”
Também se deteve. Olhou de viés o padre Rentería e viu-o ao longe, como se estivesse por trás de um vidro embaçado.
Depois tornou a ouvir a voz esquentando seu ouvido:
Tenho saliva espumosa; mastigo torrões coalhados de vermes que se aninham na minha garganta e raspam o meu céu da boca... Minha boca se afunda, contorcendo-se em trejeitos, perfurada pelos dentes que a perfuram e devoram. O nariz amolece. A gelatina dos olhos se derrete. Os cabelos ardem numa labareda só...
Estranhava a quietude de Susana San Juan. Teria querido adivinhar seus pensamentos e ver a batalha daquele coração por rejeitar as imagens que ele estava semeando dentro dela. Olhou seus olhos e ela devolveu o olhar. E ele achou que estava vendo como os lábios dela forçavam um sorriso.
Ainda falta uma coisa. A visão de Deus. A luz suave de seu céu infinito. O gozo dos querubins e o canto dos serafins. A alegria dos olhos de Deus, a última e fugaz visão dos condenados à pena eterna. E não apenas isso, mas tudo conjugado com uma dor terrena. O tutano dos nossos ossos convertido em lume e as veias do nosso sangue em fios de fogo, fazendo-nos contorcer de uma dor incrível; que não míngua nunca; atiçado sempre pela ira do Senhor.
Ele me abrigava entre seus braços. Ele me dava amor.”
O padre Rentería repassou com os olhos as figuras que estavam à sua volta, esperando o último momento. Perto da porta, Pedro Páramo esperava com os braços cruzados; em seguida, o doutor Valência, e junto a eles outros senhores. Mais além, nas sombras, um punhado de mulheres para quem já estava se fazendo tarde para começar a rezar a oração dos defuntos.
Teve intenção de se levantar. Dar os santos óleos à enferma e dizer: “Terminei.” Mas não, ainda não terminara. Não podia entregar os sacramentos a uma mulher sem conhecer o tamanho de seu arrependimento.
Sentiu que entrava em dúvidas. Talvez ela não tivesse nada de que se arrepender. Talvez ele não tivesse nada a perdoar. Inclinou-se suavemente sobre ela, e sacudindo seus ombros, disse em voz baixa:
Você está indo até a presença de Deus. E sua sentença é desumana para os pecadores.
Depois aproximou-se outra vez de seu ouvido; mas ela sacudiu a cabeça:
Vá embora de uma vez, padre! Não se mortifique por mim. Estou tranquila e tenho sono.
Ouviu-se o soluço de uma das mulheres escondidas na sombra.
Então Susana San Juan pareceu recobrar a vida. Endireitou-se na cama e disse:
Justina, faça-me o favor de ir chorar em outro canto!
Depois sentiu que a cabeça se cravava em seu ventre. Tentou separar o ventre de sua cabeça; afastar aquele ventre que apertava seus olhos e cortava sua respiração; mas cada vez se inclinava mais como se afundasse na noite.

Eu... Eu vi dona Susanita morrer.
O que você está dizendo, Dorotea?
Estou dizendo o que acabo de dizer.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Momento

O homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. A insidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio um riso límpido, e irresistível - em i, em a, em o - do fundo de um pátio da infância. Um riso... Senão quando o homem achou os fósforos e a vida recomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes...
O doloroso sulco lábio-nasal junto à garrafa morta...
Mário Quintina, in O sapato florido

Ana Cañas - Coração vagabundo

Comprometimento com as causas humanitárias

Não acho que [se comprometer com causas humanitárias] seja algo que cabe aos intelectuais. Acho que isso cabe aos cidadãos de maneira geral. Se atribuímos funções ou missões particulares ou especiais aos intelectuais, arriscamo-nos a cair em algo que não é bom: achar que algumas poucas pessoas, não se sabe por quê, têm uma função determinada, que seria dizer aos outros: “É por aqui que temos de ir, vocês estão errados indo por aí”. Não, quem faz isso é a Igreja. O intelectual tem que ser crítico, mas tem que ser crítico não pelo fato de ser intelectual — ou sim, um pouco, pois tem uma responsabilidade —, mas porque o senso crítico deveria ser algo que todos os cidadãos teriam. O que ocorre é que, se o intelectual se compromete com essa causa ou outras, então o fato de ele ser um escritor torna sua intervenção mais visível, faz com que sua palavra chegue mais adiante, mais longe.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Capítulo 2 - O emplasto

