segunda-feira, 21 de maio de 2018

Capim - Por Nós

O homem ideal

A respiração dela se descontrolava quando ele comandava as reuniões semanais. As mãos tremiam quando ele aparecia de repente ao seu lado na máquina de café, e nunca tinha trocado. Ela prontamente emprestava as moedas. Depois voltava para a sua baia e se perguntava se não teria sido demasiadamente solícita.
Às vezes quando, coincidentemente, subiam no mesmo elevador para o escritório, o mundo parava. Era a viagem mais longa de um prédio de dez andares.
No andar da firma, cada um para o seu lado, e ela lamentava não trabalharem perto do céu, para a viagem do elevador durar a eternidade.
Ouvia dizer no happy hour que ele era um galinha e catou algumas estagiárias, secretárias e duas advogadas.
No analista, perguntou se aquela paixão que nascia pelo chefe não era uma óbvia transferência edipiana.
Tudo nele era perfeito.
Atencioso e solteiro!
A gravata que combinava, o sapato sempre engraxado, a caneta Montblanc reluzente, o Rolex no pulso, como um executivo, para seus padrões, de bom gosto.
Inteligente, rápido, poliglota, sabia usar o pretérito mais-que-perfeito com precisão. Costumava passar os fins de semana fazendo o quê?
Velejando, claro.
A paixão aumentava, sufocava: insônias. Análises minuciosas de cada e-mail trocado profissionalmente, de cada comentário solto em reuniões, para desvendar se ele também sentia algo por ela.
Até que decidiu procurar um milagreiro que anunciava em folhas coladas nos postes de luz da Marginal, garantindo que, por um preço barato, conseguia enlaçar qualquer paixão não correspondida.

Ela confessou todo o seu desespero apaixonado para o mago de moletom e camisa do Corinthians, que atendia numa portinhola de uma galeria do Centro. Nada a perder.
A consulta durou quinze minutos.
Ele lhe deu apenas uma poção em gotas, num invólucro sem nada escrito e sem data de validade, e disse: “Coloque dez gotas no café dele e terá o seu homem garantido até o fim dos dias.”
Charlatão?
Toda pinta.
Mas cobrou apenas 10 reais pela consulta. O “veneno” incluído. Exigiu que retornasse em dois meses.

O plano foi traçado. Ela sabia do horário em que o metódico chefe passeava pelas baias, e como era o seu café. Postou-se ao lado da máquina com as moedas na mão.
Quando ele se aproximou, ela enfiou as moedas, colocou não dez, mas vinte gotas no copo que a máquina despejou. O chefe então a cumprimentou, descobriu-se sem troco, e ela ofereceu o seu café recém-expelido.
Ele recusou.
Ela insistiu.
Ele tomou, não sentiu nada e partiu para a sua ronda.

No dia seguinte, ela recebeu e-mails confusos dele, como de um bêbado em transe. Não respondeu.
Então, ele apareceu na sua baia com um bombom, ficou ao seu lado e se esqueceu do que ia perguntar e de dar o bombom.

No dia seguinte, a convidou para um almoço. Num hotel. Com vista para a cidade. Enquanto subiam para o restaurante, ele apertou outro andar. Segurou na sua mão. Desceram antes num corredor cheio de portas e quartos. Tudo calculado. Reserva já feita. Chave no bolso. Abriu a porta, entraram.
Foi o melhor sexo de suas vidas, confessaram.

Os encontros se tornaram diários. Jantares entraram para a agenda. Almoçavam, jantavam, transavam. Surgiram as caronas. Ele a pegava de manhã. E a levava à noite.

Primeiro foram flores. Vieram perfumes franceses, anéis, colares, relógios.

O chefe mudou a mesa dela para a sua sala. Dizia que não conseguia ficar mais de um minuto sem ela por perto. Beijaram-se em todos os cantos. Ligava-lhe de madrugada, só para ouvir a sua voz.

E nos fins de semana, lá ia ela velejar e vomitar com o balanço do mar.
Grudados, não havia mais folga.
Ele se mudou para a casa dela.
Tomavam banhos juntos.
Liam os mesmos livros, jornais, revistas, ouviam as mesmas músicas.
Não cabiam mais flores no apartamento, joias nas gavetas, relógios no pulso. Até no cabeleireiro ele ia e esperava, lendo revistas femininas antigas.
Se saía com as amigas, ele ia junto.
Se visitava a família, lá estava ele, de mãos dadas, colado.

