terça-feira, 21 de novembro de 2017

Sobre verdade e mentira

Com o início da vida, vem a sede pela verdade, enquanto a capacidade de mentir é gradualmente adquirida no processo de nos tentarmos manter vivos.”

Gao Xingjian

Soneto XVIII

Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.
William Shakespeare (tradução de Geraldo Carneiro)

Era. Já não é.

No portão, junto ao caminho, Lázaro Vivo despedia-se, distribuindo as bênçãos, quando Mwadia reparou que Zero Madzero sangrava. Pequenas gotas vermelhas despontavam no pescoço como botões de flores, essas mesmas que deflagravam nas águas do banho do burriqueiro.
Para Mwadia a origem dos ferimentos era simples: o marido roçara a micaia junto à vedação. Nem ela queria que Madzero viesse com a conversa das guelras. Mas para o curandeiro o assunto era de maior alarme: quem ferira Zero tinha sido a maldição do missionário. Sombra silenciosa, uma águia descera em voo picado e atacara o burriqueiro. Ninguém vira porque ela lhe entrara no corpo e o bicara por dentro.
Uma águia? Sabe, compadre Lázaro, eu já começo a ficar cansada...
Você não acredita, não é?, inquiriu Lázaro, em tom grave.
Tenho outras crenças.
Pois aqui não precisa de acreditar, minha filha. Basta viver. Veja o sangue no peito do seu marido. Veja.
Não era o momento para mastigar conversa. Lázaro entrou em casa, anunciando que ia buscar apropriado remédio. Madzero não podia entrar: ali estava o sangue, o vivo vermelho desafiando os espíritos. O adivinho trouxe um pano molhado e mandou que Mwadia lavasse as feridas de Madzero.
Lave-o a ele e lave-se a si também.
Ficaram em silêncio, sentados, como que esperando o desabar do destino. Até que o adivinho se ergueu e sentenciou:
Vamos ao rio.
Ao rio? Eu quero é regressar a casa, tratar do meu marido...
Minha amiga, o seu marido está sofrendo perigos que nenhuma casa nem esposa podem dar proteção...
Todo o caminho o curandeiro bufou, espirrou, soprou maldições, limpou o suor com um lenço branco. Quando, por fim, chegaram à margem do Mussengueze, o fatigado Lázaro ordenou:
Agora, compadre: meta as mãos na água!
Para quê?
Faça.
O burriqueiro, a medo, mergulhou os braços na corrente. De imediato, a água tingiu-se de vermelho. O pastor, assustado, olhou as mãos e gemeu:
Estou sangrando tanto?
Não é você que está sangrando, explicou o nyanga. Esse sangue já estava lá, adormecido no rio. Você apenas o despertou.
O curandeiro puxou as mangas de Zero e inspecionou-lhe os pulsos. Certificava-se de que nenhum objeto de metal havia tocado as águas. Se isso tivesse sucedido o rio poderia secar. Depois, virando-se para o burriqueiro, Lázaro sentenciou:
E agora lhe digo uma coisa: Você corre grande perigo.
Não diga isso, compadre, meu coração é uma sombra. O que devo fazer?
Você tem que levar essa Santa para um lugar sagrado.
Mas para onde? Para junto do rio, de onde a tirei?
Para aí nunca!
Mas você não disse que esse lugar é sagrado?
Era. Já não é.
Tinha sido o casal que conspurcara o lugar. Sem rodeios, o adivinho sentenciou que a Santa fosse levada para Vila Longe, o mais rápido possível.
Eu não disse?, interrompeu Madzero que, a seguir, se dirigiu a Lázaro: Você acha que posso ir à Vila?
Mwadia interpôs-se e interferiu, em defesa do marido:
Nem pensar, Zero não pode voltar a Vila Longe.
A decisão, em Mwadia, já tinha sido tomada. Ela mesma iria à vila em representação do marido.
Mia Couto, in O outro pé da sereia

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O teatro


Os jogadores atuam, com as pernas, numa representação destinada a um público de milhares ou milhões de fervorosos que assistem, das arquibancadas ou de suas casas, com o coração nas mãos. Quem escreve a peça? O técnico? A obra zomba do autor. Seu desenrolar segue o rumo do humor e da habilidade dos atores e, no final, depende da sorte, que sopra, como o vento, para onde quiser. Por isso, o desenlace é sempre um mistério, para os espectadores e também para os protagonistas, salvo nos casos de suborno ou de alguma outra fatalidade do destino.
Quantos teatros existem no grande teatro do futebol? Quantos cenários cabem no retângulo de grama verde? Nem todos os jogadores atuam somente com as pernas.
Há atores magistrais na arte de atormentar o próximo: o jogador põe uma máscara de santo incapaz de matar uma mosca e então cospe, insulta, empurra, joga terra nos olhos do adversário, dá-lhe uma cotovelada certeira no queixo, afunda o cotovelo em suas costelas, puxa seu cabelo ou a camiseta, pisa em um pé parado ou em uma mão quando está caído, e faz tudo isso quando o juiz está de costas ou quando o bandeirinha olha as nuvens que passam.
Há atores memoráveis na arte de levar vantagem: o jogador coloca a máscara do pobre infeliz que parece imbecil mas é idiota e então cobra a falta, tiro direto ou lateral, várias léguas além do ponto indicado pelo árbitro. Quando tem que formar barreira, desliza do lugar marcado, bem devagarinho, sem levantar os pés, até que o tapete mágico o deposita em cima do jogador que vai chutar a bola.
Há atores insuperáveis na arte de ganhar tempo: o jogador coloca a máscara do mártir que acaba de ser crucificado, e então rola em agonia, agarrando o joelho ou a cabeça, e fica estendido na grama. Passam os minutos. Em ritmo de tartaruga chega o massagista, o mão-santa, gordo suado, cheirando a linimento, com a toalha no pescoço, o cantil numa mão e na outra alguma poção infalível. E passam as horas e os anos, até que o juiz manda tirar aquele cadáver do campo. E então, subitamente, o jogador dá um pulo, e ocorre o milagre da ressurreição.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Fala