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis; “...e eu era hábil.” Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: - amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Carrego seu coração comigo

Carrego seu coração comigo
(Eu o carrego no meu coração)
Nunca estou sem ele
Onde quer que vá, você vai comigo
E o que quer que faça
Eu faço por você.

Não temo meu destino
(Você é meu destino, meu doce)
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
(Você é meu mundo, minha verdade)
Eis o grande segredo que ninguém sabe.

Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto
E o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o prodígio
Que mantém as estrelas à distância
(Eu carrego seu coração comigo)
Eu o carrego no meu coração.
E. E. Cummings

A hora do meio-dia

A superstição meridiana ainda é viva e forte no Brasil. Tanto quanto em Portugal e Espanha de onde a tivemos.
Não sei da porcentagem que poderia caber aos incas, astecas e maias por uma crendice referente ao Sol no zênite, perdurando nas populações ameríndias. Não conheço lenda referente ao meio-dia entre os nossos amerabas. O salmo 91,6 cita o Demônio do Meio-Dia, daemonio meridiano, tão de recear-se quanto a calamidade mortífera ocorrente nessa hora: – a pernicie quae vastat meridie. Sobrevive na imaginação coletiva a vaga imagem demoníaca, liberta do Inferno e operando na coincidência horária.
No Meleagro (Rio de Janeiro, 1951), divulgo uma Oração do meio-dia com força de atração amorosa. As pragas irrogadas a essa hora são de eficácia indiscutível. No Relógios falantes, D. Francisco Manuel de Melo registra a versão obstinada: – Velha conheci eu já, que ensinava às moças que as pragas rogadas das onze para o meyo dia erão de vez, porque todos empécião. Também, na face benemérita, as súplicas são atendidas desde que coincidam com o coro dos Anjos, cantando as glórias a Deus, justamente no pino do meio-dia.
Hora sexta, parada e morna para os romanos que a temiam. Hora sexta, criando a sesta. Na Grécia, silenciavam cantigas e avenas pastoris porque era a hora em que Pan, o grande Pan, adormecia, farto de correrias. Interrompido o sono, pagaria caro o atrevido perturbador. Na campina de Roma respeitava-se a sesta dos deuses silvestres fatigados. Na Idade Média era possível ouvir-se o fragor tempestuoso da cavalgada fantástica, seguindo o caçador eterno, Wuotans Heer, das wütende Heer, infernais. As pedras deslocam-se na França. O homem das águas rapta as crianças na Morávia, repetindo as Nereidas gregas e a Poledinice da Boêmia. Surge em Palermo a feia Grecu Livanti. O Demônio do Meio-Dia persegue nas montanhas as mulheres de Creta. Um espectro feminino ronda a pirâmide de Keops. Em Portugal, o Homem-das-sete-dentaduras aparece no Cerro Vermelho, Algarve, ao meio-dia como, de sete em sete anos, corre a Zorra de Odeloca, a Berradeira, espavorindo a região. No dia de São João o Sol dá três voltas ao meio-dia e está cercado por nove estrelas fiéis.