Dois meses se passaram. O retorno da visita ao milagreiro.
Ela apareceu na hora marcada, aflita, estressada. O novo namorado e ainda chefe a esperou na porta. Quando o mago a viu, disse o que ela queria ouvir: “Então, veio buscar o antídoto? Não aguenta mais, né?”
Ela teve vergonha de exprimir seu enjoo e arrependimento. O curandeiro lhe deu outra poção. Num vidrinho de gotas. E disse: “Pois agora, são outras dez gotas. Mas, desta vez, custará 200 mil.”
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

Os negros

Isabelino Gradín

Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4 a 0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida, “porque o Uruguai escalou dois africanos”. Eram os jogadores Isabelino Gradín e Juan Delgado. Gradín havia feito dois dos quatro gols.
Bisneto de escravos, Gradín tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e sem se deter evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.
Juan Delgado, também bisneto de escravos, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava dançando nos carnavais e fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava, e gozava os adversários.
Larga esse cacho – dizia, levantando a bola. E lançando-a dizia:
Sai fora, que lá vai areia.
O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Ama o próximo

Quem, dentro do mundo, ama o próximo, não está mais nem menos certo do que quem, dentro do mundo, ama a si mesmo.
Resta só a pergunta sobre se o primeiro deles é possível.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Chegando ao mundo


Antônio tinha habilidade pra tanta coisa que ficava difícil escolher uma só. Ninguém assobiava e chupava cana ao mesmo tempo melhor que ele, por exemplo.
Mas isso era coisa besta.
Podia decorar qualquer número, desde que não ultrapassasse os 28.730 algarismos, e depois era capaz de repeti-lo inteiro, na ordem que lhe fosse encomendada, na língua escolhida, só não em francês, por ser um pouco mais trabalhoso.
Mas isso era coisa fraca.
Tinha extrema facilidade de se transformar em muitos, apenas quando fosse necessário, mas evitava fazê-lo senão nunca mais ia ter sossego, ô povinho pra pedir favor era aquele.
Mas isso era coisa pouca.
Podia visitar o passado e o futuro, se quisesse, já que era amigo do tempo, e só não tinha visitado ainda por nunca ter julgado oportuno.
Mas isso era coisa sem utilidade.
E foi tentando descobrir pelo caminho qual seria a melhor maneira de atrair a atenção do povo, e foi pensando, pensando, pensando, e nem teve tempo de imaginar que Karina só fez chorar naqueles dias todos em que o pessoal da prefeitura ficou sem tomar café e que dona Nazaré rezou baixinho, como se deve rezar por um filho que se dana pelo mundo porque chegou a sua hora.

Em chegando no mundo, Antônio foi direto ao shopping comprar um paletó, de preferência branco.
Shopping era um edifício onde moravam compras, em vez de gente.
Ficou incrível com aquelas luzinhas todas, elas deviam ter treinado muito pra toda vez acender uma, justo quando a outra apagava.
Tentou decorar na cabeça cada novidade que via pra contar depois, quando voltasse pra Nordestina, mas era tanta da coisa que Nossa Senhora.
Admirou-se muito com a quantidade de ser humano e com a falta de cachorro vira-lata. Com o mar não se admirou muito não, por bem dizer achou até menor do que tinha imaginado. Gostou foi do vento na cara. Reparou demais na giganteza das sombras e brincou de tapete com elas.
Se fosse o caso de ficar por ali comentando o que via, era só botar um inclusive no final da frase, engatar um assunto no outro, e teria conversa pro resto da vida.
Como ele tinha mais o que fazer, não era o caso.
Antônio viu de tudo no mundo.
Viu gente que sabia fazer calçada virar casa, ferida virar dinheiro, montanha virar cidade, patife virar mandante, lixo virar banquete. E começou a desconfiar que estava por dar a Karina um presente meio desarrumado. O que era que ela ia fazer com o mundo daquele jeito? Só ia prestar caso Antônio ajeitasse tudo primeiro, mas aí o negócio complicava. Uma coisa era mudar o mundo de lugar, outra era mudá-lo completamente.
Foi então que juntou uma ideia com outra, fez umas contas de cabeça, dividiu por dois, e chegou a um resultado que o deixou satisfeito.
Adriana Falcão, in A máquina