Kierkegaard, filósofo dinamarquês, o primeiro que li, observou que toda fala contém duas coisas. Primeiro, aquilo que se diz, a mensagem que devo comunicar. Segundo, uma música, um jeito de falar, andamento, os pianíssimos, os fortíssimos. Para ele, é na música da fala que nós moramos, é ali que se encontra a nossa alma. Uma mesma mensagem pode ser dita ao som dos tambores ou do oboé. Lendo Kierkegaard aprendi isso intelectualmente. Na minha prática de psicanalista aprendi isso existencialmente. Eu tinha uma paciente que falava num dia em tom maior, no outro, em tom menor. Só de ouvir a música da sua fala, sem prestar atenção naquilo que ela estava dizendo, eu sabia como estava a sua alma. (É importante que um terapeuta não preste muita atenção naquilo que o seu cliente diz, a fim de ouvir aquilo que ele não diz...) Moramos na música das palavras. Somos amados não pelo que dizemos, mas pela música com que o dizemos. Preste atenção na sua música. Se a sua música não tiver pausas mansas, isso é sinal de que você é um chato que não deixa o outro falar nem ouve o que ele tem para dizer. Deveria haver uma terapia que ajudasse as pessoas a mudar a música de sua fala. Se conseguir mudar a música da sua fala, você ficará diferente. Isso é especialmente importante para os professores, para os pais, para os amantes... Só por curiosidade, ligue a sua televisão num programa em que algum deputado esteja discursando. Como eles gritam e sacodem o dedo! São tão eloquentes... Quando você for procurar um candidato a qualquer cargo eletivo, não preste atenção no que ele diz, porque todos eles dizem a mesma coisa. Preste atenção na música da sua fala…
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Um arco abobadado

Passemos a outra questão: o modo de tratarmos com o nosso semelhante. Como devemos agir, que preceitos ministrar? Que não derramemos sangue humano? Ao nosso semelhante devemos fazer o bem: aconselhar a não lhe fazer mal, que ridículo! Até parece que encontrar algum homem que não seja uma fera para os outros já é coisa merecedora de encômios...
Vamos aconselhar a que se estenda a mão ao náufrago, se indique o caminho a quem anda perdido, se divida o pão com o esfomeado? Mas para que hei-de eu enumerar todos os atos que devemos ou não devemos praticar quando posso numa só frase resumir todos os nossos deveres para com os outros? Tudo quanto vês, este espaço em que se contém o divino e o humano, é uno, e nós não somos senão os membros de um vasto corpo. A natureza gerou-nos como uma só família, pois nos criou da mesma matéria e nos dará o mesmo destino; a natureza faz-nos sentir amor uns pelos outros, e aponta-nos a vida em sociedade. A natureza determinou tudo quanto é lícito e justo; pela própria lei da natureza, é mais terrível fazer o mal do que sofrê-lo; em obediência à natureza, as nossas mãos devem estar prontas a auxiliar quem delas necessite.
Devemos ter gravado na alma, e sempre na ponta da língua, o verso famoso de Terêncio: “Sou homem, tudo quanto é humano me concerne!” Possuamos tudo em comunidade, uma vez que como comunidade fomos gerados. A sociedade humana assemelha-se em tudo a um arco abobadado: as pedras que, sozinhas, cairiam, sustentam-se mutuamente, e assim conseguem manter-se firmes!
Sêneca, in Cartas a Lucílio

