segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Mulher: mais sábia, generosa, aberta, real

[Em O Evangelho segundo Jesus Cristo], quando Jesus vai ressuscitar Lázaro, Maria de Magdala o segura, dizendo: “Ninguém pecou tanto que mereça morrer duas vezes”. Só uma mulher é capaz de compreender que não tem sentido ressuscitar se tens de morrer de novo. Sinto que as mulheres de A jangada de pedra demonstram que a mulher é mais sábia, mais generosa, mais aberta, mais real. Quando começo um romance, não é que eu diga a mim mesmo: “Agora tens que pôr aqui uma mulher extraordinária”. O que acontece é que ela vai nascendo a partir das situações criadas que vão sendo narradas. E, quando a vejo desenhar-se pouquinho a pouquinho, lhe digo: aí estás, já apareceste de novo, eu andava a te procurar…
José Saramago, in As palavras de Saramago

Os elefantes

Os elefantes deveriam ser assinzinhos — diz Lili. Tomo nota, não pela ideia, que já deve ter ocorrido utilitariamente a muitos, mas pelo “assinzinhos”.
E, na falta de um elefante doméstico, peço a ela que me traga um copo d’água.
Só os novelistas ianques e os seus personagens é que tomam uísque a cada página. Mas, por outro lado, não têm quem lhos traga. Eles próprios se servem.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

O pirotécnico Zacarias


E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d’alva. (Jó, XI, 17)

Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?
A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo — o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado.
A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.

A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.

Simplício Santana de Alvarenga!
Presente!
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.
— “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)
Simplício Santana de Alvarenga!
Não está?
Tire a mão da boca, Zacarias!
Quantos são os continentes?
E a Oceania?
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam dona Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.
Simplício Santana de Alvarenga!
Meninos, amai a verdade!

A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu.
Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio.
O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.

A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso, com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens.

Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria.
Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver — o meu ensanguentado cadáver — não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.
A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente enganados, como explicarei mais tarde.)
Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado.
Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Esse argumento não me ocorreu no momento.)
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso.

Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:
Alto lá! Também quero ser ouvido.
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me.
Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, o que me prontifiquei a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.

* * *

Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida, que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.
Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência.
Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento.
Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte.

No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto.
Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados.
Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos.
Murilo Rubião, in Obra completa

A língua mais difícil do mundo?

Quantas vezes você já ouviu que nossa língua é a mais complicada que existe? Bobagem. O português é uma das línguas mais fáceis do mundo, isso sim.
Claro que depende do ponto de vista: aprender sueco, por exemplo, é moleza para quem fala dinamarquês. Mas um ranking elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos (do ponto de vista dos falantes de inglês, portanto) situa nossa língua no grupo um, o dos idiomas acessíveis em que se pode ficar fluente com até seiscentas horas de estudo. Na mesma categoria estão francês, italiano e espanhol. No extremo oposto, o grupo quatro, o tempo de ralação sobe para 2200 horas. Ali estão árabe, mandarim, coreano e japonês.
Quanto à mania brasileira de achar que o português é mais difícil que engenharia espacial, é como diria um velho professor rabugento:
Português não é difícil, você é que estudou pouco!

De onde tiraram isso?
Baseada provavelmente na dor de cabeça real que acomete estrangeiros diante da arquitetura barroca de nossos verbos, a afirmação dispensa a necessidade de prova. O sujeito erra o gênero da palavra alface e pronto, lá vem a desculpa universal:
Também, como é difícil a porcaria dessa língua! Ah, se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses!
Isso não quer dizer que o queixoso saiba holandês. É na imensa parcela monoglota da população que a crença na dificuldade insuperável do português encontra solo mais fértil. Não é uma conclusão a que se chegue depois de estudar latim, alemão, húngaro, russo e japonês. Ninguém precisa ter encarado uma declinação — vespeiro do qual a gramática portuguesa nos poupou — para deplorar o desafio invencível da crase.
O mito das agruras superlativas do português diz muito sobre a falência educacional brasileira.
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira!