Da teoria e do método de escrever

Uma moça me escreveu. Estava lutando para ser admitida no “País dos Saberes”. Estava escrevendo uma tese. Tinha de provar o seu domínio da gramática da ciência. Sua tese era sobre as estórias infantis que escrevi. Guiada pelo guardião dos saberes acadêmicos, o seu orientador, enviou-me um questionário preparado segundo as regras acadêmicas.
Primeira pergunta:
De que teoria o senhor lança mão para escrever as suas estórias?”
Segunda pergunta:
Que método o senhor usa para escrever suas estórias?”
Pobrezinha. Minhas respostas não a ajudaram. Nem lanço mão de teoria nem uso método para escrever minhas coisas. Lançaria mão de teoria e usaria método se eu estivesse procurando. Mas “eu não procuro. Eu encontro”.
Para os soldados que marcham em parada, a coreografia do grupo de dança O Corpo é anarquia. A marcha dos soldados segue a lógica da causalidade. “Ordinário! Marche!” Uma coisa depois da outra, na ordem devida, segundo a lógica da sucessão e da contiguidade.
Mas a dança do corpo segue a lógica do amor. Lógica do amor? Amor tem lógica? Amor não é só loucura? Sentimento puro, incapaz de conhecer? Não será por isso que ele foi excluído do “País dos Saberes”? Ah! Como os pedagogos têm medo da palavra amor! Se a usassem, seriam apelidados de românticos! Mas quem tem respeito intelectual por um romântico? Na melhor das hipóteses, ele escreverá poemas e comporá canções. Mas de um romântico não se pode esperar conhecimento. Apenas ejaculações emotivas. E não há nada a que os pedagogos mais aspirem que ser admitidos no “País dos Saberes”. Por isso sonham com a elevação da educação à dignidade de ciência, para poder ser admitidos nos círculos da ciência.
Haverá lógica em Baco? Em Lewis Carroll? Em Fernando Pessoa? Lembro-me de um conselho dado pelo professor Ubiratan d’Ambrosio, matemático. Num programa de TV, perguntado por alguém sobre o que fazer para aprender lógica, ele respondeu: “Leia poesia”.
Existe uma lógica na marcha dos soldados. A lógica da marcha dos soldados nos coloca dentro das regras do mundo da consciência, as coisas que acontecem sobre a superfície do rio. Mas existe também uma lógica na dança. Ela nos faz mergulhar nas profundezas do corpo, aquilo a que a psicanálise chama pelo nome de inconsciente. “Há sempre alguma loucura no amor”, dizia Zaratustra. “Mas há também sempre alguma razão na loucura.” Na dança das associações livres, as ideias se ligam umas às outras por amor. “Les mots font l’amour”, disse André Breton. E o amor não conhece distâncias. Toda metáfora é um salto sobre o abismo.
Rubem Alves, in Variações sobre o prazer

domingo, 20 de maio de 2018

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina

Prólogo de Zaratustra - 6

Mas então sucedeu algo que fez toda boca silenciar e todo olhar enrijecer. Nesse meio-tempo o equilibrista começara seu trabalho: surgira de uma pequena porta e andava sobre a corda que se achava estendida entre duas torres, acima da praça e do povo.  Quando estava no meio de seu caminho, abriu-se novamente a pequena porta e um rapaz de vestes coloridas, semelhante a um palhaço, pulou fora e seguiu o primeiro com passos rápidos. “Adiante, aleijado!”, gritou com voz terrível, “adiante, preguiçoso, muambeiro, cara-pálida! Para eu não te fazer cócegas com meu calcanhar! Que fazes aqui entre as torres? Teu lugar é na torre, devias ser trancafiado, estorvas o caminho de alguém melhor do que tu!” — E a cada palavra lhe chegava mais próximo; porém, quando estava a somente um passo do equilibrista, sucedeu a coisa pavorosa que fez toda boca silenciar e todo olhar enrijecer: — lançou um grito de demônio e saltou sobre aquele que lhe estava no caminho. Mas esse, vendo seu rival assim triunfar, perdeu a cabeça e a corda; desfez-se de sua vara e mais rapidamente do que ela mergulhou na profundeza, como um redemoinho de braços e pernas. A praça e o povo semelhavam o mar quando chega a tempestade: todos corriam e se atropelavam, sobretudo no local onde se precipitava o corpo.

Zaratustra ficou imóvel, porém, e justamente ao seu lado caiu o corpo, bastante ferido e quebrado, mas ainda vivo. Após um instante, a consciência retornou ao homem destroçado, e ele viu Zaratustra ajoelhado junto a si. “Que fazes aqui?”, disse ele afinal, “há muito tempo eu sabia que o demônio me passaria a perna. Agora ele me leva para o inferno; queres impedi-lo?”

“Por minha honra, amigo”, respondeu Zaratustra, “nada do que falas existe: não existe demônio nem inferno. Tua alma morrerá antes ainda que teu corpo: nada temas, portanto!”

O homem ergueu os olhos, desconfiado. “Se falas a verdade, então nada perco, ao perder a vida. Não sou muito mais que um animal a que ensinaram a dançar, com golpes de bastão e pequenos nacos de comida.”

“De maneira nenhuma”, disse Zaratustra; “fizeste do perigo o teu ofício, não há o que desprezar nisso. Agora pereces no teu ofício: por causa disso, eu te sepultarei com minhas próprias mãos.”

