domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Terra girou para nos aproximar

A Terra girou para nos aproximar,
Girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
Até que finalmente nos uniu neste sonho
Como foi escrito no Simpósio
Noites passaram, neves e solstícios;
O tempo passou em minutos e milênios
Uma carreta que ia para Nínive
Chegou a Nebraska.
Um galo cantava distante
Na pré-vida de nossos pais
A terra girou musicalmente
Levando-nos a bordo;
Não parou de girar um único momento,
Como se tanto amor, tanto milagre
Era somente um provérbio escrito há muito tempo
Entre as partituras do Simpósio.
Eugenio Montejo

A repartição dos pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.
Clarice Lispector, in Todos os contos

Carminho - Sabiá

Capítulo 6 - Chimène, qui L'Eût Dit? Rodrigue, qui L'Eût Cru?

Vejo-a assomar à porta da alcova, pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante uns dez segundos, sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia já dois anos que nos não víamos, e eu via-a agora não qual era, mas qual fora, quais fôramos ambos, porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis.
Recuou o sol, sacudi todas as misérias, e este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo, que é o ministro da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade.
Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.
Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expediu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha teoria das edições humanas.
O que por agora importa saber é que Virgília - chamava-se Virgília - entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos, e veio até o meu leito. O estranho levantou-se e saiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados.
Virgília tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela última vez, numa festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.
- Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.
- Ora, defuntos! respondeu Virgília com um muxoxo.
E depois de me apertar as mãos: - Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podíamos falar um ao outro, sem perigo.
Virgília deu-me longas notícias de fora, narrando-as com gra- ça, com um certo travo de má língua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que não deixava nada.
- Que idéias essas! interrompeu-me Virgília um tanto zangada. - Olhe que eu não volto mais, Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.
E vendo o relógio:
- Jesus! são três horas. Vou-me embora.
- Já?
- Já; virei amanhã ou depois.
Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...
- Sua mana?
- Há de vir cá passar uns dias, mas não pode ser antes de sábado.
Virgília refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:
- Estou velha! Ninguém mais repara em mim. Mas, para cortar dúvidas, virei com o Nhonhô.
Nhonhô era um bacharel, único filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora cúmplice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao vê-los ali, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz. Virgília adivinhou-me e disse ao filho;
- Nhonhô, não repares nesse grande manhoso que aí está; não quer falar para fazer crer que está à morte.
Sorriu o filho, eu creio que também sorri, e tudo acabou em pura galhofa, Virgília estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocássemos, casualmente, nuns amores ilegítimos, meio secretos, meio divulgados, via-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...
Era o meu delírio que começava.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

Erros

Nos grandes são mais avultados os erros, porque erram com grandeza e ignoram com presunção.
Padre Antônio Vieira