Para nós, brasileiros do sertão, o redemoinho, os súbitos pés de vento, a poeira que sobe, brusca, diante das portas, o canto estridente do galo, os rumores inexplicáveis no telhado, nas camarinhas sombrias, nos alpendres solitários denunciam presenças misteriosas e sobrenaturais.
É uma das horas abertas em que o Diabo se solta. Os doentes pioram. Os feitiços ganham poderio nas encruzilhadas desertas.
Não pragueje, não cante alto, não assobie, não abra os braços quando os ponteiros do relógio estiverem de mãos postas.
Notem que é uma hora estranha, imóvel, com um arrepio sinistro nas folhas, tangendo os animais lentos. Hora em que o cão se enrosca para não ver os fantasmas. No sertão, hora das miragens, do falso rumaceiro nos capoeirões, denunciando um fogo inexistente. Trote de comboio, obrigando o viajante volver-se para identificar invisíveis caminhantes.
Os animais reais dormem, escondidos nas sombras das malhadas. Os encantados galopam procurando apavorar os caminheiros do sol a pino. Relincho de cavalo que ninguém enxerga. Uivo de raposa que não nasceu. Bafo de coivara, sopro quente de braseiro, jamais localizado. Vento que passa açoitando as árvores e deixando os galhos imóveis, recortados em bronze.
Cuidado com o mal que desejar nessa hora fatídica. Voto, praga, invocação, esconjuro têm projeção mágica.
Todos os ocultistas recordam a batalha astral entre l’abbé Boullan e Stanislas de Guaita, combate de magia negra, à coups d’envoûtements, duelo a distância, sem pausa e sem mercê. Boullan sucumbiu acusando Stanislas de Guaita de havê-lo assassiné astralement. As horas preferidas foram sempre meia-noite e meio-dia. Valem tanto para a feitiçaria, macumba, catimbó, a hora do sol a pino como a meia-noite tenebrosa.
Mas é hora poderosa para as orações benéficas. Rogos, promessas, súplicas, pelas horas que são. Nunca a Igreja regulou esse horário que é superstição milenar, trazida pelo europeu para o continente americano. Não se verificou que as culturas pré-colombianas a tivessem motivado.
Certas rezas assumem valores surpreendentes quando ditas no pino do meio-dia. Ditas de pé e sem telhas acima da cabeça, ao ar livre, ao Sol. Explicam a intervenção prodigiosa pela obediência inarredável ao toque do meio-dia. Batendo o relógio as doze badaladas quando o devoto está orando, há convergência de fatores imponderáveis para o êxito. Nunca perdi um meio-dia justificava-se alguém de um acontecimento venturoso, solução vitoriosa, em antiquíssima e semiperdida questão. De um funcionário estadual a quem o Governador parecia perseguir tenazmente e sem visíveis vantagens ouvimos: – Ele não pode com a reza do meio-dia!, feitas pela mulher, teimosa e crente.
Só temo neste mundo a revólver descarregado e praga ao meio-dia, dizia-me um professor eminente, veterano de gerações.
Demônio do Meio-Dia chamavam ao Rei Filipe II da Espanha. Mas para o povo é bem outra a força miraculosa em sua ameaça imortal.
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