Depois que Zaratustra falou isso, o moribundo não respondeu mais; mas moveu a mão, como se buscasse a mão de Zaratustra para agradecer.

Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratustra

O Homem que matou Dom Quixote - trailer legendado

Vazão à ira

Se deste vazão à ira, fica certo de que, além do mal nela implícito, revigoraste o hábito e acrescentaste lenha à fogueira. Quando és vencido por uma tentação da carne, não consideres isso simples derrota: considera, também, que revigoraste os teus hábitos dissolutos. Os hábitos e as faculdades são necessariamente afetados pelos atos correspondentes. Os que antes não existiam, agora aparecem; os demais cobram vigor e domínio. Esta é a versão que os Filósofos dão das moléstias da mente: supõe que algum dia cobiçaste ter dinheiro: se a razão, em dose suficiente para provocar a consciência do mal, intervir, a cobiça é anulada e a mente recupera imediatamente a sua autoridade original; contudo, se não recorreres a nenhum remédio, jamais poderás esperar tal recuperação; ao contrário, a próxima vez em que for excitada pelo objeto correspondente, a chama do desejo irromperá mais prontamente do que antes. Pela frequência da repetição, a mente, ao fim e ao cabo, fica calejada e, assim, esta moléstia mental produz Avareza confirmada.
Quando alguém teve febre, mesmo depois de voltar à normalidade, não se encontra nas mesmas condições de saúde que antes, a menos que a sua cura seja completa. Algo de semelhante ocorre com as moléstias da mente. Sempre ficam traços e empolas e, a menos que sejam efetivamente eliminadas, golpes subsequentes no mesmo local produzirão, não mais meras empolas, mas feridas. Se não queres ser propenso à ira, não lhe cultives o hábito; não lhe dês nada que possa contribuir para agravá-la. A princípio, fica quieto e conta os dias em que não estás irado: “Eu costumava irritar-me todos os dias; depois, dia sem dia não; mais tarde, a intervalos de dois dias e, logo em seguida, de três!” Se conseguires passar trinta dias sem te irares, faz um sacrifício aos Deuses, em sinal de agradecimento.
Epicteto, in O festival da vida