Caetano Veloso - Um Comunista

domingo, 22 de outubro de 2017

Legenda

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
Mário Faustino

A língua do "P"

Maria Aparecida – Cidinha, como a chamavam em casa – era professora de inglês. Nem rica nem pobre: remediada. Mas vestia-se com apuro. Parecia rica. Até suas malas eram de boa qualidade.
Morava em Minas Gerais e iria de trem para o Rio, onde passaria três dias, e em seguida tomaria o avião para Nova Iorque.
Era muito procurada como professora. Gostava da perfeição e era afetuosa, embora severa. Queria aperfeiçoar-se nos Estados Unidos.
Tomou o trem das sete horas para o Rio. Frio que fazia. Ela com casaco de camurça e três maletas. O vagão estava vazio, só uma velhinha dormindo num canto sob o seu xale.
Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. O trem em marcha. Um homem era alto, magro, de bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem.
Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade?
Então os dois homens começaram a falar um com o outro. No começo Cidinha não entendeu palavra. Parecia brincadeira. Falavam depressa demais. E a linguagem pareceu-lhe vagamente familiar. Que língua era aquela?
De repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do “p”. Assim:
Vopocêpê reperaparoupou napa mopoçapa boponipitapa?
Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestápá nopo papapopo.
Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. É linda. Está no papo.
Cidinha fingiu não entender: entender seria perigoso para ela. A linguagem era aquela que usava, quando criança, para se defender dos adultos. Os dois continuaram:
Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocêpê?
Tampambémpém. Vapaipi serper nopo tupunelpel.
Queriam dizer que iam currá-la no túnel... O que fazer?
Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia. Aliás nunca se conhecera por dentro. Quanto a conhecer os outros, aí então é que piorava. Me socorre, Virgem Maria! me socorre! me socorre!
Sepe repesispistirpir popodepemospos mapatarpar epelapa.
Se resistisse podiam matá-la. Era assim então.
Compom umpum pupunhalpal. Epe roupoubarpar epelapa.
Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la.
Como lhes dizer que não era rica? que era frágil, qualquer gesto a mataria. Tirou um cigarro da bolsa para fumar e acalmar-se. Não adiantou. Quando seria o próximo túnel? Tinha que pensar depressa, depressa, depressa.
Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.
Então levantou a saia, fez trejeitos sensuais – nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida ela era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.
Tápá dopoipidapa.
Está doida, queriam dizer.
E ela a se requebrar que nem sambista de morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.
Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Esta desesperada. E o túnel?
Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:
Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.
E a próxima estação veio.
O maquinista desceu, falou com um soldado por nome de José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram.
Os dois homens às gargalhadas.
Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu.
Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão.
Afinal deixaram-na partir. Tomou o próximo trem para o Rio. Tinha lavado a cara, não era mais prostituta. O que a preocupava era o seguinte: quando os dois haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopoupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa.
Chegou ao Rio exausta. Foi para um hotel barato. Viu logo que havia perdido o avião. No aeroporto comprou a passagem.
E andava pelas ruas de Copacabana, desgraçada ela, desgraçada Copacabana.
Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal O Dia. Não saberia dizer por que comprou.
Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.
Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a desprezara.
Pôs-se a chorar na rua. Jogou fora o maldito jornal. Não queria saber dos detalhes. Pensou:
Épé. Opo despestipinopo épé impimplaplacápávelpel.
O destino é implacável.
Clarice Lispector, in A via crucis do corpo

Street Art, por Fin Dac, em Melbourne, Austrália


No lugar do outro

Só alcançamos a verdade do nosso pensamento quando incansavelmente nos esforçamos por pensar colocando-nos no lugar de qualquer outro. É preciso conhecer o que é possível ao homem. Se tentamos pensar seriamente aquilo que outrem pensou, aumentamos as possibilidades da nossa própria verdade, mesmo que nos recusemos a esse outro pensamento.
Só ousando integrar-nos totalmente nele o podemos conhecer. O mais remoto e estranho, o mais excessivo e excepcional, mesmo o aberrativo, incitam-nos a não passar ao largo da verdade por omissão de algo de original, por cegueira ou por lapso.”
Karl Jaspers, in Iniciação filosófica