O leão da Peugeot


Um ícone que lembra um pouco o homem-leão de Stadel aparece hoje em carros, caminhões e motocicletas de Paris a Sydney. É o ornamento que adorna o capô dos veículos fabricados pela Peugeot, uma das maiores e mais antigas fabricantes de carros da Europa. A Peugeot começou como um negócio familiar no vilarejo de Valentigney, a apenas 300 quilômetros da caverna de Stadel. Hoje a empresa emprega cerca de 200 mil pessoas em todo o mundo, a maioria delas completamente estranhas umas às outras. Esses estranhos cooperam de maneira tão eficaz que em 2008 a Peugeot produziu mais de 1,5 milhão de automóveis, gerando uma receita de aproximadamente 55 bilhões de euros. Em que sentido podemos afirmar que a Peugeot SA (nome oficial da empresa) existe? Há muitos veículos da Peugeot, mas estes obviamente não são a empresa. Mesmo que todos os Peugeot no mundo fossem descartados ao mesmo tempo e vendidos para o ferro-velho, a Peugeot SA não desapareceria. Continuaria a fabricar novos carros e a publicar seu relatório anual. A empresa tem fábricas, maquinário e showrooms e emprega mecânicos, contadores e secretárias, mas tudo isso junto não constitui a Peugeot. Um desastre poderia matar cada um dos empregados da Peugeot e destruir todas as suas linhas de montagem e todos os seus escritórios executivos. Mesmo assim, a empresa poderia obter empréstimos, contratar novos empregados, construir novas fábricas e comprar novo maquinário. A Peugeot tem gestores e acionistas, mas eles também não constituem a empresa. Todos os gestores poderiam ser demitidos e todas as suas ações, vendidas; mas a empresa propriamente dita permaneceria intacta.
Isso não significa que a Peugeot SA seja invulnerável ou imortal. Se um juiz ordenasse a dissolução da empresa, suas fábricas permaneceriam de pé e seus trabalhadores, contadores, gestores e acionistas continuariam a viver – mas a Peugeot SA desapareceria imediatamente. Em suma, a Peugeot SA parece não ter conexão alguma com o mundo físico. Ela existe de fato?
A Peugeot é um produto da nossa imaginação coletiva. Os advogados chamam isso de “ficção jurídica”. Não pode ser sinalizada; não é um objeto físico. Mas existe como entidade jurídica. Como você ou eu, está submetida às leis dos países em que opera. Pode abrir uma conta bancária e ter propriedades. Paga impostos e pode ser processada, até mesmo separadamente de qualquer um de seus donos ou das pessoas que trabalham para ela.
A Peugeot pertence a um gênero particular de ficção jurídica chamado “empresas de responsabilidade limitada”. A ideia por trás de tais empresas está entre as invenções mais engenhosas da humanidade. O Homo sapiens viveu sem elas por milênios. Durante a maior parte da história de que se tem registro, a propriedade só poderia pertencer a seres humanos de carne e osso, do tipo que anda sobre duas pernas e tem cérebro grande. Se na França do século XIII Jean abrisse uma oficina para fabricar vagões, ele próprio seria o negócio. Se um vagão por ele fabricado parasse de funcionar uma semana após a compra, o comprador insatisfeito processaria Jean pessoalmente. Se Jean tomasse emprestadas mil moedas de ouro para abrir sua oficina e o negócio falisse, ele teria de pagar o empréstimo vendendo sua propriedade privada – sua casa, sua vaca, sua terra. Talvez até precisasse vender seus filhos como escravos. Se não pudesse honrar a dívida, poderia ser jogado na prisão pelo Estado ou ser escravizado por seus credores. Ele era totalmente responsável, de maneira ilimitada, por todas as obrigações assumidas por sua oficina.
Se tivesse vivido naquela época, você provavelmente pensaria duas vezes antes de abrir um negócio próprio. E, com efeito, essa situação jurídica desencorajava o empreendedorismo. As pessoas tinham medo de começar novos negócios e assumir riscos econômicos. Dificilmente parecia valer a pena correr o risco de sua família acabar totalmente destituída.
Foi por isso que as pessoas começaram a imaginar coletivamente a existência de empresas de responsabilidade limitada. Tais empresas eram legalmente independentes das pessoas que as fundavam, ou investiam dinheiro nelas, ou as gerenciavam. Ao longo dos últimos séculos, essas empresas se tornaram os principais agentes na esfera econômica, e estamos tão acostumados a elas que nos esquecemos de que existem apenas na nossa imaginação. Nos Estados Unidos, o termo técnico para uma empresa de responsabilidade limitada é “corporação”, o que é irônico, porque o termo deriva de “corpus” (“corpo” em latim) – exatamente aquilo de que as corporações carecem. Apesar de não ter um corpo real, o sistema jurídico norte-americano trata as corporações como pessoas jurídicas, como se fossem seres humanos de carne e osso.
Também foi isso o que fez o sistema jurídico francês em 1896, quando Armand Peugeot, que herdara de seus pais uma oficina de fundição de metal que fabricava molas, serrotes e bicicletas, decidiu entrar no ramo de automóveis. Para isso, ele criou uma empresa de responsabilidade limitada. Batizou a empresa com seu nome, mas ela era independente dele. Se um dos carros quebrasse, o comprador poderia processar a Peugeot, e não Armand Peugeot. Se a empresa tomasse emprestados milhões de francos e então falisse, Armand Peugeot não deveria a seus credores um único franco. O empréstimo, afinal, fora concedido à Peugeot, a empresa, e não a Armand Peugeot, o Homo sapiens. Armand Peugeot morreu em 1915. A Peugeot, a empresa, continua firme e forte.
Como exatamente Armand Peugeot, o homem, criou a Peugeot, a empresa? Praticamente da mesma forma como os padres e os feiticeiros criaram deuses e demônios ao longo da história e como milhares de padres católicos franceses continuaram recriando o corpo de Cristo todo domingo nas igrejas da paróquia. Tudo se resumia a contar histórias e convencer as pessoas a acreditarem nelas. No caso dos padres franceses, a história crucial foi a da vida e morte de Cristo tal como contada pela Igreja Católica. De acordo com essa história, se um padre católico usando suas vestes sagradas pronunciasse solenemente as palavras certas no momento certo, o pão e o vinho mundano se transformariam na carne e no sangue de Deus. O padre exclamava: “Hoc est corpus meum!” (“Este é meu corpo” em latim) e abracadabra! – o pão se transformava no corpo de Cristo. Vendo que o padre havia observado assiduamente todos os procedimentos, milhões de católicos franceses devotos se comportavam como se Deus de fato existisse no pão e no vinho consagrados.
No caso da Peugeot SA, a história crucial foi o código jurídico francês, tal como redigido pelo parlamento francês. De acordo com os legisladores franceses, se um advogado certificado seguisse todos os rituais e liturgias adequados, escrevesse todos os discursos e juramentos requeridos em um pedaço de papel maravilhosamente decorado e afixasse sua assinatura ornamentada ao pé do documento, abracadabra! – uma nova empresa era incorporada. Quando, em 1896, Armand Peugeot quis criar sua empresa, ele pagou para que um advogado fizesse todos esses procedimentos sagrados. Uma vez que o advogado tivesse desempenhado todos os rituais corretos e pronunciado todos os discursos e juramentos necessários, milhões de cidadãos franceses honrados se comportaram como se a empresa Peugeot realmente existisse.
Contar histórias eficazes não é fácil. A dificuldade está não em contar a história, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela. Grande parte da nossa história gira em torno desta questão: como convencer milhões de pessoas a acreditarem em histórias específicas sobre deuses, ou nações, ou empresas de responsabilidade limitada? Mas, quando isso funciona, dá aos sapiens poder imenso, porque possibilita que milhões de estranhos cooperem para objetivos em comum. Tente imaginar o quão difícil teria sido criar Estados, ou igrejas, ou sistemas jurídicos se só fôssemos capazes de falar sobre coisas que realmente existem, como rios, árvores e leões.
Com o passar dos anos, as pessoas teceram uma rede incrivelmente complexa de histórias. Nessa rede, ficções como a da Peugeot não só existem como acumulam enorme poder. Têm mais poder do que qualquer leão ou bando de leões.
Os tipos de coisa que as pessoas criam por meio dessa rede de histórias são conhecidos nos meios acadêmicos como “ficções”, “construtos sociais” ou “realidades imaginadas”. Uma realidade imaginada não é uma mentira. Eu minto se digo que há um leão perto do rio quando sei perfeitamente que não há leão algum. Não há nada de especial nas mentiras. Macacos-verdes e chimpanzés podem mentir. Já se observou, por exemplo, um macaco-verde gritando “Cuidado! Um leão!” quando não havia leão algum por perto. Convenientemente, esse alarme falso afastava outro macaco que tinha acabado de encontrar uma banana, abrindo caminho para que o mentiroso roubasse o prêmio para si.
Ao contrário da mentira, uma realidade imaginada é algo em que todo mundo acredita e, enquanto essa crença partilhada persiste, a realidade imaginada exerce influência no mundo. O escultor da caverna de Stadel pode ter acreditado sinceramente na existência do espírito guardião do homem-leão. Alguns feiticeiros são charlatães, mas a maioria acredita sinceramente na existência de deuses e demônios. A maioria dos milionários acredita sinceramente na existência do dinheiro e das empresas de responsabilidade limitada. A maioria dos ativistas dos direitos humanos acredita sinceramente na existência de direitos humanos. Ninguém estava mentindo quando, em 2011, a ONU exigiu que o governo líbio respeitasse os direitos humanos de seus cidadãos, embora a ONU, a Líbia e os direitos humanos sejam todos produtos de nossa fértil imaginação.
Desde a Revolução Cognitiva, os sapiens vivem, portanto, em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões; por outro, a realidade imaginada de deuses, nações e corporações. Com o passar do tempo, a realidade imaginada se tornou ainda mais poderosa, de modo que hoje a própria sobrevivência de rios, árvores e leões depende da graça de entidades imaginadas, tais como deuses, nações e corporações.
Yuval Noah Hurari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Eu, o malacólogo