A brasilidade no traço de Portinari

Cangaceiro (1951), de Cândido Portinari

Da justiça

Quando se procede contra partes não ouvidas, ainda que se pronuncie o que é justiça, sempre se procede sem justiça.”
Padre Antônio Vieira

A fuga

Começou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, impermeável, muito apressadas, os rostos cansados. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente.
Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha.
Estava cansada. Pensava sempre: “Mas que é que vai acontecer agora?” Se ficasse andando. Não era solução. Voltar para casa? Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de partida. Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do “Lar Elvira”, aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: “Você não voltará.” Apaziguou-se.
Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: “Bem, as coisas ainda existem.” Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. O que tinha menos vontade de fazer, porém, era de representar.
Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos.
Atravessou o passeio e encostou-se à murada, para olhar o mar. A chuva continuava. Ela tomara o ônibus na Tijuca e saltara na Glória. Já andara para além do Morro da Viúva.
O mar revolvia-se forte e, quando as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?
A história de não encontrar o fundo do mar era antiga, vinha desde pequena. No capítulo da força da gravidade, na escola primária, inventara um homem com uma doença engraçada. Com ele a força da gravidade não pegava... Então ele caía para fora da terra, e ficava caindo sempre, porque ela não sabia lhe dar um destino. Caía onde? Depois resolvia: continuava caindo, caindo e se acostumava, chegava a comer caindo, dormir caindo, viver caindo, até morrer. E continuaria caindo? Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A princípio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.
Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim, isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos trens, o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com maior rapidez.
Ela ri. Agora pode rir... Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés...
Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. Um homem gordo parou a certa distância, olhando-a. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: “Meu filho, está chovendo.” Não. “Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher.” Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo.
Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje, depois de doze séculos. Saíra do chuveiro frio, vestira uma roupa leve, apanhara um livro. Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos. Fazia calor e ela sufocava. Abriu todas as janelas e as portas. Mas não: o ar ali estava, imóvel, sério, pesado. Nenhuma viração e o céu baixo, as nuvens escuras, densas.
Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. Então um forte estrondo abalou a casa. Quase ao mesmo tempo, caíam grossos pingos d’água, mornos e espaçados.
Ficou imóvel no meio do quarto, ofegante. A chuva aumentava. Ouvia seu tamborilar no zinco do quintal e o grito da criada recolhendo a roupa. Agora era como um dilúvio. Um vento fresco circulava pela casa, alisava seu rosto quente. Ficou mais calma, então. Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora.
Agora está com fome. Há doze anos não sente fome. Entrará num restaurante. O pão é fresco, a sopa é quente. Pedirá café, um café cheiroso e forte. Ah, como tudo é lindo e tem encanto. O quarto do hotel tem um ar estrangeiro, o travesseiro é macio, perfumada a roupa limpa. E quando o escuro dominar o aposento, uma lua enorme surgirá, depois dessa chuva, uma lua fresca e serena. E ela dormirá coberta de luar...
Amanhecerá. Terá a manhã livre para comprar o necessário para a viagem, porque o navio parte às duas horas da tarde. O mar está quieto, quase sem ondas. O céu de um azul violento, gritante. O navio se afasta rapidamente... E em breve o silêncio. As águas cantam no casco, com suavidade, cadência... Em torno, as gaivotas esvoaçam, brancas espumas fugidas do mar. Sim, tudo isso!


Mas ela não tem suficiente dinheiro para viajar. As passagens são tão caras. E toda aquela chuva que apanhou, deixou-lhe um frio agudo por dentro. Bem que pode ir a um hotel. Isso é verdade. Mas os hotéis do Rio não são próprios para uma senhora desacompanhada, salvo os de primeira classe. E nestes pode talvez encontrar algum conhecido do marido, o que certamente lhe prejudicará os negócios.
Oh, tudo isso é mentira. Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos.
Entra em casa. É tarde e seu marido está lendo na cama. Diz-lhe que Rosinha esteve doente. Não recebeu seu recado avisando que só voltaria de noite? Não, diz ele.
Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Veste um pijama de flanela azul, de pintinhas brancas, muito macio mesmo. Pede ao marido que apague a luz. Ele beija-a no rosto e diz que o acorde às sete horas em ponto. Ela promete, ele torce o comutador.
Dentre as árvores, sobe uma luz grande e pura.
Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Sente o luar cobri-la vagarosamente.
Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.
Clarice Lispector, in Todos os contos

Sete assuntos por segundo

Para que serve a pintura
a não ser quando apresenta
precisamente a procura
daquilo que mais aparenta,
quando ministra quarenta
enigmas vezes setenta?
sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos a fora
calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
lá fora e no alto
o céu fazia
todas as estrelas que podia
na cozinha
debaixo da lâmpada
minha mãe escolhia
feijão e arroz
andrômeda para cá
altair para lá
sirius para cá
estrela dalva para lá.
Paulo Leminski