E vamos à luta - Gonzaguinha

Drink

A poetisa traz-nos seu primeiro livro, porém não o entrega logo. Fica estudando nossa expressão fisionômica antes de confiar-nos a suma de tantas vivências. Fala de coisas vagas, que se tornam mais vagas ainda, pela indecisão da palavra. Certa amiga comum nos manda lembranças. Podemos fornecer o endereço de mestre Fulano? Parece que é difícil encontrá-lo em casa, qual a melhor hora? As informações são prestadas, enquanto, por nossa humilde vez, inspecionamos a poetisa. Usa vestido elegante, sob a capa elegante. É alta, morena, jovem. Um adjetivo clareia, com espontaneidade de espelho: bonita. Parece que clareou em nosso olhar, pois ela baixa a cabeça e contempla uma formiguinha no linóleo, onde — é claro — não passa nenhuma formiguinha. O livro continua preso na mão esquerda, sem que possamos desvendar-lhe o título: pudicamente, só aparece a brancura da contracapa. Não que haja figura ou dizeres obscenos a ocultar. A poetisa oculta sua poesia, nesse primeiro contato com o exterior. Passamos à ofensiva:
Que é isso que você tem aí?
Isso quê?…
O livro.
Nada, não. É um livro.
Deixe ver, se não é segredo de Estado.
Não era, mas o inimigo contemporiza: “Daqui a pouquinho”. O leitor, que acaso nos segue, achará a moça demasiado tímida ou esperta; com o nosso relativo conhecimento da alma literária, diremos que ela, ciente e emocionada, simplesmente retardava um momento irreparável: o momento em que seu livro deixaria o regaço materno para expor-se à condição de artigo-do-dia, olhado, pegado, comentado sem amor. Por isso a moça nos sondava antes de praticar a doação.
Acabou admitindo que publicara um livro; que trazia consigo um exemplar; que esse exemplar nos era destinado; mas não lhe pusera dedicatória e, conforme fosse a recepção, voltaria com a autora. Quisemos saber a razão de tamanha reserva. Desconversou, mas somos praça velha, e ouvimos o conto:
Levei um exemplar ao Barata, colunista da Folha.
Então?
Me convidou para um drink.
Que mal tem nisso, minha filha?
Bom… Nem olhou para o livro, olhou só para mim, entende?
Entendíamos. Mas o Barata — ponderamos — não é propriamente crítico literário, e, como observa o prof. Afrânio Coutinho, há uma big diferença entre reviewer e crítico.
Pois sim, o Lessa é crítico e também me convidou para um drink. Sem abrir o livro. Será que hoje é moda beber com o autor, antes de ler?
Não soubemos explicar à poetisa, e preferimos indagar se porventura os drinks lhe flagelam o fígado. Ela sorriu.
Eu adoro um alexânder ou uma cuba-libre. Mas pensei que não fosse preciso tomá-lo para merecer um julgamento ou uma notícia.
Tranquilizamo-la a nosso respeito: não escrevemos sobre livros, não frequentamos bares, não a convidaríamos para drincar. Parece que a assustou um pouco nossa austeridade romana, se é que não vislumbrou nisso um truque novo. Afinal, o braço moveu-se, o livro foi entregue. Sem dedicatória.
Não vai escrever nada?
Que gostaria que eu escrevesse?
Ah, isso você não era capaz de escrever.
Queria oferecer-nos louvores suaves, mas temia que a interpretássemos de outro jeito: queria ser seca, não podia; natural, não podia. Então deu-nos o livro sem dedicatória e, rapidamente, convidou-nos a tomar um drink.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

domingo, 19 de novembro de 2017

Interpretar a luz

Na época em que comecei a escrever, o poeta era de dois gêneros. Uns, eram poetas grandes senhores que se faziam respeitar pelo seu dinheiro, a secundar-lhes uma legítima ou ilegítima importância. A outra família de poetas era a dos militantes errabundos da poesia, gigantes de taberna, loucos fascinantes, atormentados sonâmbulos. Resta ainda — e não devo esquecê-la — a situação daqueles escritores que vivem amarrados, como forçados à grilheta, ao lugar da administração pública. Os sonhos foram-lhe quase sempre afogados por montanhas de papel selado e terríveis receios da autoridade e do ridículo.
Eu lancei-me na vida mais nu do que Adão, mas disposto a manter a integridade da minha poesia. Esta atitude irredutível não só valeu para mim como também para que deixassem de rir os parvalhões. Se tivessem coração e consciência, esses pobres diabos deveriam render-se, como bons seres humanos, perante o essencial que os meus versos despertavam. E se fossem malévolos, tomariam medo de mim.
Assim, a Poesia, com maiúscula, foi respeitada. E não só a poesia, mas também os poetas foram respeitados. Toda a poesia e todos os poetas.
Tenho plena consciência deste meu serviço à cidadania e não deixo que ninguém me arrebate a prerrogativa — porque me agrada carregar com ela como uma condecoração. O restante pode discutir-se — mas isto que conto é, nem mais nem menos, história.
Os obstinados inimigos do poeta esgrimirão muitas argumentações que já não servem. Disseram que eu andava morto de fome na mocidade. Agora, hostilizam-me persuadindo algumas pessoas de que sou um ricaço, dono de uma fortuna fabulosa que, embora não tenha, muito gostaria de ter, principalmente para os incomodar ainda mais.
Outros medem a pauta dos meus versos, provando que os divido em pequenos fragmentos ou os estico demasiado. Não tem nenhuma importância. Quem determina que os versos sejam mais curtos ou mais compridos, mais delgados ou mais gordos, mais amarelos ou mais vermelhos? O poeta que os escreve. Determina-o com a sua respiração e o seu sangue, com a sua sabedoria e a sua ignorância, porque tudo isso entra no pão da poesia.
O poeta que não seja realista está morto. Mas o poeta que seja só realista está morto também. O poeta que seja apenas irracionalista só será compreendido por si mesmo e pela sua amada, o que é bastante triste. O poeta que seja só um racionalista será compreendido até pelos asnos, o que é também sumamente triste. Para tais equações não há cifras na pauta, não há ingredientes decretados por Deus, nem pelo Diabo. Pelo contrário: estas duas personagens importantíssimas mantêm uma luta constante dentro da poesia, e nesta batalha ou vence uma ou vence a outra. Mas a poesia é que não pode ficar derrotada.
É evidente que o ofício de poeta está a ser alvo de certos abusos. Surgem tantos poetas novéis e tantas incipientes poetisas que não tardará muito a parecermos todos poetas, desaparecendo os leitores. Teremos de ir à procura deles em expedições que atravessarão os areais em camelos ou circularão pelo céu em astronaves.
A poesia é uma inclinação profunda do homem. Dela saíram a liturgia, os salmos e também o conteúdo das religiões. O poeta arriscou-se a defrontar os fenômenos da natureza e, nas primeiras idades, intitulou-se sacerdote a fim de preservar a vocação. Daí que, na época moderna, o poeta, para defender a sua poesia, aceite a investidura que lhe dão a rua e as massas. O poeta civil de hoje continua a ser o representante do mais antigo sacerdócio. Anteriormente pactuou com as trevas. Agora deve interpretar a luz.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Aventura

Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade. De um lado, porque escrever é um modo de não mentir o sentimento (a transfiguração involuntária da imaginação é apenas um modo de chegar); de outro lado, escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever. Se tomo um ar hermético, é que não só o principal é não mentir o sentimento como porque tenho incapacidade de transpô-lo de um modo claro sem que o minta – mentir o pensamento seria tirar a única alegria de escrever. Assim, tantas vezes tomo um ar involuntariamente hermético, o que acho bem chato nos outros. Depois da coisa escrita, eu poderia friamente torná-la mais clara? Mas é que sou obstinada. E por outro lado, respeito uma certa clareza peculiar ao mistério natural, não substituível por clareza outra nenhuma. E também porque acredito que a coisa se esclarece sozinha com o tempo: assim como num copo d’água, uma vez depositado no fundo o que quer que seja, a água fica clara. Se jamais a água ficar limpa, pior para mim. Aceito o risco. Aceitei risco bem maior, como todo o mundo que vive. E se aceito o risco não é por liberdade arbitrária ou inconsciência ou arrogância: a cada dia que acordo, por hábito até, aceito o risco. Sempre tive um profundo senso de aventura, e a palavra profundo está aí querendo dizer inerente. Este senso de aventura é o que me dá o que tenho de aproximação mais isenta e real em relação a viver e, de cambulhada, a escrever.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

Serumaninho

Fonte: www.historiadasartes.com

Em harmonia

A felicidade é quando aquilo que pensas, aquilo que dizes e aquilo que fazes estão em harmonia.”
Gandhi

Dois soldadinhos mineiros

Sob céu diferente, para mim, acha-se neste mundo a das Três Barras, fazenda que foi dos meus. Só está depois de distâncias, para o poente, num empino de morros — que na infância eu tomava por himalaias fora do tempo e do real. Tem seus pastos limpos, um açude, os abismos de grotas, o pôr-do-sol mago e meigo com cores, o ar à aberta luminosidade. Tem sebes de “saborosa”, um quintal cercado de limoeiros, uma manhã de longe pescaria a que todos fomos em fila, uma farofa que alegremente se comeu. Debaixo de um jatobá esgalhado na velhice, o estaleiro para serrar madeiras. No moinho, duas cobras escuras, mansas, que pegavam ratos. Ah, e há, em noites de verão, um mar de vaga-lumes amarelos. A casa, andante e vasta, é entre transmontana e minhota, dizem; casa de muita fábrica. Para o convés — que é a varanda — sobem-se os degraus de pau de alta escada. De lá, muito se vê: a visão filtrada. Ainda pende o sino, que tocavam para chamar escravos. De antes, tempos. Aliás, parece que o último enforcamento em patíbulo público, em Minas, se deu foi, no Curvelo, com um preto que matara seu senhor, meu trisavô materno. Quando fui menino, nem em escravos se falava mais. Só havia os camaradas, que à noitinha se sentavam quietos, na varanda, nos longos bancos, esperando o chá de folhas de laranjeira. Certa hora traziam de dentro uma grande bacia; nela todos tinham de lavar os pés? Minha tia Carlota hoje me corrige: a bacia era cheia de brasas, de rescaldeiro para, nas noites frias, os homens se aquecerem. Tanto confundo; lavar os pés, numa bacia, quem tinha de obedecer a isso era eu, antes de ir dormir. Atrás do tempo. Mas é mais próximo, o que vou contar.