Num momento de fraqueza, Ulrich arranja outra amante

Certa manhã, Ulrich chegou em casa em péssimo estado. Suas roupas pendiam rasgadas, teve de fazer compressas molhadas na cabeça ferida, faltavam-lhe relógio e carteira. Não sabia se os três homens com quem brigara os tinham roubado ou se algum silencioso benfeitor os pegara quando ele estava desmaiado no asfalto. Deitou-se na cama, e enquanto o corpo abatido se sentia abrigado e cuidado, Ulrich refletiu mais uma vez sobre toda a aventura.
De repente, tinham aparecido três sujeitos: talvez tivesse roçado num deles na rua, numa hora tardia e solitária, pois estava distraído com outras ideias; mas mesmo assim, aqueles rostos, contorcidos à luz do lampião, expressavam uma raiva mais antiga. Ele cometera então um erro. Deveria ter recuado imediatamente, como quem tem medo, mas empurrando com as costas o sujeito que se metera atrás dele, ou enfiando o cotovelo em seu estômago, tentando ao mesmo tempo fugir, pois contra três homens fortes não se luta. Em vez disso, hesitara um instante. Era a idade: trinta e dois anos. A essa altura, hostilidade e amor exigem mais tempo. Ele não acreditava que os três rostos que o encaravam na noite com raiva e desprezo quisessem apenas seu dinheiro, imaginou que era ódio, ódio que confluíra contra ele e se personificara; enquanto os malandros o insultavam com palavras grosseiras, pensou que podiam nem ser malandros mas cidadãos como ele, apenas bêbados e liberando suas inibições, e que, notando o vulto dele ao passar, descarregavam sobre ele o ódio que está sempre em todo mundo à espera de qualquer pessoa estranha, como uma tempestade iminente no ar. Ele próprio já sentira algo parecido. Hoje em dia, muitíssimas pessoas se sentem numa lamentável oposição a muitíssimas outras. É um traço fundamental de nossa cultura o homem desconfiar profundamente de pessoas fora do seu próprio meio; portanto, não só um ariano considera um judeu um ser incompreensível e inferior, mas um jogador de futebol sente o mesmo diante de um pianista. Afinal, cada coisa só existe dentro de seus limites, afirmando-se como ato relativamente hostil contra o ambiente; sem Papa não teria havido Lutero, sem pagãos não teria havido Papa; por isso, não se pode negar que a mais intensa inclinação do homem por seus irmãos se baseie na repulsa deles.
Ulrich não pensou em tudo isso tão minuciosamente, é claro; mas reconhecia aquela vaga hostilidade que inunda nossa civilização; e quando ela de repente se cristaliza em três desconhecidos que atacarão como raios e trovoadas, sumindo depois para sempre, quase nos sentimos aliviados.
Mesmo assim, em se tratando de três malandros, a reflexão parece ter sido um tanto excessiva. Pois quando o primeiro atacou, e voou de volta porque Ulrich se adiantara dando-lhe um soco no queixo, teria sido necessário eliminar imediatamente o segundo; mas este foi apenas roçado pelo punho de Ulrich, a quem um golpe vindo de trás quase rachou o crânio. Ele caiu de joelhos, foi agarrado, conseguiu levantar-se com força quase sobrenatural, como em geral acontece depois do primeiro choque, esmurrou uma massa indefinida de corpos estranhos e acabou abatido por punhos que lhe pareciam crescer cada vez mais.
Constatado o erro que cometera, e que se limitava ao campo esportivo, como quando se dá um salto curto demais, Ulrich, com nervos excelentes, adormeceu tranquilamente, atraído pelas mesmas espirais flutuantes da inconsciência que o tinham engolido quando fora derrubado.
Ao acordar, certificou-se de que os ferimentos não eram graves, e refletiu de novo sobre o acontecido. Uma briga sempre deixa uma sensação ruim, por assim dizer de uma intimidade precipitada, e Ulrich sentiu que, mesmo tendo sido atacado, não se portara adequadamente. Mas adequar-se a quê? Junto das ruas onde a cada trezentos passos um policial pune a menor infração da ordem, há outras que exigem força e atenção, como uma floresta virgem. A humanidade produz bíblias e armas, tuberculose e tuberculina. É uma democracia com reis e aristocratas; constrói igrejas, mas constrói universidades que as combatem; transforma mosteiros em casernas, mas nas casernas coloca capelães militares; naturalmente também coloca nas mãos de bandidos mangueiras de borracha recheadas de chumbo, para atormentarem outras pessoas, e depois prepara cobertores macios para as vítimas desses maus-tratos, como as cobertas que agora envolviam Ulrich com carinho e proteção.
Tudo isso é o conhecido fato dos paradoxos, da incoerência e imperfeição da vida, que nos fazem rir ou chorar. Ulrich porém não era assim. Odiava aquela mescla de desapego e exagerado apego à vida, com que suportamos suas contradições e meias- verdades, como uma tia solteirona tolera as má-criações de um jovem sobrinho. Mas não saltou da cama ao ver que ficar deitado nela era tirar vantagem da desordem nas relações humanas; pois evitar pessoalmente o mal e fazer o bem, mas não se importar com a ordem geral é, em muitos sentidos, um compromisso precipitado com a consciência à custa da causa, um curto-circuito, uma fuga para o mundo particular. Depois daquela involuntária experiência, Ulrich chegou a pensar que valia muito pouco eliminarem-se armas, ou reis, e reduzir a ignorância e maldade humanas com o progresso; pois as objeções e maldades são sempre substituídas por outras, como se uma perna do mundo escorregasse para trás cada vez que a outra avança. Seria preciso entender a causa e mecanismo secreto desse processo! Isso seria mais importante do que ser um bom homem segundo princípios breve superados; assim, em assuntos de moral Ulrich preferia o serviço no estado-maior ao heroísmo cotidiano da prática do bem.