Foi publicado num jornal do Chile há anos que quando meu bom amigo, o célebre professor Julian Huxley, chegou a Santiago, no aeroporto perguntou por mim.
- O poeta Neruda? - responderam os jornalistas.
- Não, não conheço nenhum poeta Neruda. Quero falar com o malacólogo Neruda.
Esta palavra grega, malacólogo, significa especialista em moluscos.
Deu-me grande prazer esta historinha feita para me aborrecer e que não podia ser verdadeira porque conhecia Huxley fazia anos e ele era certamente um sujeito brilhante e muito mais vivo e autêntico do que seu famoso irmão Aldous.
No México andei pelas praias, mergulhei nas águas transparentes e cálidas e recolhi maravilhosas conchas marinhas. Depois, em Cuba e em outros lugares, assim como por intercâmbio e compra, presente e roubo (não há colecionador honrado), meu tesouro marinho foi-se acrescentando até encher quartos e quartos da minha casa.
Tive as espécies mais raras dos mares da China e Filipinas, do Japão e do Báltico; caracóis antárticos e polymitas cubanas; ou caracóis pintores vestidos de vermelho e açafrão, azul e cor de amora, como bailarinas do Caribe. Para dizer a verdade, as poucas espécies que me faltaram foram as de um caracol de terra do Mato Grosso brasileiro, que vi certa vez e não pude comprar nem viajar para a selva para apanhá-lo. Era totalmente verde, com uma beleza de esmeralda jovem.
Exagerei esse caracolismo até visitar mares remotos. Meus amigos também começaram a buscar conchas marinhas, a se encaracolar.
Quanto aos que me pertenciam, quando já passavam de quinze mil, começaram a ocupar todas as estantes e a cair das mesas e das cadeiras. Os livros de caracologia ou malacologia, como são chamados, encheram minha biblioteca. Um dia agarrei tudo e, em caixotes imensos, levei-os à universidade do Chile, fazendo assim minha primeira doação à Alma Mater. Era já uma coleção famosa. Como boa instituição sul-americana, minha universidade recebeu-os com louvores e discursos e sepultou-os no porão. Nunca mais foram vistos.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Street Art, do brasileiro Eduardo Kobra, em Lisboa