. . .

Em 1945. Nas Três Barras, nos primeiros de dezembro, uma manhã chovia. Chovia; e tirava-se leite. Se sabe: as tantas tetas, a muda bucolia das zebus, nos currais cobertos para o costeio. A gente vinha, com um golpe de conhaque no copo, aparar o leite de jorro. Tudo lidavam os vaqueiros, atentos ao peso de impaciência das vacas e seus bezerros correspectivos. E vai, daí, alguém apontou: — “Aquele voltou da guerra.”
Era com efeito um “pracinha”, que figurara em Monte Castelo e Porreta Terme, e aqui recomeçava a arreação das vacas. Deixava de ter qualquer coisa especial ou remarcada. Os ombros estreitos, a morenidão, o chapéu chato? Estava “dando uma lição” numa rês, que agredia as outras com artimanhas, carecia-se de agir como quando se ordenha uma recém-parida: laçar e pôr no esteio. O ex-soldado não esquecera os atos bem que perito e ágil; ele era muito entendido.
Se sério, aquilo seria de se olhar. Voltara, fazia pouco, do a-de-lá, parciário de enormes sucessos, entre os horrores e grandezas, da Europa, da Itália — onde, semelhante ao que nas Décadas, diz Diogo do Couto, se armara “muita, e mui formosa artilheria”. Falei-lhe; aprovou, com um sim simples, vindo só às respostas, atencioso mas na singela opacidade, de quem vive e despercebe, ou tudo deu por perdido e esquecido, longe, remoto, no já dito. — A guerra? — perguntei.
— “É um abalo...”
Do vivido ou visto, que é que mais o impressionara?
— “O frio.”
E o mar?
— “É muito enfaroso...”
Pela mesma maneira, ele se desengraçava. Um outro falou: — “Ele teve medo um dia...” Nosso soldadinho não riu. Nem se fez grave. Retrucou, pelos ombros. O mover das vacas, das que pediam seus bezerros, era que ele não se tirava de rodear com a vista. Sendo que o gado manso pode dar surpresas. Mesmo ali, num quarto, no catre, estava outro vaqueiro, ferido havia dias, com uma chifrada na nádega, funda de centímetros, curada com pomada preta.
Por último, teimei:
Mas, o alemão é duro, bravo?
— “É cabeçudo...”
Não era capaz de dizer mais. E a vaca mugia, bezerros corriam, a chuva chovia. Assim.

. . .

Depois, foi em 1950, eu vinha de cruzar os Apeninos Septentrionais, cheguei em Pistoia.
No quase tramonto, quando os morros são névoa de ouro, poal de sol, hora em que os ciprestes dentro do azul trocam de personalidade. Só a seguir é que é o crepúsculo leve rosa; mas o rosa se reembebe como num mata-borrão, não volta à tona, dá outro tingir. (Poeticamente: o céu em mel de glicínias ou da cor do ciclâmen selvagem.) Sempre a limpidez; e a luz toscana, já se disse, é substância, coisa — não apenas claridade. O lugar, entre montanhas imbricadas, esfumadas em bruma. O Cemitério Militar Brasileiro — limpo, novo, cuidado — como uma plantação, como uma coleção. Aquilo em paz.
As carreiras de cruzes brancas, cada uma tendo em frente o potezinho com um cacto, 400 e tantos (e mais alguns, alemães). Ali ausentes, arregimentados, subentendidos. As flores trazidas podiam ser dadas a um, qualquer, a uma cova, igual às outras, ao acaso. Adiantei-me, sem escolha, olhei, e li, na pequena placa:

Soldado Alcides M. Rosa
Morto em 12 de dezembro de 1944.
11º R.I.

Será que estremeci e então ali estive, sem amargamento, mas no todo-sentir. Aquele, podia ser um meu parente, assim com o meu nome, e vindo de Minas Gerais. Foi demais meu parente; para mim, sob céu diferente, neste mundo, diminuído de belo. Feito se nas Três Barras.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

A chave

Os nunca assaz finados parnasianos tinham, antes de mais nada, a chave de ouro. Como o resto do soneto era tapado como uma porta — por que não mostravam apenas o raio da chave? Não estou brincando. Pois nos meus tempos de ginasiano eu também fabriquei a minha chavezinha de ouro:
... de uns verdes buritis a cismadora tribo”.
Confesso que não consegui colocar nada antes deste verso. Hoje acho que não seria preciso, que ali já estava todo um poema... Em todo caso, cedo em cartório a chave aos últimos sonetistas alexandrinos, a quem muito venero, pois no caos de hoje em dia eles têm consciência de que, para fazer um poema, é preciso trabalhar como um escravo. Com a única recompensa do trabalho feito. Vamos, minha gente? Faltam apenas treze versos.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

sábado, 18 de novembro de 2017

Sophie, a encoberta


Nos tempos do reality show, dos blogs e das celebridades, a francesa Sophie Calle – autora de Histórias reais (Agir, tradução de Hortência Santos Lencastre) – inverte as expectativas de um mundo que se desnuda e faz da escrita um segredo e, da fotografia, um véu.