Recordou mais uma vez a continuação daquela aventura noturna. Quando voltara a si depois da briga de final infeliz, um táxi parará à beira da calçada; o motorista tentara erguer pelos ombros o estranho ferido, e uma dama de expressão angelical inclinara-se sobre ele. Nesses momentos em que a consciência volta de muito fundo, tudo nos parece um livro de contos de fadas; mas logo o desmaio cedera à lucidez, e a presença daquela mulher que se interessava por ele bafejou Ulrich, reanimando-o como água-de-colônia; ele logo viu que não estava muito machucado, e tentou pôr-se de pé da melhor maneira possível. Não conseguiu isso logo como desejava, e a dama ofereceu-se, preocupada, para levá-lo a algum lugar onde encontrasse ajuda. Ulrich pediu que o levassem para casa, e como ainda parecesse desamparado e confuso, a dama consentiu. No carro ele se recuperara depressa. Sentia nela uma presença maternal, uma doce nuvem de romântica solicitude, em cujo calor agora começavam a formar-se os pequenos cristais de gelo da dúvida e do medo de um ato irrefletido, enquanto ele voltava a ser um homem, e os cristaizinhos enchiam o ar, macios como neve caindo. Contou sua experiência, e a bela mulher, só um pouco mais jovem do que ele, portanto com talvez trinta anos, lamentou a brutalidade das pessoas, e sentiu uma pena imensa.
Naturalmente Ulrich começou a justificar vivamente o que acontecera e declarou à supreendida beldade maternal que brigas não podiam ser avaliadas segundo seu resultado. O encanto delas residia no fato de que em um pequeno lapso de tempo é preciso agir com uma rapidez que habitualmente não tem lugar na vida burguesa e, guiado por sinais quase imperceptíveis, executar tantos movimentos variados, violentos, mas ainda assim exatos, que é totalmente impossível controlá-los com a consciência. Ao contrário, qualquer esportista sabe que já alguns dias antes de uma competição é preciso parar com o treinamento, para que os músculos e nervos possam fazer um último acordo entre si, sem que a vontade, a intenção e a consciência estejam presentes ou possam intervir. No momento da ação é sempre assim, descreveu Ulrich: os músculos e nervos saltam e lutam com o eu; mas este, o corpo como um todo, a alma, a vontade, toda essa pessoa limitada como individualidade pelo direito civil, é carregada por eles como Europa sentada sobre o touro; e se não fosse assim, se infelizmente o menor raio de reflexão caísse nessa treva, a empresa fracassaria.
Ulrich dissera tudo isso sempre mais entusiasmado. No fundo, afirmou então, achava que aquela experiência de total retraimento ou ruptura da consciência se ligava a experiências perdidas que os místicos de todas as religiões conheciam, portanto de certa forma eram um substituto atual de necessidades eternas; e embora fossem um mau substituto, ao menos era alguma coisa; e o boxe, ou esportes semelhantes, que colocam isso num sistema racional, seriam uma espécie de teologia, embora não se possa esperar que todo mundo compreenda isso.
Talvez Ulrich falasse tão vivamente com sua companheira por desejar fazê-la esquecer a triste situação em que o encontrara. Nessas circunstâncias era difícil para ela saber se ele falava a sério ou de brincadeira. De qualquer modo, parecia-lhe natural ele tentar explicar a teologia com o esporte, e talvez até fosse interessante, pois esporte é uma coisa moderna, e teologia algo misterioso, embora inegavelmente ainda existam muitas igrejas. E, fosse como fosse, ela achava que um acaso feliz a fizera salvar um homem muito brilhante; mas também ficou pensando se ele não teria sofrido uma comoção cerebral.
Ulrich, querendo dizer alguma coisa sensata, aproveitou a ocasião para comentar, em tom casual, que também o amor fazia parte das experiências religiosas e perigosas, porque tirava os homens dos braços da razão para deixá-los flutuando no ar.
Sim, disse a dama, mas esporte era uma coisa rude.
Certamente, admitiu Ulrich depressa, esporte era uma coisa rude. Podia-se dizer que nas competições se descarrega um ódio sutilmente distribuído, um ódio generalizado. Naturalmente afirmava-se o contrário, que o esporte une, faz camaradas, e coisas assim; mas isso no fundo apenas comprovava que rudeza e amor não estão mais distantes um do outro do que as duas asas de um grande pássaro colorido e silencioso.
Ele acentuara as asas e o colorido pássaro silencioso — ideia sem muito sentido, mas cheia daquela incrível sensualidade com que a vida, em seu corpo desmedido, une todos os contrários rivais. Notou que sua vizinha não compreendia nada disso; a macia sensação de neve caindo, que a presença dela espalhava pelo carro, tomara-se entretanto ainda mais densa. Então ele se virou bem para ela e perguntou se não gostava de falar em assuntos do corpo. O corpo estava se tomando moda, e no fundo isso dava uma sensação sinistra, pois ele, quando muito bem treinado, assumia o comando e reagia a cada excitação, sem nada perguntar, com movimentos automatizados, com tamanha segurança, que ao seu dono restava apenas a inquietante sensação de observar, enquanto seu caráter se evadia junto com uma parte qualquer do corpo.
Pareceu realmente que essa pergunta tocara fundo a jovem; ela se mostrou excitada com essas palavras, ficou de respiração agitada e afastou-se um pouquinho, cautelosa. Um mecanismo semelhante ao descrito acima, uma inspiração funda, um rubor da pele, pulsações do coração, e talvez alguma coisa mais, parecia estar agindo nela. Mas exatamente nesse momento o carro parará diante da casa de Ulrich. Ele apenas pôde sorrir e pedir o endereço de sua salvadora, para o devido agradecimento, mas para seu espanto ela não lhe concedeu esse favor. Assim, o portão de ferro preto batido fechou-se atrás de um estranho surpreso. Provavelmente depois disso as árvores de um parque antigo tinham-se erguido, altas e escuras, na luz de lampiões elétricos, janelas se haviam acendido, e as alas inferiores de um castelinho semelhante a um boudoir haviam-se estendido sobre um relvado verde-esmeralda bem aparado, um pouco das paredes aparecera, cobertas de quadros e prateleiras de livros coloridos, e o companheiro de viagem, depois das despedidas, fora absorvido por aquela existência inesperadamente bela.
Assim tinha acontecido; mas enquanto Ulrich ainda refletia sobre a inconveniência de vir a ter perdido tempo com mais uma dessas aventuras amorosas das quais estava cheio, foi-lhe anunciada uma dama que não queria dizer o nome e entrou coberta por um longo véu. Era ela, que não tinha mencionado nome nem endereço, e que agora, com o pretexto de ver como ele estava, tomava, romântica e caridosa, a iniciativa de prosseguir a aventura. Duas semanas depois, Bonadéia já era amante dele há catorze dias.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