Confissões da mulher de um caseiro

Tudo acabou em 1975, na terrível geada de julho. Lembro os dias ensolarados do outono e a última colheita no cafezal antes da primeira manhã fria, quando o campo ficou coberto de agulhas de gelo. O cafezal parecia uma manta de sal grosso. O orvalho daquele inverno foi uma desgraça.
Eu cozinhava para os patrões, passava os grãos de café no moedor e preparava um café forte de manhãzinha. Isso me dava prazer. O café que uma neta de poloneses servia para filhos de alemães na época gloriosa dessa região. Era uma região selvagem; meu pai, jovem, ajudou a desbravar esta terra para os ingleses da Companhia de Terras do Norte do Paraná; depois da Segunda Guerra, ele foi trabalhar numa gleba de Nova Dantzig, o antigo nome de Cambé. Ele conheceu minha mãe na Colônia Bratislava, onde meu avô materno tinha um sítio. Meus pais morreram lá mesmo, quando eu era criança.
Andei por todo esse norte, por toda essa terra vermelha, arroxeada, essa terra que já foi uma floresta de cedros, perobas e ipês. Eu sou de Guarapuava, de Cambé, Pinhão, Bratislava, conheço tantas cidades… Mas eu gostei mesmo foi deste lugar. Da casa de madeira, onde morei com o meu marido, o caseiro dos alemães. Foi assassinado por uns bandidos que perseguiam outro homem, mas confundiram este homem com o meu e mataram um inocente. Meu patrão tentou fazer justiça, mas os matadores eram capangas de políticos, gente bárbara, bichos, pior que bichos. Foi recurso atrás de recurso e a justiça não deu em nada.
Envelheci sem ver os assassinos do meu marido na cadeia. Mais um crime esquecido. Lembro que meu patrão ficou furioso, mais vermelho que esta terra, ele até disse: “Se não tem justiça, não tem futuro”. E gritou uns palavrões na língua dele, não entendi nada, mas posso imaginar. Ele e a patroa me deixaram morar na casa de peroba.
Meus avós poloneses odiavam os alemães e os russos, também diziam palavrões em polonês, e isso eu entendia. Só não entendia a razão de tanto ódio. Histórias de guerra. Mas eu sou brasileira, uma paranaense de Bratislava. Elzibieta, meu nome de batismo. Ficou Bete, mais fácil. Polaca, como dizem.
Quando enviuvei, não quis mais saber de homem. Eu cozinhava, passava a roupa, servia o café colhido na lavoura, torrado aqui mesmo. Não era um fazendão, mas tinha horta, pomar, tudo. E vacas leiteiras: zebus. Minha patroa me ajudava a fazer queijo e doce de leite. Eu lavava a roupa no rio, tomava banho na nascente, cuidava das crianças, passeava com elas. Um rio lindo: esse mesmo rio. O céu no entardecer ficava coalhado de pombinhas e maritacas, parecia uma poeira verde no azul, mil asas escuras que faziam estardalhaço. Era bonito e me ajudava a viver. Na casa e na lavoura tinha hora para tudo: os alemães pareciam relógios no campo.
Depois da geada de 1975 eles compraram uma casa de madeira em Cambé; o patrão disse que era a minha casa. Ele vendeu a fazenda, o novo proprietário plantou cana, mandou derrubar as paredes da sede e da casa onde eu morava. Não retiraram os entulhos nem os móveis, nada. Venho para cá um domingo por mês e sento em frente dessa lareira, onde eu brincava com as crianças depois do almoço. Escovava os dentes dos meninos naquela pia que está no chão, no meio de azulejos quebrados. E, quando o cuco cantava quatro horas, eu levava as crianças para a beira do rio. Nosso domingo era assim: um passeio de manhã pela lavoura, depois eu acompanhava as crianças até a nascente do rio; à tarde nós nadávamos e ríamos com a gritaria das maritacas. De noitinha eu dava banho nos meninos, e antes de dormir eu rezava e me lembrava do meu marido. Aquele cercado com base de tijolos era o nosso quarto. Fecho os olhos e imagino a nossa casa, as noites que dormimos juntos, o corpo do homem que eu amava. Ainda bem que deixaram esse entulho. Posso imaginar as duas casas e o tempo que vivi aqui. Isso me dá esperança e paz. É o melhor domingo do mês.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Do inédito