Comunidades imaginadas

Assim como a família nuclear, a comunidade não poderia desaparecer completamente do mundo sem algum substituto emocional. Hoje, os mercados e os Estados atendem a maior parte das necessidades materiais que um dia eram atendidas pelas comunidades, mas também precisam proporcionar vínculos tribais.
Os mercados e os Estados fazem isso promovendo “comunidades imaginadas” que contêm milhões de estranhos e que são adaptadas para as necessidades nacionais e comerciais. Uma comunidade imaginada é uma comunidade de pessoas que não se conhecem de fato, mas imaginam que sim. Tais comunidades não são uma invenção nova. Reinos, impérios e igrejas funcionaram por milênios como comunidades imaginadas. Na China antiga, dezenas de milhões de pessoas se viam como membros de uma única família, tendo o imperador como pai. Na Idade Média, milhões de muçulmanos devotos imaginavam que eram todos irmãos e irmãs na grande comunidade do Islã. Mas, ao longo da história, tais comunidades imaginadas exerceram um papel secundário com relação às comunidades íntimas de várias dezenas de pessoas que se conheciam muito bem. As comunidades íntimas preenchiam as necessidades emocionais de seus membros e eram essenciais para a sobrevivência e o bem-estar de todos. Nos últimos dois séculos, as comunidades íntimas definharam, e as comunidades imaginadas preencheram o vácuo emocional.
Os dois exemplos mais importantes para a ascensão de tais comunidades imaginadas são a nação e tribo de consumidores. A nação é a comunidade imaginada do Estado. A tribo de consumidores é a comunidade imaginada do mercado. Ambas são comunidades imaginadas porque é impossível que todos os consumidores em um mercado ou que todos os membros de uma nação realmente conheçam uns aos outros da maneira como os aldeães se conheciam no passado. Nenhum alemão pode conhecer intimamente os outros 80 milhões de membros da nação alemã, nem os outros 500 milhões de consumidores que habitam o Mercado Comum Europeu (que primeiro se transformou na Comunidade Europeia e finalmente se tornou a União Europeia).
O consumismo e o nacionalismo fazem um esforço extra para nos levar a imaginar que milhões de estranhos pertencem à mesma comunidade que nós, que todos temos um passado em comum, interesses em comum e um futuro em comum. Não se trata de uma mentira. Trata-se de imaginação. Assim como o dinheiro, as empresas de responsabilidade limitada e os direitos humanos, nações e tribos de consumidores são realidades intersubjetivas. Só existem em nossa imaginação coletiva, mas seu poder é imenso. Contanto que milhões de alemães acreditem na existência de uma nação alemã, fiquem entusiasmados ao ver símbolos nacionais alemães, contem mitos nacionais alemães e estejam dispostos a sacrificar dinheiro, tempo e força bruta em nome da nação alemã, a Alemanha continuará sendo uma das potências mais fortes do mundo.
A nação faz tudo que está a seu alcance para ocultar seu caráter imaginado. A maioria das nações afirma ser uma entidade natural e eterna, criada em alguma época primordial por uma combinação do solo da pátria mãe com o sangue do povo. Mas tais afirmações são quase sempre exageradas. Existiam nações no passado distante, mas sua importância era muito menor do que hoje, porque a importância do Estado era muito menor. Um residente da Nuremberg medieval pode ter sentido certa lealdade para com a nação alemã, mas sentia muito mais lealdade para com sua família e comunidade local, que cuidavam da maior parte de suas necessidades. Além disso, qualquer que tenha sido a importância das nações antigas, poucas delas sobreviveram. A maioria das nações existentes só surgiu após a Revolução Industrial.
O Oriente Médio fornece muitos exemplos. As nações síria, libanesa, jordaniana e iraquiana são produto de fronteiras aleatórias desenhadas na areia por diplomatas franceses e britânicos que ignoraram a história, a geografia e a economia da região. Esses diplomatas determinaram, em 1918, que as pessoas do Curdistão, de Bagdá e de Basra seriam, dali em diante, “iraquianas”. Foram primordialmente os franceses que decidiram quem seria sírio e quem seria libanês. Saddam Hussein e Hafez al-Assad tentaram o possível para promover e reforçar sua consciência nacional fabricada por britânicos e franceses, mas seus discursos bombásticos sobre a natureza supostamente eterna das nações iraquiana e síria eram palavras vazias.
Nem é preciso dizer que as nações não podem ser criadas do nada. Os que trabalharam duro para construir o Iraque ou a Síria usaram matérias-primas culturais, históricas e geográficas reais – algumas das quais têm séculos ou mesmo milênios de existência. Saddam Hussein cooptou a herança do califado abássida e do Império Babilônico e inclusive batizou uma de suas unidades blindadas de Divisão Hamurabi. Mas isso não faz da nação iraquiana uma entidade antiga. Se eu asso um bolo com farinha, óleo e açúcar, todos ingredientes guardados na minha despensa há dois meses, isso não significa que o bolo propriamente dito tenha dois meses.
Nas últimas décadas, as comunidades nacionais têm sido cada vez mais eclipsadas por tribos de consumidores que não se conhecem intimamente, mas partilham dos mesmos interesses e hábitos de consumo e, portanto, se sentem parte da mesma tribo de consumidores – e se definem como tais. Isso soa muito estranho, mas estamos cercados de exemplos. Os fãs da Madonna, por exemplo, constituem uma tribo de consumidores. Eles se definem em grande medida por aquilo que compram: ingressos para shows da Madonna, CDs da Madonna, pôsteres e camisetas da Madonna e inclusive toques de celular de músicas da Madonna. Fãs do Fluminense, vegetarianos e ambientalistas são outros exemplos. Eles também são definidos acima de tudo por aquilo que consomem. É a base de sua identidade. Um vegetariano alemão pode muito bem preferir uma vegetariana francesa a uma carnívora alemã como esposa.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