Eu e a Brisa - Manu LePrince e Nelson Faria

Janela sobre a palavra / 2

A letra A tem as pernas abertas.
A M é um sobe-desce que vai e vem entre o céu e o inferno.
A O, círculo fechado, asfixia.
A R está evidentemente grávida.
Todas as letras da palavra AMOR são perigosas – comprova Romy Díaz-Perera.
Quando as palavras saem da boca, ela as vê desenhadas no ar.
Eduardo Galeano, in Mulheres

sábado, 20 de janeiro de 2018

O subsolo - 6

Ah, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria! E me respeitaria precisamente porque teria a capacidade de possuir ao menos a preguiça; pelo menos eu teria uma característica quase positiva, que eu mesmo teria a certeza de possuir. Pergunta: quem é ele? Resposta: um preguiçoso. Seria mais do que agradável ouvir tal coisa a meu respeito. Mostraria que fui definido positivamente, que há o que dizer sobre mim. “Um preguiçoso!” – isto é de fato um título, uma função, é uma carreira, senhores. Não brinquem com isso, é a pura verdade. Eu seria, então, por direito, membro do clube mais importante, e minha única ocupação seria passar todo o tempo me respeitando. Conheci um senhor que toda a sua vida se orgulhou de ser entendido em Laffittes. Para ele, isso era uma vantagem e uma qualidade positiva, e nunca duvidava de si mesmo. Morreu com a consciência não apenas tranquila, mas até mesmo triunfante, e com toda razão. Eu poderia escolher uma carreira: preguiçoso e comilão, mas não um comilão qualquer, e sim um que tivesse sensibilidade para tudo que é belo e sublime. Que lhes parece? Sonho com isso há muito tempo. O tal “belo e sublime” pesa muito na minha nuca agora, aos quarenta anos, mas naquela época seria diferente! Eu teria encontrado imediatamente uma atividade correspondente, como brindar a tudo que é belo e sublime. Não perderia nenhuma oportunidade de começar por verter uma lágrima dentro da minha taça e depois bebê-la à saúde de tudo que é belo e sublime. Eu transformaria tudo que há no mundo em belo e sublime, encontraria o belo e o sublime até mesmo nas coisas mais horríveis, nas piores e mais indiscutíveis porcarias. Ficaria lacrimoso como uma esponja molhada. Um pintor, por exemplo, pintou um quadro de Gay. Imediatamente eu beberia à saúde do pintor que pintou o quadro de Gay, porque amaria tudo que é belo e sublime. Um autor escreveu “como apraz a cada um” e imediatamente eu beberia à saúde de “cada um”, porque amaria tudo que é belo e sublime. Exigiria respeito por isso, perseguiria quem não me respeitasse. Viveria tranquilo, morreria solenemente – ah!, como seria formidável, uma verdadeira maravilha! Arrumaria uma bela pança, um queixo triplo, um nariz vermelho, e todos os que cruzassem comigo diriam: “Eis um homem de mérito! Isto é que é um homem de verdade!”. Digam os senhores o que quiserem, mas é superagradável ouvir coisas assim neste nosso século tão negativo.
Dostoievski, in Notas do subsolo

Os cegos

Viviam, num país do Oriente, cinco cegos que mendigavam juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já haviam ouvido falar de um animal extraordinário, enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito animal que muitos afirmavam que era divino. Mas eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante. Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu, porque Alá ouviu suas preces, que um domador de elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal. Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres falando. Ouvindo tal rebuliço, os cegos perguntaram: “O que está acontecendo?”. “Um elefante, um elefante”, responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao domador que os deixasse tocar o elefante, já que ver não podiam. O domador parou o animal e os cegos se aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado, abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante, os cegos começaram a conversar. “Quem diria que o elefante é como uma corda!”, disse o primeiro. “Corda coisa nenhuma”, disse o segundo: “É como uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o terceiro. “O elefante é como um muro muito alto.” “Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o quarto. “São também cegos da cabeça, pois é claro que o elefante é como uma ventarola.” “Doidos, doidos”, disse o quinto. “O elefante é como uma cobra enorme...” Por mais que conversassem, eles não conseguiram chegar a um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a seita do deus corda, a seita do deus palmeira, a seita do deus parede, a seita do deus ventarola, a seita do deus cobra... Assim são as religiões.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Calvin