E quando, morto de mesmice, te vier a nostalgia de climas e costumes exóticos, de jornais impressos em misteriosos caracteres, de curiosas beberagens, de roupas de estranho corte e colorido, lembra-te que para alguém nós somos os antípodas: um remoto, inacreditável novo do outro lado do mundo, quase do outro lado da vida, uma gente de se ficar olhando, olhando, pasmado... Nós, os antípodas, somos assim.
Mário Quintana, in Sapato florido

Soneto 49

Contra o tempo (se este tempo vier)
Quando rejeitares os meus defeitos,
Quando o teu amor fizer o seu maior lance,
Chamada a explicar-se por teu respeito;
Contra o tempo quando passares como estranha,
E mal me cumprimentares com o teu olhar em fogo,
Quando o amor transformado daquilo que era
Encontrar motivos de reconhecida gravidade;
Contra esse tempo, eu me protejo
Conhecendo os meus próprios desígnios,
E, assim, contra mim ergo a minha mão,
Para resguardar as tuas razões de direito.
Para me deixares, pobre de mim, empregas a força da lei,
Pois, a razão do amor, não posso alegar os meus motivos.
William Shakespeare (Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Leandro Léo - Meus Sentimentos

Bem

Em certo sentido o bem não tem consolo.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

O ex-futuro padre e sua pré-viúva

A vida é uma teia tecendo a aranha. Que o bicho se acredite caçador em casa legítima pouco importa. No inverso instante, ele se torna cativo em alheia armadilha. Confirma-se nesta estória sucedida em virtuais e miúdas paragens.