Seu livro é uma reunião de histórias pessoais a que se associam fotografias também pessoais. Nada mais frustrante, no entanto, para quem busca intimidade e escândalo. Ou talvez não, se considerarmos que o íntimo se refere não ao aparente, mas à esfera secreta das essências; e que, em sua origem latina, escândalo significa também obstáculo, ou armadilha.

Como fotógrafa, Sophie se comporta como uma escritora – sabe que as imagens são sinais arbitrários, condenados a roçar o que lhes foge. Como escritora, é uma fotógrafa – ciente de que as palavras estão encobertas por uma fina película, que, uma vez arrancada, expõe um vazio insuportável.

Do jogo entre palavras e imagens, Sophie Calle tira livros assombrosos, como este Histórias reais. Breves histórias, sob as quais abismos se escondem. Aos 11 anos, ela e a irmã Amelie praticam pequenos furtos nas lojas de departamentos. Para inibi-las, a mãe inventa que um policial descobriu tudo. Desistem dos furtos, mas (efeito da ficção sobre o real) põem-se a procurar o policial inexistente. Não o encontram e, para se consolar, furtam um par de sapatos vermelhos. Amelie fica com o pé direito, Sophie com o esquerdo. Precisavam correr mais esse risco: o medo é tudo o que lhes resta do falso policial.

O vermelho dos sapatos reaparece em uma foto da própria Sophie. Em seu pescoço, vinda do nada, aparece uma linha vermelha. Mesmo com o defeito (ou por causa dele), ela guarda a fotografia. Duas semanas depois (a arte antecipando o real, ou melhor: transcrevendo-o), um homem tenta estrangulá-la na rua. De novo, o falso encobre o verdadeiro.

Um de seus sonhos era receber uma carta de amor. Não pensa duas vezes: encomenda-a a um escritor de cartas. A falsa carta lhe custa cem francos. Ao lê-la, esbarra na frase verdadeira: “... sem fazer um só gesto, segui você por toda a parte”. Fala das ideias, que nunca a abandonam.

A falsificação lhe serve uma segunda vez. Quando se casa – em uma cerimônia improvisada em Las Vegas –, não tem tempo para o ritual vestido de noiva. Muitos anos depois, reúne a família para uma cerimônia falsa, só para poder usar o vestido. Potência da ficção: “Eu coroava com um falso casamento a história mais verdadeira da minha vida”.

Sophie se lembra de uma tia-avó, Valentine, que, aos 100 anos de idade, lhe pediu que o anúncio de sua morte se resumisse a uma frase: “Ela fez o que pôde”. Também a escrita faz o que pode – e sempre fica pelo meio do caminho. As coisas escapam das palavras. Mas, em vez de enfraquecê-la, essa autonomia fortalece a escrita.

Muitas vezes, uma frase gruda na alma e sela um destino. Aos 30 anos, quando recusa o beijo de um desconhecido, ouve a agressão: “Não faz mal, você come como um porco”. Estavam em um churrasco, Sophie passara a maior parte do tempo grelhando salsichas e servindo os convidados. Não importa: a frase se sobrepõe ao real e o engole. “Não lembro mais nada desse indivíduo, mas ele continua sentado à minha mesa.” Palavras não morrem.

Para desfazer uma palavra, Sophie nos mostra, só mesmo outra palavra. O pai achava que a filha tinha mau hálito e a encaminha a um médico. Ao entrar no consultório, percebe que está diante de um psicanalista. “Houve um engano”, diz. “Meu pai me mandou a um clínico geral.” A potência das palavras está em nossa capacidade de contorcê-las. O psicanalista pergunta: “Você sempre faz o que seu pai manda?”. Naquele momento, empurrada pela força da língua, Sophie inicia sua análise.

Outras vezes, as palavras – fracassadas – registram apenas uma ausência. Uma moça, Mâkhi lhe pede que visite o apartamento de duas mulheres, recém-falecidas, que a criaram. Aceita o papel de substituta. Vai e fotografa a casa – fotografa o medo de Mâkhi. Missão cumprida, Sophie pede para guardar uma agenda das mortas. Na página referente ao Natal de 1980, encontra a anotação: “Não vi nada – ninguém”. E em 1981: “Natal – nada”. As palavras são véus; mas, se as erguemos, nada aparece.

Sempre desejou receber uma carta de amor; o marido lhe negava. Um dia, descobre uma carta de amor entre as coisas do marido. Não está endereçada a ela, mas a certa H. Não pensa duas vezes: rouba a carta. Risca o H. e coloca em seu lugar um S. A falsificação se impõe como uma verdade. “Essa carta de amor passou a ser a que eu nunca recebi.”

Sophie nos mostra que as palavras podem tudo. E, no entanto, esse tudo é quase nada. Um dia, durante uma briga, o marido lança objetos sobre ela. Como uma cicatriz, fica um buraco na parede. “Foi então que entendi que era preciso fazer a única coisa que ele pedia: ouvi-lo.” Fazem as pazes. O que o marido tinha a dizer? Provavelmente nada – o que não diminuía seu desejo de escuta. Na parede, fica o buraco que representa esse desejo. Sobre ele, Sophie dependura uma fotografia de seu casamento.