sábado, 21 de outubro de 2017

O triunfo da razão e da justiça

No decurso da minha longa vida recebi dos meus companheiros um reconhecimento muito maior do que aquele que mereço e confesso que o meu sentido de humildade sempre se sobrepôs ao meu prazer. Mas nunca, em ocasiões anteriores, a dor se sobrepôs tanto ao prazer como agora. Todos nós, que estamos preocupados com a paz e o triunfo da razão e da justiça, devemos estar hoje claramente conscientes do peso que uma pequeníssima justificação e uma boa vontade honesta podem exercer sobre os acontecimentos na vida política. Mas, independentemente disso, e independentemente do nosso destino, podemos estar certos de que sem os esforços incansáveis daqueles que estão preocupados com o bem-estar da humanidade como um todo a maioria da espécie humana estaria muito pior do que se encontra realmente agora.
Albert Einstein, in Discurso (1948)

Scorpions - Still Loving You, por Ozielzinho

Esta placa

Como se eu mesmo dissesse,
como se eu próprio afirmasse
(começa com
eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,
solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.

Meu nome não sou agora,
moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo
nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,
este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de eu não ser o que ele diz.
Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem — ei, você! —

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada
(certas tintas não se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,
o agora sem vaticínios
de um norte em que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,
nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome
que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quando me digo

toda vez que respondo:
como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida
quando estiver concluída.
Então, morrerei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.
Eucanaã Ferraz