Era o Benjamim Katikeze. Desde pequeno ele se dedicara a ausências, paralelo ao céu. Os outros brincavam, festejando os ínfimos nadas da infância. Só o Benjamim definhava na catequese, entre santos e incenso. Mesmo os pais, que lhe queriam composto e ordeiro, achavam que era por demasia.
Vai brincar, Ben. Aproveita ser criança.
Mas o Benjamim, inaudiente, se desmeninava. O corpo madurava, idades além. As noites desfilavam e faziam-se côncavas para proveito de rapazes e raparigas. Só as mãos do mencionado se mantinham juntas, coladas, imaculadas. O Ben seguia mais alto que as almas.
Até que um dia apareceu Anabela, anabelíssima. Era uma rebuçada, capaz de publicar desejos nos mais pacatos olhos. Anabela apaixonou-se por Benjamim. O pobre nem com isso: ao contrário, mais ainda se internava em habilidades de kongolote. A menina enviou bilhetes, mensagens mais suspiradas que rabiscadas. Na presença dele, Anabela se desembrulhava. Mas sempre é assim: quando há o trecho, falta o apetrecho. E para mulher atiradiça, homem recatadiço. Ponha-se os iis nos pontos. Respective-se.
O bairro, nos enquantos, entretinha suas mil bocas com o romance desencontrado. No bar vizinho se comentava:
Mulheres? Quanto mais gingam o corpo mais fecham o coração.
Eu sei o que ela quer: é taco, carteira gorda. Afinal, boa e de graça só mesmo a chuva.
Não, não é caso de dinheiro. Se o próprio Henrique, mulato igual como ela, foi negado na proposta de anelamento.
Dissessem. A verdade era só uma: Anabela, por todos desejada, queria-se só com Benjamim. Contudo, ele seguia seus votos, resumido. Queria entrar no Seminário, estudar padreologia. Na espera, o seu único empenho era a oração. Ben era bastante orativo.
Os ataques de Anabela se fizeram mais cerrados. Parecia que quanto mais inviável mais ela nele se fincava. Ou quem sabe a vontade se nutre de impossíveis? Anabela passou a visitá-lo em horas desocultadas. Muitos lhe viram sair de casa do Benjamim suprarreptícia, atrevivida.
A rapariga parecia querer o escândalo. Mesmo ao pronunciar o nome dele, ela se deslizava: “Benjamim: beija a mim?”. As gentes sussurravam. Até quando o rapaz se aguentaria, beato repelindo o ato?
Não aguenta. Algum homem é inoxidável?
Mas as aparências são maiores que as sucedências. E o real espanto: a barriga da Anabela desatou a crescer. Anabela, a Anabela.
O pai dela, o respeitoso Juvenal, tomou então honrosas profilaxias. Afinal, todos sabiam: o Juvenal era um homem muito destremido. Esperavam-se as consequências. O dedo na campainha da casa de Benjamim anunciou a tempestade:
Senhor Benjamim?
O próprio.
Venho saber da data.
Qual data?
A data do casamento.
Casamento? De quem?
Do seu, senhor Benjamim. Do seu casamento com a minha filha Anabela.
A mandioca já azedava. O Ben passava a estrangeiro em sua própria casa. Cidadão em apuros de sobrevivência, ainda malbuciou. Mas o outro:
É seminarista? E depois? Conheço-lhes: são os piores!
O Juvenal, sogro em véspera de tomada de posse, não aceitava argumentiras: o nascente era indubitável, legítimo e incondicional. E, assim, o homem foi-se, deixando Benjamim à porta da noite. Estava-lhe o pensamento desmemoriado, sem palavra. Afinal, nenhuma tristeza pode ser explicada. Porque é ferida para além do corpo, dor para lá do sentimento. E a angústia do Benjamim era inundação cobrindo tudo. Ele se adivinhava sob a toalha do escuro, como se a vida e a morte lhe fossem simétricas. Só por causa de um engano, todo o seu sonho havia sido anulado. Já não seria padre, sua única aspiração. E teria que casar com alguém que só lhe inspirava aflição. Sem socorro terreno, Benjamim rezava com tanta fervura que todas as calças se romperam nos joelhos. Mesmo as do fato de casamento tiveram de ser costuradas.
Casaram-se irremediavelmente. Anabela e Benjamim e vice-versa. Com eles se matrimoniaram as famílias, cruzando-se nomes e destinos. E os dois passaram a entreviver-se, mútuas testemunhas de suas intimidades. O dia-a-noite era um impossível entendimento. Ele, virginoso, só dava ocupação às rótulas, nos sucessivos joelhamentos. Ela sempre querendo bailações, distratividades.
E, afinal, a grávida dela não se consumou. Não que houvesse aborto ou esvazamento. Nada não houve. Anabela desbarrigou-se por mistério. Benjamim não fez pergunta: melhor seria o ignorantismo. E, assim.
Anabela, entretanto, cansou de usar suas belezas sem que Ben exercesse másculas funções. Decidiu-se então a consultar o vizinho, um idoso enfermeiro reformado, de nome Bila.