As manigâncias de dona Frozina

Também com esse dinheiro mirrado...
Isso é o que a viúva dona Frozina diz do montepio. Mas dá para ela comprar Leite de Rosas e tomar verdadeiros banhos com o líquido leitoso. Dizem que sua pele é espetacular. Usa desde mocinha o mesmo produto e tem cheiro de mãe.
É muito católica e vive em igrejas. Tudo isso cheirando a Leite de Rosas. Como uma menina. Ficou viúva com vinte e nove anos. E de lá para cá – nada de homem. Viúva à moda antiga. Severa. Sem decote e sempre com mangas compridas.
D. Frozina, como é que a senhora arrumou sua vida sem homem?, quero lhe perguntar.
A resposta seria:
Manigâncias, minha filha, manigâncias.
Dizem dela: muita gente jovem não tem o espírito que ela tem. Está na casa dos setenta, a excelentíssima senhora dona Frozina. É sogra boa e ótima avó. Boa parideira que foi. E continuou frutificando. Eu queria ter uma conversa séria com d. Frozina.
Dona Frozina, a senhora tem qualquer coisa a ver com d. Flor e seus três maridos?
Que é isso, minha amiga, mas que pecado grande! Sou viúva virgem, minha filha.
Seu marido se chamava Epaminondas, com o apelido de Moço.
Olhe, d. Frozina, tem nomes piores do que o seu. Tem uma que se chama Flor de Lis – e como acharam ruim o nome, deram-lhe apelido pior: Minhora. Quase minhoca. E os pais que chamaram seus filhos de Brasil, Argentina, Colômbia, Bélgica e França? A senhora escapou de ser um país. A senhora e suas manigâncias. “Ganha-se pouco”, diz ela, “mas é divertido.”
Divertido como, minha senhora? A senhora não conheceu então a dor? Foi driblando a dor pela vida afora? Sim, senhora, com minhas manigâncias fui escapando.
D. Frozina não toma Coca-Cola. Acha que é moderno demais.
Mas todo o mundo toma!
Eu é que não, cruz-credo! parece até remédio contra bichas, Deus me livre e guarde.
Mas se acha o gosto de remédio é porque já provou.
D. Frozina usa o nome de Deus mais do que deveria. Não se deve usar o nome de Deus em vão. Mas com ela não cola essa lei.
E ela se agarra nos santos. Os santos já estão enjoados dela, de tanto ela abusar. De “Nossa Senhora” nem se fala; a mãe de Jesus não tem sossego. E, como vem do norte, vive dizendo: Virgem Maria! a cada espanto. E são muitos os seus espantos de viúva ingênua.
D. Frozina rezava todas as noites. Fazia uma prece para cada santo. Aí aconteceu o desastre: ela adormeceu no meio.
D. Frozina, que coisa horrível a senhora cochilar no meio da reza deixando os santos à toa!
Ela respondeu com um gesto de mão de descaso:
Ah, minha filha, que cada um pegue o dele.
Teve um sonho muito esquisitinho: sonhou que via o Cristo do Corcovado – e cadê os braços abertos? Estavam era bem cruzados, e o Cristo enjoado como se dissesse: vocês que se arranjem, estou farto. Era um pecado esse sonho.
D. Frozina, chega de manigâncias. Fique com o seu Leite de Rosas e “io me ne vado”. (É assim que se diz em italiano quando uma pessoa quer ir embora?)
Dona Frozina, excelentíssima senhora, quem está farta da senhora sou eu. Adeus, pois. Cochilei no meio da reza.
P.S. Procure no dicionário o que quer dizer manigâncias. Mas adianto-lhe o serviço: manigância – prestidigitação; manobra misteriosa, artes de berliques e berloques. (Do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.)
Um detalhe antes de acabar:
D. Frozina quando era pequena, lá em Sergipe, comia acocorada atrás da porta da cozinha. Não se sabe por quê.
Clarice Lispector, in Todos os contos

sábado, 19 de maio de 2018

Rincon Sapiência - Crime Bárbaro

Lobos? São muitos

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst

A adolescente

Vai andando e vai crescendo. É toda esganifrada: a voz, os gestos, as pernas... Antílopes! vejo antílopes quando ela passa! Pois deixa, passando, um friso de antílopes, de bambus ao vento, de luas andantes, mutáveis, crescentes…
Mário Quintana, in Sapato florido

"Demon with bowl", do irreverente artista britânico Damien Hirst










Após 13 anos sem apresentar uma exposição inédita, o irreverente artista britânico Damien Hirst faz um retorno triunfal com a mostra Treasures from the Wreck of the Unbelievable (tesouros do naufrágio do inacreditável, em tradução livre), inaugurada neste mês (09.04) em Veneza, na Itália. Com 189 novas obras, a exposição ocupa dois museus, um ao lado do outro: o Palazzo Grassi, com seus 5.000 m² no Grande Canal, principal via da cidade, e o Punta della Dogana, antiga alfândega de Veneza – ambos pertencem a François Pinault, colecionador de longa data das obras de Hirst e fundador do grupo Kering, conglomerado que detém grifes como Gucci, Saint Laurent e Balenciaga.
Conhecido por suas obras de animais como tubarão, vaca e ovelha mergulhados numa vitrine de formol, Hirst, aos 51 anos, é um dos nomes mais proeminentes do Young British Artists e um dos mais sucedidos de sua geração. Em 2008, ele leiloou todas as obras que tinha em seu ateliê de uma só vez, faturando R$511,6 milhões. Depois disso, seus preços caíram e, segundo especialistas, esse episódio marcou o início de seu fim – que, pelo visto, está longe de acontecer. Com mais de mil fornecedores de países como África do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Itália, Treasures from the Wreck of the Unbelievable, que tem curadoria de Elena Geuna, levou quase quarto meses para ser montada e apresenta obras avaliadas em US$4 milhões. Algumas chegam a pesar quatro toneladas – uma das esculturas, a Demon with Bowl, inspirada no poema Ghost of Flea, de William Blake, tem 18 metros de altura.