Também o leitor de Histórias reais não deve se iludir: o livro nada lhe revelará. Mas é preciso ler esse rombo. A própria Sophie recorda de um amigo que, na arena de Sevilha, caiu fulminado por um touro. Uma chifrada no coração. O relatório médico registra: “Seu coração estava aberto em dois, como um livro”. Também o livro de Sophie é um coração que se rasga.

Quanto mais avanço, mais distante Sophie está. Como leitor, repito uma experiência que ela mesma viveu. Um dia, um amante resolveu abandoná-la. No último encontro, deu-lhe de presente um segredo. Uma história terrível, confiada só a ela, e a mais ninguém. Sophie não nos revela esse segredo – ela o esconde. Do segredo, resta o véu: “No mesmo instante em que me privava de seu amor, aquele homem me presenteava com a última prova de nossa intimidade”.

Ao fim da leitura, um segredo nos é confiado. Barrada de sua história, a própria Sophie o ignora. O livro é esse segredo. E esse segredo é tudo.

José Castello, in Sábados inquietos

O artista: um ser político

O que vocês pensam que um artista é? Um imbecil que só tem olhos, se é um pintor, ou ouvidos se é um músico, ou uma lira em cada câmara do seu coração, se é um poeta, ou mesmo, se ele é um pugilista, apenas os seus músculos? Longe disso: ao mesmo tempo, ele também é um ser político, constantemente ciente das coisas que quebram o coração, apaixonado, pelas coisas deliciosas que acontecem no mundo, moldando-se completamente à sua imagem. Como poderia ser possível não sentir nenhum interesse nas outras pessoas, e com uma fria indiferença para separar-se da própria vida que eles trazem para ele tão abundantemente? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra.
Pablo Picasso

Trocando em Miúdos - Alexandre Pires

Milagres

Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insetos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?
Walt Whitman

A leitura ouvida (e proibida)

[…] A arte de ler em voz alta tinha uma história longa e itinerante e que mais de um século antes, na Cuba espanhola, ela se estabelecera como uma instituição dentro dos limites rígidos da economia cubana.
A fabricação de charutos sempre foi uma das principais indústrias cubanas desde o século XVII, mas, na década de 1850, o clima econômico mudou. A saturação do mercado americano, o desemprego crescente e a epidemia de cólera de 1855 convenceram muitos trabalhadores de que era preciso criar um sindicato para melhorar suas condições de vida. Em 1857, fundou-se uma Sociedade de Ajuda Mútua aos Trabalhadores e Diaristas Honestos, apenas para os charuteiros brancos; uma Sociedade de Ajuda Mútua semelhante para trabalhadores negros livres foi fundada em 1858. Foram os primeiros sindicatos e os precursores do movimento operário cubano da virada do século.
Em 1865, Saturnino Martínez, charuteiro e poeta, teve a ideia de publicar um jornal para os trabalhadores da indústria de charutos, abordando não somente a política, mas publicando também artigos sobre ciência e literatura, poemas e contos. Com o apoio de vários intelectuais cubanos, Martínez lançou o primeiro número de La Aurora em 22 de outubro daquele ano. O editorial anunciava: “Seu objetivo será iluminar de todas as formas possíveis aquela classe da sociedade a que se dedica. Faremos tudo para que todos nos aceitem. Se não tivermos êxito, a culpa será de nossa insuficiência, não de nossa falta de vontade”. Ao longo dos anos, La Aurora publicou trabalhos dos principais escritores cubanos da época, bem como traduções de autores europeus como Schiller e Chateaubriand, críticas de livros e peças de teatro e denúncias sobre a tirania dos donos das fábricas e o sofrimento dos trabalhadores. Em 27 de junho de 1866, perguntava aos seus leitores: “Sabem que perto de La Zanja, segundo dizem, há um dono de fábrica que põe grilhões nas crianças usadas por ele como aprendizes?”
Mas Martínez logo percebeu que o analfabetismo impedia que La Aurora se tornasse realmente popular; na metade do século XIX, apenas 15% da população cubana sabia ler.
A fim de tornar o jornal acessível a todos os trabalhadores, ele teve a ideia de realizar uma leitura pública. Aproximou-se do diretor do ginásio de Guanabacoa e sugeriu que a escola auxiliasse a leitura nos locais de trabalho. Entusiasmado, o diretor encontrou-se com os trabalhadores da fábrica El Fígaro e, depois de obter a permissão do patrão, convenceu-os da utilidade da empreitada. Um dos operários foi escolhido como lector oficial, e os outros o pagavam do próprio bolso. Em 7 de janeiro de 1866, La Aurora noticiava: “A leitura nas fábricas começou pela primeira vez entre nós e a iniciativa pertence aos honrados trabalhadores da El Fígaro. Isso constitui um passo gigantesco na marcha do progresso e do avanço geral dos trabalhadores, pois dessa maneira eles irão gradualmente se familiarizar com os livros, fonte de amizade duradoura e grande entretenimento”. Entre os livros lidos estavam o compêndio histórico Batalhas do século, romances didáticos como O rei do mundo, do atualmente esquecido Fernandez y González, e um manual de economia política de Flórez y Estrada.
Outras fábricas acabaram seguindo o exemplo da El Fígaro. Tiveram tanto sucesso essas leituras públicas que em pouco tempo ganharam a reputação de “subversivas”. Em 14 de maio de 1866, o governador político de Cuba baixou o seguinte decreto:

1. É proibido distrair os trabalhadores das fábricas de tabaco, oficinas e fábricas de todo tipo com a leitura de livros e jornais, ou com discussões estranhas ao trabalho em que estão empenhados.
2. A polícia deve exercer vigilância constante para fazer cumprir este decreto e colocar à disposição de minha autoridade os donos de fábricas, representantes ou gerentes que desobedeçam a esta ordem, de modo que possam ser julgados pela lei, segundo a gravidade do caso.

Apesar da proibição, ainda ocorreram leituras clandestinas durante algum tempo, mas por volta de 1870 elas haviam praticamente desaparecido. Em outubro de 1868, com a deflagração da guerra dos Dez Anos, La Aurora também acabou. Contudo, as leituras não foram esquecidas. Já em 1869 ressurgiram em solo americano, pelas mãos dos próprios operários.
A guerra dos Dez Anos, de independência, começou em 10 de outubro de 1868, quando um fazendeiro cubano, Carlos Manuel de Céspedes, e duzentos homens mal armados tomaram a cidade de Santiago e proclamaram a independência do país em relação à metrópole espanhola. No final do mês, depois que Céspedes prometera libertar todos os escravos que se unissem à revolução, seu exército já contava com 1200 voluntários; em abril do ano seguinte, Céspedes foi eleito presidente do novo governo revolucionário. Mas a Espanha reagiu. Quatro anos depois. Céspedes foi deposto in absentia por um tribunal cubano e, em março de 1874, foi capturado e fuzilado por soldados espanhóis.
Entrementes, ansioso por derrubar as medidas espanholas de restrição ao comércio, o governo americano apoiara abertamente os revolucionários e Nova York, Nova Orleans e Key West tinham aberto seus portos a milhares de cubanos em fuga. Como conseqüência, em poucos anos Key West transformou-se de uma pequena vila de pescadores numa importante comunidade produtora de charutos, a nova capital mundial do Havana.
Os trabalhadores que imigraram para os Estados Unidos levaram com eles, entre outras coisas, a instituição do lector. Uma ilustração da revista americana Practical Magazine de 1873 mostra um desses leitores, sentado de pernas cruzadas, óculos e chapéu de abas largas, um livro nas mãos, enquanto uma fileira de trabalhadores (todos homens), de colete e camisa de manga comprida, enrolam charutos com o que parece ser uma atenção enlevada.
O material dessas leituras, decidido de antemão pelos operários (que, como nos tempos da El Fígaro, pagavam do próprio salário o lector), ia de histórias e tratados políticos a romances e coleções de poesia clássica e moderna. Tinham seus prediletos: O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, por exemplo, tornou-se uma escolha tão popular que um grupo de trabalhadores escreveu ao autor pouco antes da morte dele, em 1870, pedindo-lhe que cedesse o nome de seu herói para um charuto; Dumas consentiu.
Segundo Mario Sánchez, um pintor de Key West que em 1991 ainda se lembrava de lectores lendo para os enroladores de charuto no final da década de 1920, as leituras decorriam em silêncio concentrado e não eram permitidos comentários ou questões antes do final da sessão. Sánchez relembra: “Meu pai foi leitor na fábrica de charutos Eduardo Hidalgo Gato, do início do século até os anos 20. De manhã, lia as notícias que traduzia dos jornais locais. Lia o noticiário internacional diretamente de jornais cubanos trazidos todos os dias de Havana. Do meio-dia até as três, lia romances. Tinha de interpretar as personagens imitando a voz de cada uma delas, como um ator”. Os operários que haviam trabalhado muitos anos nas fábricas eram capazes de citar de memória longos trechos de poesia e mesmo de prosa. Sánchez mencionou um homem que lembrava todas as Meditações de Marco Aurélio.
Ouvir alguém lendo para eles, descobriram os charuteiros, permitia-lhes revestir a atividade de enrolar as folhas escuras do tabaco - atividade mecânica e entorpecedora da mente - com aventuras a seguir, ideias a levar em consideração, reflexões das quais se apropriar. Não sabemos se, durante as longas horas na fábrica, lamentavam que o resto de seus corpos não participasse do ritual de leitura; não sabemos se os dedos daqueles que sabiam ler ansiavam por virar uma página, por seguir uma linha; não sabemos se aqueles que nunca haviam aprendido a ler eram estimulados a fazê-lo.
Alberto Manguel, in A história da leitura