Que passa, vizinhinha?
Ela respondeu que era assunto muito interior, o vizinho convidou a que entrasse. Anabela ocupou escasso assento, embaraçada. Passou os olhos desconfiados pela sala:
Desculpa, senhor enfermeiro. Mas ainda não encontrei parede surda.
O enfermeiro sorriu com beneficência, aquietando a moça. Ela que falasse à vontade: eram paredes da máxima confiança. Anabela confessou o motivo de suas infelicidades: o pseudo-Benjamim. O velho escutou palavras, lágrimas, suspiros. No fim, fez a síntese:
Quer dizer, ele maridou-lhe mas não exerce a soberania.
Ela gostou do resumo mas já não concordou com próximo julgamento dele.
É uma coisa que se vê, Anabela. Vê-se que não é uma esposa completa. Você anda sempre cabisbaixinha.
Ela fez um sinal tentando interromper mas o Bila prosseguiu: “Me admira, o Ben, tão cheio de corpo”. E depois riu-se: “É como o saco de carvão, parece corpulento mas não se sustenta em pé”.
Não é isso que o senhor pensa. Só gostava que o senhor ajudasse o pobre Ben.
Desculpa, Anabela, mas não dá.
Ele divulgou suas limitações: como enfermeiro nada sabia, como vizinho menos ainda podia.
Essas coisas não são competência de hospital.
Bila levantou-se. Puxou de um lenço e limpou o rosto. Depois, foi à janela e espreitou para nada. Acomodou-se dentro do casaco antes de falar.
A cura desses males só encontra-se na tradição. Mas vocês, da cidade, já começam a negar…
Eu não nego nada. O Ben é que nunca iria aceitar, por causa da religião.
Mas, o quê? Amar a mulher respectiva é contra alguma religião?
Não, mas isso de feitiço…
Deixa o assunto comigo, Anabela. Eu convenço o Ben, já lhe conheço há muito tempo.
O enfermeiro explicou os procedimentos: o marido em apuros começaria por se banhar numa água de raízes.
É para lavar o chissila dele?
Anabela duvidou, queria os detalhes. Chissila? Sim, era a origem daquela má sorte do marido. As raízes lavariam o pobre Ben do mau-olhado. Depois, prosseguiu Bila, seguir-se-ia a vacina.
Então aí já entra o senhor enfermeiro, como tal.
O vizinho negou. Era uma vacina tradicional, feita de poeiras do fogo, cinzas de osso de leão.
Leão? Onde se encontra leões num tempo destes?
São leões antigos, coloniais. Qualidade garantida.
Quem aplicaria a vacina seria uma velha feiticeira que ele conhecia, de artes capazes de inflamar de paixão um morro-de-muchém. Até cooperantes lhe iam consultar. A feiticeira, dizia o vizinho, era várias vezes internacional. Mas o Benjamim teria que se transferir, com alma e bagagem, para a residência da feiticeira.
Um curso de capacitação, como dizem por aí.
O teste final de aprovação seria feito com a própria velha. Se o Benjamim ficasse apurado, nunca mais desperdiçaria oportunidade com a formosa Anabela.
Dormir com a velha, o meu Benjamim?
Não havia alternativa, disse o enfermeiro. Feridas da boca curam-se com a própria saliva. Ela argumentou os seus receios:
Ouvi dizer que há homens que só conseguem com velhas, essas de idade avançadíssima. Com as jovens desconseguem.
Anabela voltou a casa cheia de dúvidas. Um pesadelo a perseguiu muitas noites. Sonhava que, ao adormecer, virava velha, coberta de rugas e escamas. Ela envelhecia no imediato momento em que tombava no sono. O marido desconhecia essas mudanças, ora bela, ora monstro. Certa vez, porém, o sonho se desenrolou assim: depois de cumprirem amores ela adormeceu enquanto ele a contemplava com paixão. Então, perante os olhos dele se deu a espantosa transfiguração. A pele lisa se encarquilhou, o corpo fresco se antiquou. Ele ficou atónito, capaz de desexistir. Foi ao vizinho, consultou o Bila.
Preciso de que um feiticeiro anule o feitiço que pesa sobre Anabela.
O Bila respondeu-lhe com uma pergunta: como sabia ele se Anabela não era, de fato, uma velha que se fazia jovem durante o dia?
E que diferença faz?
Faz muita, Ben. Se a sua mulher for essa que você viu adormecida, então você ficará com uma velha rugosa para toda a vida.
Mas eu quero desfazer o cushe-cushe.
Está bem. Mas depois não diga que não lhe avisei.
Ainda no sonho, Anabela se via a despertar numa manhã brumosa. Olhando-se ao espelho ela se descobria engelhada, parecia defunta arrependida. Sacudia o espelho até ver o seu rosto estilhaçar-se. Mas em cada pedaço de vidro ela se confirmava tresenrugada. Lavava-se com água tépida, alisava-se com cremes de ervas. Nada, as rugas teimavam, invencíveis. E quando tentava sair do quarto, as pernas, entorpecidas, lhe fugiam.