Veja matéria completa aqui.

A cura que adoece

Há duas semanas, estive em Ouro Preto para o Fórum de Letras, da incansável Guiomar de Grammont. Cheguei no início da noite. Caía uma tempestade e, sem ânimo para sair do quarto, me deitei.
Antes de pegar no sono, retomei a leitura das Cartas escolhidas , de Michelangelo Buonarroti (editora Unicamp / editora Unicfest, prefácio, seleção, tradução e notas de Maria Berbara). Dormi agarrado ao livro.
Sonhei, então, que estava em Ouro Preto não para participar do Fórum, mas para visitar meu avô materno, José Pedro – que, na verdade, não cheguei a conhecer. Encontro-o em sua cama, magro e ofegante. Assustado, peço que chamem seu médico.
Abro a porta, é o médico. Na verdade, é Gabriel García Márquez, que veste um jaleco branco e empunha uma maleta de couro. Não ouso admitir que o reconheço. Nervoso, cumprimento-o e o conduzo ao quarto de meu avô.
Por que adotou a nova profissão? O que o levou a se mudar secretamente para Ouro Preto? A agonia de meu avô, porém, não permite que eu me detenha nessas divagações.
O doutor Márquez examina seu doente. Não gosta do que vê. Pede, então, uma cadeira e senta a seu lado. Da maleta de médico, tira um livro. Abre-o e lê em voz alta um poema.
Não consigo recordar os versos. Sei que são do próprio García Márquez. Enquanto escuta o poema, meu avô abre os olhos, a face se aviva, a respiração desacelera. Nos últimos versos, já está sentado.
Aliviado, acompanho o doutor Marquez até a saída. “É espantoso que um poema possa curar”, eu lhe digo. Gabriel García Má rquez se vira e, com os olhos tristes, me diz: “A literatura cura quem lê. Mas ela adoece quem escreve”. Suspira e prossegue: “Veja como estou – e ninguém pode fazer nada por mim”.
Noto então que o escritor empalideceu, está trêmulo, que suas mãos vacilam. A dor do leitor (meu avô) agora é sua dor. Amparo-o até seu carro. Fecho a porta. Acordo.
Na manhã seguinte, o sonho com García Márquez me ajuda a ler a correspondência de Michelangelo. As 72 cartas selecionadas por Maria Berbara têm sua súmula em carta que ele enviou a Niccolò Martelli em 1542. Diz Michelangelo: “Vejo que me imaginaste como o que Deus gostaria que eu fosse. Sou um pobre homem de pouco valor”.
Modéstia? É bem mais que isso. Imitando o doutor Márquez, Michelangelo tinha consciência de que, diante da obra, o artista não passa de uma formiga. Alguém esmagado por sua própria grandeza e que sofre do que faz.
Não existem palavras para explicar essa experiência, e as cartas de Michelangelo – práticas, objetivas, frias – refletem essa consciência. Em uma delas, a Tommaso Cavalieri, ele admite: “Nada mais tenho a dizer. Lede o coração, e não a carta, pois a pluma é incapaz de alcançar o afeto”. Cita um verso de Petrarca; só a poesia (como em meu sonho) consegue dizer o indizível.
Com problemas de dinheiro, Michelangelo se lamenta com um prelado anônimo, que alguns identificam como Marco Vigerio, o bispo de Sinigaglia. O religioso procura acalmá-lo, sugerindo que se concentre em sua pintura. Michelangelo é áspero: “Respondo que se pinta com o cérebro e não com as mãos”.
Pinta-se (cria-se) com a mente, e as chaves da mente, muitas vezes, se guardam em zonas inacessíveis. Também a escrita – não falo das palavras pragmáticas dos burocratas, dos representantes comerciais e dos homens “cheios de si” – não se deixa normalizar.
Michelangelo acata a sugestão inútil do monsenhor, que fala em nome do papa. Mas adverte: “Não posso negar nada ao Papa; pintarei tristemente, e produzirei obras tristes”.
Sobre o mesmo tema, em carta a Tommaso Cavalieri, ele resume: “Farei do coração rocha, e avançarei”. Tem consciência de que o caminho da arte (como sugere o doutor Márquez) o adoece. Terá de suportar.
Suas obras, até hoje, espantam e maravilham. Elas nos curam da dor de existir. Pagou, porém, um alto preço. Ao cardeal Bernardo Dovizi, confessa: “Rogo, não como amigo ou servo, mas como um homem vil, pobre e louco”.
Em outra carta, ao pintor Sebastiano Veneziano, Michelangelo fala de um jantar que lhe pareceu muito agradável, “pois abandonei um pouco a minha melancolia, ou, melhor dito, a minha loucura”. Sua arte, que nos consola e encoraja, o corrói.
Para fugir de si, ele se detém em problemas práticos, como a falta de dinheiro, as dificuldades políticas, a longa espera pelos mecenas, a inveja dos concorrentes, como Rafael. Contudo, aqui e ali, deixa sempre escapar algo de seu sofrimento.
Ao pai, Lodovico, logo depois de terminar a capela Sistina, ele diz: “O Papa ficou muito satisfeito, mas outras coisas não saíram como eu esperava; a isso culpo os correntes tempos, que são muito contrários à nossa arte”.
Numa última, e furiosa, carta ao pai, com quem rompeu relações no ano de 1523, depois de brigar com sua madrasta, Lucrezia, Michelangelo vocifera: “Cuidai-vos, e tende cuidado com que vos cuida, pois só se morre uma vez, e não se retorna para consertar as coisas malfeitas”.
Amparado pelas palavras de Michelangelo, retorno ao presente. Nossos tempos parecem favoráveis aos artistas (e aos escritores), que se tornaram celebridades e pontificam em festas, palcos e seminários. Isso é uma ilusão. Sempre me incomoda quando se rouba do artista – em nome do sucesso, do prestígio, da “assinatura” – um pedaço de sua dor.
Não que o artista tenha de sofrer ou esteja condenado à crueldade. Ocorre que a arte é um trabalho como qualquer outro, e por isso cobra seu preço e exige sacrifícios.
As cartas de Michelangelo derrubam o mito contemporâneo de que o artista é um astro sobre-humano, que leva uma existência glamourosa e fútil. Sem suor, sem feridas, sem desgaste, nada se faz. É o que o doutor García Márquez comunica em meu sonho: pode ser belo, mas não é fácil.
Devemos respeitar essa dor, que é mais preciosa que as luzes do sucesso e as pompas da consagração. As modas, as feiras e os circuitos comerciais que fiquem com seu fantasma inexistente. O artista – como Márquez e Michelangelo –, sempre intransigente, se manterá aferrado a sua dor.
José Castello, in Sábados inquietos