Leitor intruso na noite

Para Ana Lúcia Trevisan

Na semana passada, tarde da noite, lia à mesa de um bar um conto de um escritor argentino quando um homem da minha idade se aproximou de mim e engrossou:
Sou um leitor e vim acertar as contas com você.”
Ia perguntar alguma coisa, mas ele prosseguiu, com voz áspera:
Por dois motivos: o primeiro, é que você me excluiu do seu romance. O segundo, e o mais grave, é que você matou meu pai nesse mesmo romance.”
Fechei o livro e encarei com receio aquele intruso que falava com a disposição de um inimigo. Não sei como, uma voz saiu de dentro de mim:
Você foi excluído? Eu matei seu pai?”
Isso mesmo. Seu romance é um relato calunioso, uma grande mentira. Eu sou o terceiro irmão, que você ignorou de uma forma vil. Além disso, meu pai continua vivo. Meu pai… É um absurdo o que fez com ele.”
O vidro das duas janelas do bar estava embaçado; mesmo assim, procurei com os olhos um recorte da noite, tentando entender se era verdade o que eu acabara de ouvir ou se, de fato, aquele leitor estava a três palmos do meu rosto.
Chuviscava em São Paulo. Ninguém na calçada; o garçom havia sumido. O vento frio entrava pela única porta aberta. Pensei: devia ter ido embora quando o bar estava cheio de gente. Em São Paulo o último crime nunca é o último. Alguém está morrendo neste instante, alguém dispara uma arma e amanhã essa notícia será velha e inútil. Ia tomar um gole de conhaque, mas minhas mãos tremiam e achei prudente não revelar meu medo. Sem olhar para o intruso, me levantei com uma calma fingida. O conto que tinha lido me deixou mais confuso e medroso. Percebi que estávamos sozinhos; quase ao mesmo tempo percebi que o homem era muito mais forte do que eu. Por um momento — talvez cinco segundos —, pensei que a conversa, depois das acusações, chegara ao fim.
Um bêbado soltou um grito em algum lugar do quarteirão, e esse som me distraiu e aliviou um pouco. Depois o silêncio, o rosto ameaçador diante de mim. De repente, o homem enfiou a mão direita no bolso do casaco e em seguida abriu a outra mão com um gesto de mágico que me pareceu patético. Vi uma lâmina enferrujada na mão aberta e ouvi uma sentença em voz grave:
Para um mentiroso e covarde como você, não há saída.”
Assustado, apenas murmurei: “Há uma”.
Fechou a mão, apontou a lâmina escura no meu peito; olhou furtivamente para a porta e perguntou com desprezo:
Qual?”
Escrever outro livro, incluir um terceiro irmão na trama do romance e ressuscitar seu pai.”
E assim fiz, escrevendo como um louco durante a madrugada, escrevendo quase sem fôlego até o amanhecer, quando enfim me livrei do pesadelo.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Boi

O vaqueiro é o pastor do boi, do boi bravio.
Boi, que, sendo um dos primeiros animais que o homem soube prender, a si e que pelo planeta o acompanharam, deles é o único que fortuitamente pode encontrar-se restituído, perto do homem, à sua vida primitiva e natural, no regime pastoral do despotismo na larga, na solta; e de tanto — e já que, o puro ofício de viver, nos bichos se cumpre melhor — o justo que haveria em estudar-se, nas condições, seu esboçar-se de alma, seu ser, seus costumes obscuros.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Trave

Alguma trave me mantém engasgado.
Não tem nome próprio,
nem gosto,
não tem forma de nada.
Fica assim oprimindo o peito,
que, suspirando,
empurra o coração para o lado direito
como se ele estivesse acaso incomodando.
Há que puxar essa massa pra fora,
socar-lhe a testa,
pisar-lhe o rabo.
Embalar tristeza é que não presta.
Se não a mando embora, então me acabo,
me alquebro,
termino definhando combalido.
Isso deve ter entrado de soslaio,
no balaio de um amor mal resolvido.
Flora Figueiredo