Anabela acordava do pesadelo, coberta de suores. Corria ao espelho para certificar o seu aspecto. O espelho devolvia-a lisa e polida. Ela suspirava no consolo da realidade.
Os maus sonhos continuaram mesmo depois de Benjamim ter partido para casa da feiticeira. Anabela não conseguia imaginar que argumentos teria usado o enfermeiro para convencer o marido. Mas, a verdade é que o Benjamim arrumou uma pequena mala e, sem dizer palavra, se ausentou. Ficou três semanas na cura. Anabela contou os dias nos dedos do desespero. Voltaria normal? Ou traria novos hábitos do convívio com a velha? Finalmente, ele chegou. Anabela ficou de olhos cheios, sem nada perguntar. Benjamim estava pálido, mais transtornado que retornado. Sentou-se na cama e olhou longamente a esposa. Ela interrogava aquela pose dele. Que alma estaria por detrás daquele homem?
Ficaram calados por um tempo. Ben fez um sinal para que ela se aproximasse. Anabela ergueu-se, sentindo já o vulcão do desejo lhe inundando. Ajoelhou-se em frente do marido:
É o quê, Ben?
O braço dele vagueou, bêbado, perto dos seus seios. Ela sorriu, fez-se mais próxima. Benjamim murmurou qualquer coisa, parecia mais suspiro que palavra. O arrepio de uma mão invisível estremeceu a jovem esposa.
Eu quero — disse ele.
Ela começou a desbotoar-se, parecia que o vestido tremia sob os dedos. Sentou-se mais junto dele, à espera. Um novo murmúrio escapou dos lábios de Benjamim:
Eu quero…
Eu também.
Eu quero água. Dá-me água, Anabela.
Um fundo desânimo lhe percorreu a carne. Ficou parada, entre o descrédito e a frustração. No enquanto da sua demora, Benjamim se levantou bruscamente. Porém, antes de dar um passo, tonteou no ar e caiu pesadamente no chão com menos consistência que um tapete.
Levaram-no, deitaram-no, tentaram em vão despertá-lo. Mas o Benjamim mantinha-se para lá das pálpebras: respirareava. Anabela chorava o marido em estado vegetal, falando-lhe com doçura como se ele ainda a ouvisse. Passava as noites em claro, atenta ao ser deitado a seu lado.
Os tempos trespassaram. Uma noite, já a Lua se hasteara, Anabela adormeceu, vencida pelo cansaço. No meio do sono, contudo, ela sentiu um arrepio como se alguém lhe tocasse. Ficou imovente, esperante. Não havia dúvida: eram mãos em artifícios de ternura. Agora lhe envolviam a cintura e lhe enchiam de uma quentura que há muito desperdiçava em suspiros. Ela acelerou o sangue: quem seria o autor daquelas apetências? O Benjamim? Não, não podia ser ele. Se ele nunca ousara, mesmo antes do acidente. Então, ela se fingiu dormida e o anônimo amante se espelhou em seu corpo, mar e praia se entreencheram. De olhos sempre fechados, ela recebeu o intruso, esse gatuno da sua triste solidão. Por noites, se repetiu o encontro cego. De pálpebras descidas, ela recebia o estranho. Amavam-se em fúria mas em silêncio. Ela receava que o Benjamim despertasse e surpreendesse o desconhecido. E foram madrugadas cumpridas aos gemidos, suspiros fundos de quem perde o ser.
Até que um dia, o enfermeiro Bila, na sua visita diária ao enfermo, anunciou:
Benjamim já estremexe os dedos. Amanhã, acorda todo, completo.
Foram palmas, risadas. Todos festejaram. Todos menos Anabela. A sua exdiferença foi notada pela sograria. A mãe, salvando aparências:
Coitada. Ela está tão gasta que já nem reage.
A jovem esposa, realmente, assumira o rosto cínzeo das viúvas. E, ao acompanhar as visitas à porta, se via que ela continha o desabar de uma lágrima. O enfermeiro, preocupado, chamou-lhe à parte:
Que tens, Anabela? Não se sente boa?
Ela não se devolveu. Baixou o rosto, rompeu-se o dique da sua íntima amargura. Aceitou o lenço e arrumou o aspecto. Corrigiu-se, a voz tremeluzindo:
Não pode deixar ele dormente mais uns dias? Só mais uns dias?
O enfermeiro admirou-se, soerguendo a cabeça. Ela traduziu-se:
É que queria ficar mais um tempo com ele. Queria tanto, senhor enfermeiro.
Com ele, quem?
E, de novo, lágrimas. O vizinho, de perplexa anuência, mais padre que enfermeiro. Acreditando ter recebido a confissão de um desjuízo, tranquilizou a jovem esposa:
Está certo, minha filha. Eu entendo muito bem: você é tão bonita, tão pretendida. Como é que se podia guardar tantíssimo tempo?
E dirigiram-se os dois para o quarto do vivibundo. Enquanto o enfermeiro preparava as seringas, ela se debruçou sobre o marido. Talvez só ele, o retirado Benjamim, tenha escutado o segredo que ela lhe entregou. Pelo menos, o enfermeiro surpreendeu qualquer coisa como um sorriso no canto da boca de Benjamim. E, sorrindo também ele, lhe injeccionou novas dormências.
Mia Couto, in Cada homem é uma raça