Do desprendimento da bondade

Quando a bondade se mostra abertamente já não é bondade, embora possa ainda ser útil como caridade organizada ou como ato de solidariedade. Daí: “Não dês as tuas esmolas diante dos homens, para seres visto por eles”. A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro de uma igreja. Daí: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.”
(...) O amor à sabedoria e o amor à bondade, que se resolvem nas atividades de filosofar e de praticar boas ações, têm em comum o fato de que cessam imediatamente - cancelam-se, por assim dizer - sempre que se presume que o homem pode ser sábio ou ser bom. Sempre houve tentativas de dar vida ao que jamais pode sobreviver ao momento fugaz do próprio ato, e todas elas levaram ao absurdo.
Hannah Arendt, in A condição humana

Abraço de Judas

Todo presidiário tem dez minutinhos de sol, um recreio para banhar o rosto com a luminosidade da manhã. Já quem é livre talvez passe 24 horas longe de um pátio, desprovido de um mísero contato com a luz do dia. Talvez não abra a janela, sequer levante as persianas, para espiar o azul do horizonte e criticar a temperatura dos relógios da rua.
Quem é livre age com culpa. Encarna-se na profissão como um condenado, debruçado a atender os múltiplos sinais do celular, laptop, iPad, televisão.
Sempre encontra um tempo para adiantar uma tarefa, mesmo que seja necessário abdicar do almoço, mas nunca abre frestas para se sentir no mundo.
Suas frases mais comuns são que não tem escolha; precisa se sustentar; há muito a fazer.
Aparentemente solto, está confinado na solitária do seu trabalho — e não percebe o valor de respirar a cerração, espirrar quando surge um vento mais gelado e descascar tangerinas no meio-fio solar, fugindo do lado das sombras.
Esquece que o centro tem praças, que as praças têm bancos, que nos bancos caem máscaras de oxigênio das árvores.
Esquece o livre-arbítrio, envolvido na onipotência de desdenhar da vida.
Se fôssemos samambaias, estaríamos mortos. Secos. Murchos. Somos vasos e demoramos a rachar. A longevidade não é saúde.
Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade. Com sinceridade de velório.
Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço.
Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida.
É pelo abraço que testo o caráter do outro. Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura.
Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar.
Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.
Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho.
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho.
Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro.
Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços.
O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo; os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto.
Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir. Abraço é confissão.
Dez minutinhos de sol e de liberdade.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus