domingo, 10 de dezembro de 2017

A senhorita bisturi

Ao chegar ao fim do arrabalde, sob os clarões do gás, senti um braço passar devagarinho debaixo do meu, e ouvi uma voz dizer-me ao ouvido: — O sr. é médico? Voltei-me e vi uma moça alta e robusta, olhos arregalados, semiuniformizada, cabelos flutuando ao vento com as fitas do boné.
Não, não sou. Deixe-me passar.
Oh! Sim! O sr. é médico! Vejo bem que o é. Venha comigo. Garanto que ficará contente. Venha! Que diabo! Mais tarde, depois do médico, irei vê-lo.
E, sempre dependurada no meu braço e rebentando-se de rir: — Hahaha! O sr. é um médico muito tapeador. Conheço vários assim. Vamos! Eu sempre tive uma grande paixão pelo mistério, nunca perdendo a esperança de desvenda-lo. Deixei-me, por isso, arrastar por essa companheira, ou antes, por esse enigma inesperado.
Vou omitir a descrição da choupana, que se poderia encontrar em uma porção de velhos poetas franceses bastante conhecidos. Somente dois ou três retratos de doutores célebres — detalhe que passou despercebido a Régnier — havia pendurados nas paredes.
Como fui bem tratado! Um grande fogo, vinho quente, charutos. Oferecendo-me essas coisas e acendendo também um charuto, dizia-me a engraçada criatura: — Aqui é como se estivesse em sua casa, meu amigo, esteja à vontade. Assim se lembrará do hospital e do bom tempo em que era moço. Onde arranjou esses cabelos brancos? O sr. não era assim, ainda não faz muito tempo, quando trabalhava como interno de L... Lembro-me de que era quem o assistia nas operações graves. Que homem para gostar de cortar, talhar, esgravatar! Era o sr. quem lhe entregava os instrumentos, os fios e as esponjas. E, feita a operação, com que orgulho ele dizia, puxando o relógio: “Cinco minutos, senhores!” Oh! Eu ando em toda parte. Conheço bem esses senhores! Instantes mais tarde, tratando-me por você, continuou com a mesma cantilena, dizendo-me: — Você é médico, não é, meu gatinho?
Esse ininteligível refrão fez-me saltar: — Não! — gritei, indignado.
Cirurgião, então?
Não, e não! Só se fosse para cortar a sua cabeça! Com mil diabos!
Espere e verá, — disse ela.
Tirou de um armário um maço de papéis, que não era outra coisa senão a coleção dos retratos dos médicos ilustres da época, litografados por Maurin, que durante muitos anos puderam ser vistos no cais Voltaire.
Pronto! Reconhece este?
Sim, é X. O nome está embaixo, aliás. Mas, eu o conheço pessoalmente.
Eu sabia! Veja! Aqui está o Z, aquele que dizia na aula, referindo-se a X: “Esse monstro traz no rosto o negrume que tem na alma!” Tudo isso porque o outro não era da opinião dele sobre um mesmo assunto! Como nos ríamos disso na Escola, naquele tempo! Lembra-se? Mais outro, veja: é o K, aquele que denunciava ao governo os revoltosos que tratava no hospital. Era uma época de levantes. Como se explica que um homem tão bonito fosse tão ruim? Veja agora o W, o famoso médico inglês; apanhei-o numa viagem a Paris. Tem um arzinho de mulher, não tem?
E como eu tocasse num pacote amarrado, que estava em cima de uma mesa, ela me disse: — Espere um pouco, esses são os internos. Estes aqui são os externos.
E arrumou em leque um maço de fotografias, representando caras muito moças.
Quando nos tornarmos a ver, você me dará o seu retrato, não é, querido?
Mas, — disse-lhe eu, seguindo por minha vez o curso de minha ideia fixa,
por que pensa que sou médico?
É porque você é tão gentil e tão bom para as mulheres!
Que lógica esquisita! — murmurei.
Oh! Não me engano, conheci uma porção. Gosto tanto desses homens que, embora eu não seja doente, costumo procurá-los, só pelo prazer de vê-los. Há os que me dizem friamente: “A senhora não tem nada!” Mas, há outros que me compreendem, porque os trato com carinho.
E quando não compreendem?
Ora! Quando os amolo inutilmente, deixo dez francos em cima do aquecedor. São tão bons e tão amáveis! Na Santa Casa, descobri um moço interno que é bonito como um anjo! Tão delicado! E como trabalha, o pobrezinho! Os companheiros dele me disseram que não tem um vintém, porque os pais são pobres e não podem mandar nada para ele. Isso me encorajou. Além disso, sou bonita, embora ainda muito moça. Eu lhe disse: “Vá me visitar, vá me visitar de vez em quando. Não se preocupe comigo, pois não preciso de dinheiro.” Mas, você compreende que lhe dei a entender isso com uma porção de rodeios, sem lhe dizer a coisa cruamente. Eu tinha tanto medo de humilhar o queridinho! Pois bem, acredita que tenho um desejo estranho que não me atrevo a dizer-lhe? Eu desejava que ele fosse visitar-me com a maleta e de avental, mesmo que estivesse um pouco sujo de sangue! Disse isso com um ar de ingenuidade, como um homem sensível diria a uma comediante que amasse: “Quero vê-la vestida com a roupa que trazia no famoso papel de sua criação!”
Obstinado, repliquei-lhe: — Não se recorda da época e da ocasião em que lhe nasceu essa paixão estranha?
Foi difícil fazer-me compreender. Afinal, quando o consegui, ela respondeu-me com um ar muito triste e, se não me engano, desviando o olhar: — Não sei... Não me lembro mais...
Que maravilhas não se encontram numa grande cidade, quando se sabe passear e observar? A vida regurgita de monstros inocentes.
Meu Deus! Vós, que sois o Criador, que sois o Soberano; vós, que fizestes a Lei e a Liberdade; vós, rei indulgente e juiz que perdoa; vós, que sois cheio de motivos e de causas e que talvez tenhais posto no meu espírito o prazer do horror para converter-me o coração, como a cura na extremidade de uma lâmina; tende piedade, Senhor, tende piedade dos loucos e das loucas! Poderão existir monstros aos olhos do Criador, que sabe por que eles existem, como foram feitos e como não poderiam deixar de ser feitos?
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

A brasilidade no traço de Portinari

Meninos brincando (1958), de Cândido Portinari

Local

De onde me viria
esta história de o amor
ser de partida?

E esta agonia,
o inquirir de cada olhar
o revés
do esquecimento?

Minha praia é esta
meu convés o litoral
eu sou a minha nau
e o meu descobrimento.

Eu não conheço a dor dos navegantes
nem as areias escaldantes
dos salvados do mar...

Se sou assim desde o primeiro dia
por que fugir de mim
em travessia?
Abel Silva

O subsolo - 1

Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina. (Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não quero me tratar é de raiva. Isso os senhores provavelmente não compreendem. Que assim seja, mas eu compreendo. Certamente, não poderia explicar a quem exatamente eu atinjo, nesse caso, com a minha raiva; sei perfeitamente que, não me tratando, não posso prejudicar os médicos; sei perfeitamente bem que, com isso, prejudico somente a mim e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato, é de raiva. Se o fígado dói, que doa ainda mais.
Faz muito tempo que vivo assim – uns vinte anos. Agora estou com quarenta. Antes eu trabalhava no serviço público, mas agora não trabalho mais. Fui um funcionário cruel. Era grosseiro e encontrava prazer nisso. Já que não aceitava propinas, devia me recompensar ao menos dessa maneira. (Isso foi um gracejo infeliz, mas não vou apagá-lo. Eu o escrevi pensando que ia sair algo muito espirituoso, mas agora, quando constatei que, de maneira infame, estava apenas querendo me vangloriar, de propósito não vou apagar.) Quando os solicitantes se aproximavam da minha mesa para pedir uma informação, eu rangia os dentes para eles e sentia um prazer infinito quando conseguia contrariar alguém. Quase sempre conseguia. Na maior parte, era gente tímida, como são de hábito os solicitantes. Mas, entre os almofadinhas, particularmente eu não podia suportar um certo oficial. Ele não queria de modo algum submeter-se e fazia tinir seu sabre de maneira asquerosa. Por causa desse sabre, nós estivemos em guerra durante um ano e meio. Ganhei, finalmente. Ele parou com os tinidos. Aliás, isso se passou ainda na minha mocidade. Mas sabem os senhores em que consistia o ponto principal da minha raiva? A questão toda, a minha maior canalhice, se resumia a que a todo momento, até no instante do ódio mais intenso, eu percebia, envergonhado, que não só não era mau, como não era nem mesmo uma pessoa enfurecida, apenas assustava pardais sem nenhum propósito e com isso me divertia. Minha boca espumava, mas se me trouxessem um brinquedinho ou um chazinho com açúcar, na certa eu me acalmaria. Ficaria até enternecido, embora depois, provavelmente, rangeria os dentes para mim mesmo e, de vergonha, passaria alguns meses com insônia. Esse é o meu jeito de ser.
Eu menti antes, quando disse que era um funcionário cruel. Menti de raiva. Apenas me divertia com os solicitantes e o oficial, mas no fundo nunca me tornei mau. Constantemente observava em mim uma enorme quantidade de elementos contrários a isso. Sentia-os fervilhar dentro de mim. Sabia que em toda a minha vida eles fervilharam dentro de mim e ansiavam por sair, mas eu não deixava. Não deixava, de propósito não os soltava. Eles me torturavam ao ponto de me dar vergonha; até convulsões eu tinha por causa deles – e finalmente fiquei farto. Como fiquei farto! Não lhes parece que agora estou me arrependendo de alguma coisa diante dos senhores, que estou a lhes pedir perdão? Estou certo de que parece... Aliás, asseguro-lhes que para mim tanto faz, se isso assim lhes parece...
Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto. Agora vivo no meu canto, provocando a mim mesmo com a desculpa rancorosa e inútil de que o homem inteligente não pode seriamente se tornar nada, apenas o tolo o faz. Sim, senhores, o homem do século XIX que possui inteligência tem obrigação moral de ser uma pessoa sem caráter; já um homem com caráter, um homem de ação, é de preferência um ser limitado. Essa é a minha convicção aos quarenta anos. Tenho agora quarenta. E quarenta anos é toda uma vida, é a velhice mais avançada. Depois dos quarenta é indecoroso viver, é vulgar, imoral! Quem vive além dos quarenta? Respondam-me sincera e honestamente. Pois vou lhes dizer quem vive: os tolos e os canalhas. Direi isso na cara de todos os anciãos, dos anciãos respeitáveis, perfumados e de cabelos brancos! Direi isso na cara de todo mundo! Tenho direito de dizer isso porque eu mesmo vou viver até os sessenta. Até os setenta! Até os oitenta! Esperem! Deixem-me tomar fôlego!
Acaso os senhores estão pensando que quero fazê-los rir? Enganaram-se também quanto a isso. Não sou absolutamente esse sujeito brincalhão que os senhores imaginam, ou que talvez os senhores imaginem. Aliás, se os senhores, irritados com toda esta tagarelice (e já senti que estão irritados), inventarem de me perguntar: quem é o senhor exatamente? – eu lhes responderei: sou um assessor colegial. Eu tinha esse emprego para ter alguma coisa para comer (mas somente para isso) e quando, no ano passado, um dos meus parentes distantes deixou-me seis mil rublos no seu testamento, imediatamente me aposentei e mudei para este canto. Meu quarto é detestável, nojento e fica quase fora da cidade. Já vivia aqui antes, mas agora me instalei definitivamente. Minha criada é uma mulher da aldeia, velha, raivosa devido à ignorância e, além de tudo, tem um fedor insuportável. Dizem que o clima de Petersburgo está se tornando prejudicial para mim e que, com os recursos insignificantes de que disponho, é muito caro viver aqui. Sei de tudo isso melhor do que esses conselheiros e protetores experientes e sábios. Mas permaneço em Petersburgo; não vou sair de Petersburgo! Não vou sair porque... Ora! Não faz diferença nenhuma se vou sair ou não.
Mas sobre o que um homem de bem pode falar com mais satisfação?
Resposta: sobre si mesmo.
Então, vou falar sobre mim.
Dostoiévski, in Notas do subsolo

Do estilo

Se alguém acha que estás escrevendo muito bem, desconfia... O crime perfeito não deixa vestígios.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Segunda tentativa - Inícios de uma moral do homem sem qualidades

Mas, ao passar da cavalaria para a técnica, Ulrich apenas trocou de cavalo; o novo tinha membros de aço, e corria dez vezes mais depressa. No mundo de Goethe, o ruído dos teares ainda perturbava, mas no tempo de Ulrich começava-se a descobrir a canção das salas de maquinas, martelos de arrebite e sirenes de fábrica. Não se acredite com isso que as pessoas tenham imediatamente notado que um arranha-céu é maior do que um homem a cavalo; ao contrário, ainda hoje, quando se querem dar importância, não se sentam sobre um arranha-céu e sim sobre um cavalo alto, são rápidas como o vento e têm visão aguçada, mas não como um telescópio gigante, e sim como uma águia. Sua emoção não aprendeu ainda a servir-se da razão, e entre as duas há uma diferença de evolução tão grande como entre o apêndice e o córtex cerebral. Portanto, não é uma grande sorte descobrir, como Ulrich logo depois da adolescência, que em tudo o que considera superior o homem é bem mais antiquado do que suas máquinas.
No momento em que iniciou o estudo de mecânica, Ulrich sentiu um entusiasmo febril. Para que se precisa do Apolo del Belvedere, se temos diante dos olhos novas formas de um turbo-dínamo ou o jogo de pistões de uma máquina a vapor? Quem se encantaria com a milenar conversa sobre o bem e o mal depois de constatar que não são “constantes”, mas “valores funcionais”, de forma que o valor das obras depende das circunstâncias históricas, e o valor das pessoas depende da habilidade psicotécnica com que avaliamos suas qualidades? O mundo é realmente cômico, analisado do ponto de vista da técnica; nada prático nas relações humanas, altamente antieconômico e inexato em seus métodos; e quem estiver habituado a resolver seus problemas com a régua de cálculo, simplesmente não pode mais levar a sério metade das afirmações dos homens. A régua de cálculo consta de dois sistemas de cifras e traços combinados com inaudita argúcia, de duas varetas laqueadas de branco, que deslizam uma sobre a outra, dois recortes em forma de trapézio, com ajuda dos quais se resolvem num instante as tarefas mais complicadas, sem desperdiçar nem um pensamento; a régua de cálculo é um pequeno símbolo que se carrega no bolso interno do casaco, e se sente sobre o coração como um traço branco e duro: quem possui uma régua de cálculo, e encontra alguém que faz afirmações grandiosas ou tem sentimentos grandiosos, diz: um momento, primeiro vamos calcular as margens de erro e o valor mais provável de tudo isso!
Era sem dúvida uma concepção vigorosa da engenharia. Formava a moldura de um belo futuro auto-retrato, mostrando um homem com traços decididos, cachimbo entre os dentes, gorro de esporte na cabeça, movendo-se entre a Cidade do Cabo e o Canadá em magníficas botas de montaria, concretizando grandes projetos para a sua empresa. Entrementes, ainda há tempo para extrair do pensamento técnico algum conselho para a organização e governo do mundo, ou formular ditos como o de Emerson, que se devia pendurar em todas as oficinas: “As pessoas andam pelo mundo como profecias do futuro, e todos os seus atos são tentativas e experiências, pois cada ação pode ser superada pela ação seguinte!”
Para ser exato, essa frase fora fabricada por Ulrich, com várias frases de Emerson.
É difícil dizer por que engenheiros não correspondem exatamente a essa imagem. Por que, por exemplo, usam tão frequentemente a corrente de relógio subindo numa curva vertical do bolsinho do colete até um botão mais alto, ou a deixam cair sobre o ventre formando uma sílaba longa e duas curtas, como num poema? Por que gostam de usar alfinetes de lapela com dentes de cervo, ou colocar pequenas ferraduras nas gravatas? Por que seus ternos são feitos como os primeiros automóveis? E, finalmente, por que é raro falarem de outra coisa além da sua profissão? E, quando o fazem, por que têm essa maneira de falar especial, rígida, indiferente, alheada, apenas da boca para fora? Naturalmente isso não vale para todos, mas para muitos, e os que Ulrich conheceu ao começar o trabalho num escritório de fábrica eram assim, e no seu segundo emprego também eram. Mostravam-se estreitamente ligados às pranchetas de desenho, amantes da sua profissão, com uma admirável eficiência; mas, se lhes sugerissem aplicar a si próprios e não às suas máquinas aquelas ideias audaciosas, achariam isso tão antinatural quanto usar um martelo para matar.
Assim, terminou depressa a segunda tentativa, mais madura, de Ulrich tornar-se um homem extraordinário, usando o caminho da técnica.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

Um Café Lá em Casa com Liz Rosa e Nelson Faria

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Voluntário

O velho gaúcho foi ajudar, no posto mais próximo do hotel em que se hospedara, o serviço de assistência aos desabrigados pelo temporal. Ninguém lhe dá a idade que tem, ao vê-lo caminhar desempenado, botar colchão na cabeça, carregar dois meninos ao mesmo tempo, inclinar-se até o ladrilho, reassumir a postura ereta sem estalo nas juntas. Só que não se apressa, e quando um mais afobado desanda a correr pelo pátio ou a gritar ordens, aconselha por baixo da bigodeira branca:
Eh lá, não te apures que é lançante.
E se o outro não entende:
Devagar pelas pedras, amigo! Está sempre recomendando calma e jeito; bota a mão no ombro do voluntário insofrido, e diz-lhe, olhos nos olhos:
Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião, homem!
O outro, surpreso, ia queimar-se, mas o rosto claro e amical do velho o desarma. Ainda assim, pergunta:
Mas por quê?
Porque senão te abombachas no banhado, chê!
Como tem prática de campo e prática de cidade, prática de enchente, de seca, de incêndio, de rodeio, de eleição, de repressão a contrabando e prática de guerra (autobiografia oral), propõe, de saída, a divisão dos serviços em setores bem caracterizados:
Pois não sabes que tropa grande se corta em mais de um lote pra que vá mais ligeiro?
Ajuda mesmo, em vez de atrapalhar, e procurar impedir que outros atrapalhem, o que às vezes aumenta um pouco a atrapalhação, mas tudo se resolve com bom humor. Vendo o rapazinho imberbe que queria tomar a si o caso de uma família inteira, que perdera tudo, afasta-o de leve, explicando:
Isto não é cancha pra cavalo de tiro curto.
Nomeia o rapazinho seu ajudante de ordens, e daí a pouco a família sente que, depois de tudo perder, achara uma coisa nova: proteção e confiança.
Anima a uns e outros, não quer ver ninguém triste demais da conta. Suspende no ar o garotinho que não fala nem chora, porque ficou idiotizado de terror, puxa-lhe o queixo, dá-lhe uma pancadinha no traseiro, e diz-lhe:
Estás que nem carancho em tronqueira, piazito! Toma lá este regalo.
O regalo é um reloginho de pulso, de carregação, que ele saca do bolso da calça como se fosse mágico — e é capaz de tirar outros, se aparecerem mais garotos infelizes.
Há confusão na calçada, parece que um descuidista arrebatou a bolsa daquela senhora. O velho vai ver o que é, procuram convencê-lo de que não vale a pena se meter:
Vovô, se cuide!
Mas ele tem resposta na ponta da língua:
Que está me dizendo? Eu ainda pealo de cucharra um tourito xucro!
Como o ladrão deu no pé, não houve tempo de pealar, pelo que ele volta sentenciando:
Bem que este merecia um chá de casca de vaca!
Por cima de tudo, é velho galante, embora respeitador. Não deixa passar brotinho no salão da escola, transformada em abrigo, sem lhe dirigir um olhar aprovador, de homenagem. A bandeirante, cantando e ninando o bebê sem mãe, que a enxurrada levara até aquele porto, era tão bonita que ele não se conteve, virou poeta:
No mais duro pau de espinho
Nasce uma rosa fragrante!
As moças já estão com saudade prévia dele: quando a situação se normalizar, e as feridas se curarem, o velhinho volta para o Rio Grande.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Janela sobre uma mulher - 2

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro. Penso que deveria fazer a barba.
Penso que deveria, me vestir, penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.
Eduardo Galeano, in Mulheres

Street Art, de Fintan Magee, em Sydney, Austrália


Estreia nos viventes

Este homem que estou ocupando é um tal Izidine Naíta, inspetor da polícia. Sua profissão é avizinhada aos cães: fareja culpas onde cai sangue. Estou num canto de sua alma, espreito-lhe com cuidado para não atrapalhar os dentros dele. Porque este Izidine, agora, sou eu. Vou com ele, vou nele, vou ele. Falo com quem ele fala. Desejo quem ele deseja. Sonho quem ele sonha.
Neste momento, por exemplo, estou viajando num helicóptero, em missão enviada pela Nação. Meu hospedeiro anda esgravatando verdades sobre quem matou Vasto Excelêncio, um mulato que foi responsável pelo asilo de velhos de São Nicolau. Izidine iria percorrer labirintos e embaraços. Com ele eu emigrava no penumbroso território de vultos, enganos e mentiras.
Espreito das nuvens, por cima das vertigens. Lá em baixo, faceando o mar se vê a velha fortaleza colonial. É lá que fica o asilo, é lá que estou enterrado. Tem graça que eu tenha saído diretamente das profundezas para as nuvens. Olho da janela. A Fortaleza de São Nicolau é uma pequenita mancha que cabe num pedacito de mundo. Minha campa, essa nem se distingue. Vista do alto, a fortaleza é, antes, uma fraqueleza. Se notam os escombros como costelas descaindo sobre o barranco, frente à praia rochosa. Esse mesmo monumento que os colonos queriam eternizar em belezas estava agora definhando. Minhas madeirinhas, aquelas que eu ajeitara, agoniavam podres, sem remédio contra o tempo e a maresia.
Durante os longos anos da guerra, o asilo esteve isolado do resto do país. O lugar cortara relações com o universo. As rochas, junto à praia, dificultavam o acesso por mar. As minas, do lado interior, fechavam o cerco. Apenas pelo ar se alcançava São Nicolau. De helicóptero iam chegando mantimentos e visitantes.
A paz se instalara, recente, em todo país. No asilo, porém, pouco mudara. A fortaleza permanecia ainda rodeada de minas e ninguém ousava sair ou entrar. Só um dos asilados, a velha Nãozinha, se atrevia caminhar nos matos próximos. Mas ela era tão sem peso que nunca poderia acionar um explosivo. Enquanto morto eu tinha sentido os pés dessa velha me calcando o sono. E eram carícias, o mágico toque da gente humana.
Agora, eu me contrabandeava por essa fronteira que, antes, me separara da luz. Este Izidine Naíta, este homem que me transporta, não tem senão seis dias de destino. Suspeitará do seu próximo fim? Será por isso que ele se apressa agora, decidido a ganhar tempo? Vou no gesto do homem ao abrir uma pasta cheia de dactilografias. Na capa está escrito Dossier. Vê-se uma fotografia. Izidine pergunta em voz alta, apontando a imagem:
Este era Vasto Excelêncio?
Posso ver melhor?
Olho a nossa companheira de viagem, sentada no banco de trás do helicóptero. Fico com pena de não ter ocupado esse outro corpo. Marta Gimo era mulher de se olhar e lamber os olhos. Tinha sido enfermeira no asilo até à data do crime. Saíra apenas para prestar-se a testemunhações e depoimentos em Maputo.
Não vejo aqui a mulher de Vasto, disse Izidine... vagueando um dedo pela fotografia.
Marta não reagiu. Olhou o mar, lá em baixo, como se, de repente, uma tristeza a tivesse trespassado. Ficou com a foto nas mãos e respondeu em suspiro:
Nessa altura, a mulher dele ainda não tinha chegado a São Nicolau.
Ela permaneceu distante, a fotografia tombada sobre o assento. Me atentei em Izidine e tive pena do homem que eu residia: ele estava perdido, abarrotando dúvida. O que sabia ele? Que uma semana atrás, um helicóptero viajara até à fortaleza para ir buscar Vasto Excelêncio e sua esposa Ernestina. Excelêncio tinha sido promovido a importante lugar no governo central. Contudo, quando chegaram a São Nicolau já não o encontraram com vida. Alguém o tinha assassinado. Não se sabe quem nem porquê. O certo é que os do helicóptero deram com o corpo de Excelêncio esparramorto nas rochas da barreira. Viram-no quando o aparelho se aproximava da fortaleza.
Assim que pousaram, desceram a encosta para recuperar o corpo. Quando chegaram às rochas, porém, já não encontraram os restos de Excelêncio. Buscaram nas imediações. Em vão. O cadáver desaparecera misteriosamente. As ondas o levaram, assim pensaram. Desistiram das buscas e, como anoitecesse, iniciaram a viagem de retorno. Contudo, quando sobrevoavam a zona voltaram a deparar com o corpo estendido sobre os rochedos. Como voltara para ali? Estaria, afinal, vivo? Impossível. Se notavam os extensos ferimentos e não havia sinal de movimento. Deram voltas e voltas mas não era possível o helicóptero aterrar ali. E regressaram à capital. Assim sucedera.
Estamos a chegar!
Marta acenava para um pequeno grupo de velhos. O piloto nos deu indicações em voz alta: mal tocasse o solo, devíamos sair, sem demoras. O combustível dava, à justa, para a viagem de retorno. As hélices faziam eco nas paredes de pedra e nuvens de poeira se erguiam em remoinhos. Saltamos do aparelho, os velhos se encolhiam como cachorros. Agarravam-se às vestes como se flutuassem. Um deles se prendia com as duas mãos a um mastro. Parecia uma bandeira em dia de ventania.
Depois de o aparelho voltar a levantar voo, eles regressaram para os seus cantos. Marta rodou por ali, cumprimentando cada um deles. Izidine tentou aproximar-se mas os velhos se furtaram, bravios e arredios. De que desconfiavam?
O helicóptero se extinguiu em nada no horizonte e Izidine Naíta se foi sentindo desamparado, perdido entre seres que se vedavam a humanos entendimentos. Uma semana depois, o mesmo helicóptero deveria regressar para o transportar à capital. O inspetor tinha sete dias para descobrir o assassino. Não tinha fontes acreditáveis, nenhuma pista. Nem sequer sobrara o corpo da vítima. Restavam-lhe testemunhas cuja memória e lucidez já há muito haviam falecido.
Pousou o saco de viagem sobre um banco de pedra. Olhou as redondezas e afastou-se pela amurada da fortaleza. Não faltava muito para deixar de haver sol. Alguns morcegos já se lançavam dos beirais em voos cegos. Os velhos internavam-se no escuro dos seus pequenos quartos. O polícia não se demorou, receoso de que a magra luz se escoasse. Ao regressar surpreendeu um velho remexendo no seu saco. O intruso fugiu. Ainda o chamou mas ele desapareceu no escuro. Rapidamente, Izidine inspecionou o conteúdo do saco. Suspirou de alívio: a pistola ainda ali estava.
Está à procura de uma lanterna?
O polícia saltou de susto. Não notara a aproximação de Marta. A enfermeira apontou um quarto próximo e entregou uma vela e uma caixa com alguns fósforos:
Poupe bem a vela, é a única.
O polícia entrou no quarto, já sem luminosidade. Acendeu a vela e retirou as coisas do saco. No chão tombou uma pequena lata. Apanhou o objecto: não era uma lata. Seria um pedaço de madeira? Parecia, antes, uma casca de tartaruga. Izidine se intrigava: como saiu aquilo do saco de viagem? Rodou a casca entre os dedos e deitou-a pela janela fora. Depois, voltou a sair.
Izidine tinha um plano: entrevistaria, em cada noite, um dos velhos sobreviventes. De dia procederia a investigações no terreno. Depois de jantar, se sentaria junto à fogueira a escutar o testemunho de cada um. Na manhã seguinte, anotaria tudo o que escutara na anterior noite. Assim surgiu um pequeno livro de notas, este caderno com a letra do inspetor fixando as falas dos mais velhos e que eu agora levo comigo para o fundo da minha sepultura. O livrinho apodrecerá com meus restos. Os bichos se alimentarão dessas vozes antigas.
O inspetor ainda se perguntou sobre quem ouviria primeiro. Mas não foi ele que escolheu. O primeiro velho apareceu assim que Izidine saiu dos aposentos. No lusco-fusco parecia um menino. Trazia um arco de bicicleta. Sentou-se fazendo passar o aro pelo pescoço. Izidine lhe solicitou a sua versão do que ali tinha ocorrido. O velho perguntou:
Você tem a noite toda de tempo?
Colocou o homem à vontade: ele tinha a noite inteira. O velho sorriu, matreiro. E explicou-se assim:
É que aqui, falamos de mais. E sabe porquê? Porque estamos sós. Nem Deus nos faz companhia. Está a ver lá?
Lá, onde?
Aquelas nuvens no céu. São como estas cataratas nos meus olhos: névoas que impedem Deus de nos espreitar. Por isso, somos livres de mentir, aqui na fortaleza.
Antes de falar sobre a morte do diretor eu quero saber se foi você que, ontem, mexeu no meu saco!
Mia Couto, in A varanda do Frangipani

Vá pelos próprios meios

Sou cada vez menos proselitista. Vá cada um aonde possa pelos seus próprios meios: guias e gurus são más companhias.
José Saramago, in As palavras de Saramago

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A promessa

ela se inclinou sobre o lado da cama
e abriu um portfólio
junto à parede.
estávamos bebendo.
ela disse, “você me prometeu esses
quadros uma vez, não
lembra?”
o quê? não, não, não lembro.”
bem, você prometeu”, ela disse, “e você
sabe que promessa é dívida.”
tire a mão desses quadros”,
eu disse.
então fui até a cozinha buscar
uma cerveja.
fiz uma parada para vomitar
e quando voltei
pude vê-la sair pela janela
atravessando o pátio
em direção à sua casa que ficava nos fundos.
ela tentava correr e ao mesmo tempo equilibrar 40 pinturas
sobre a cabeça:
óleos
telas em preto e branco
acrílicos
aquarelas.
ela pisou em falso e quase
caiu sentada.
então subiu depressa os degraus da varanda
e sumiu porta adentro em direção ao
seu apartamento que ficava escada acima
avançando com todos aqueles quadros
sobre a cabeça.
foi uma das coisas mais
engraçadas que jamais vi.
bem, suponho que o negócio agora seja
pintar mais 40.
Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos

Cheio de Vazio - Zé Manoel

Alfredo

Esta é a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó. (Salmos, XXIII, 6)

Cansado eu vim, cansado eu volto.
A nossa primeira desavença conjugal surgiu quando a fera ameaçou descer ao vale. Joaquina, a exemplo da maioria dos habitantes do povoado, estava preocupada com os estranhos rumores que vinham da serra.
Inicialmente pretendeu incutir-me uma tola superstição. Ri-me da sua crendice: um lobisomem?! Era só o que faltava!
Ao verificar que ela não gracejava e se punha impaciente com o meu sarcasmo, quis explicar-lhe que o sobrenatural não existia. Os meus argumentos não foram levados a sério: ambos tínhamos pontos de vista bastante definidos e irremediavelmente antagônicos.
Com o passar dos dias, os gemidos do animal tornaram-se mais nítidos e minha mulher, indignada com o meu ceticismo, praguejava.
Silencioso, eu refletia. Procurava desvendar a origem dos ruídos. Neles vinha uma mensagem opressiva, uma dor de carnes crivadas por agulhas.
Esperei, por algum tempo, que a fera abandonasse o seu refúgio e viesse ao nosso encontro. Como tardasse, saí à sua procura, ignorando os protestos de minha esposa e as ameaças de romper definitivamente comigo, caso eu persistisse nos meus propósitos.

Iniciara a excursão ao amanhecer. Pela tarde, depois de estafante caminhada, encontrei o animal.
Nenhum receio me veio ao defrontá-lo. Ao contrário, fiquei comovido, sentindo a ternura que emanava dos seus olhos infantis.
Sem fazer qualquer movimento agressivo, de vez em quando levantava a cabeça — pequenina e ridícula — e gemia. Quase achei graça no seu corpo desajeitado de dromedário.
O riso brincou frouxo dentro de mim e não aflorou aos lábios, que se retorceram de pena.
Com muito cuidado para não assustá-lo, fui me aproximando. Uma pequena distância nos separava e, tímido, perguntei o que desejava de nós e a quem dirigia a sua desalentadora mensagem. Nada respondeu.
Não me dei por vencido ante o seu silêncio. Insisti com mais vigor:
De onde veio? Por que não desceu ao povoado? Eu o esperava tanto!
O meu constrangimento aumentava à medida que renovava inutilmente as perguntas.
Em dado momento, vendo que falava em vão, perdi a paciência:
E o que faz aí, plantado como um idiota no cimo desta montanha?
Parou de gemer e fitou-me com indisfarçável curiosidade. Em seguida, sem tirar o chapéu, murmurou:
Bebo água.
A frase, pronunciada com dificuldade, numa voz cansada, cheia de tédio, desvendou-me o sentido da mensagem.
Na minha frente estava o meu irmão Alfredo, que ficara para trás, quando procurei em outros lugares a tranquilidade que a planície não me dera.
Tampouco eu viria a encontrá-la no vale. Por isso vinha buscar-me.

Depois de beijar a sua face crespa, de ter abraçado o seu pescoço magro, enlacei-o com uma corda. Fomos descendo, a passos lentos, em direção à aldeia.
Atravessamos a rua principal, sem que ninguém assomasse à janela, como se a chegada do meu irmão fosse um acontecimento banal. Ocultei a revolta e levei-o pela ruazinha mal calçada que nos conduziria à minha residência.
Joaquina nos aguardava no portão. Sem trocarmos sequer uma palavra, afastei-a com o braço. Contudo, ela voltou ao mesmo lugar. Deu-me um empurrão e disse não consentir em hospedar em nossa casa semelhante animal.
Animal é a vó. Este é meu irmão Alfredo. Não admito que o insulte assim.
Já que não admite, sumam daqui os dois!
Alfredo, que assistia à nossa discussão com total desinteresse, entrou na conversa, dando um aparte fora de hora:
Muito interessante. Esta senhora tem dois olhos: um verde e outro azul.
Irritada com a observação, Joaquina deu-lhe um tapa no rosto, enquanto ele, humilhado, abaixava a cabeça.
Tive ímpetos de espancar minha mulher, mas meu irmão se pôs a caminhar vagarosamente, arrastando-me pela corda que eu segurava nas mãos.

Ao anoitecer, encontramo-nos novamente no alto da serra. Lá embaixo, pequenas luzes indicavam a existência do povoado. A fome e o cansaço me oprimiam: todavia, não pude evitar que o meu passado se desenrolasse, penoso, diante de mim. Veio recortado, brutal.
(— Joaquim Boaventura, filho de uma égua! — As mãos grossas, enormes, avançaram para o meu pescoço. Deixei cair o pedaço de mão que roubara e esperei, apavorado, o castigo.)
Filho de uma égua. Como tinha sido ilusória a minha fuga da planície, pensando encontrar a felicidade do outro lado das montanhas. Filho de uma égua!

* * *
Alfredo pediu-me que descansássemos um pouco. Sentou-se sobre as pernas e deixou que eu lhe acariciasse a cabeça.
Também ele caminhara muito e inutilmente. Porém, na sua fuga, fora demasiado longe, tentando isolar-se, escapar aos homens, ao passo que eu apenas buscara no vale uma serenidade impossível de ser encontrada.

De início, Alfredo pensou que a solução seria transformar-se num porco, convencido da impossibilidade de conviver com seus semelhantes, a se entredevorarem no ódio. Tentou apaziguá-los e voltaram-se contra ele.
Transformado em porco, perdeu o sossego. Levava o tempo fossando o chão lamacento. E ainda tinha que lutar com os companheiros, sem que, para isso, houvesse um motivo relevante.
Imaginou, então, que fundir-se numa nuvem é que resolvia. Resolvia o quê? Tinha que resolver algo. Foi nesse instante que lhe ocorreu transmudar-se no verbo resolver.
E o porco se fez verbo. Um pequenino verbo, inconjugável.
Entretanto, o verbo resolver é, obviamente, a solução dos problemas, o remédio dos males. Nessa condição, não teve descanso, resolvendo assuntos, deixando de solucionar a maioria deles. Mas, quando lhe pediram que desse um jeito em mais uma briga familiar, recusou-se:
Isso é que não!
E transformou-se em dromedário, esperando que beber água o resto da vida seria um ofício menos extenuante.

A madrugada ainda nos encontrou no alto da serra. Espiei pela última vez o povoado, sob a névoa da garoa que caía. Perdera mais uma jornada ao procurar nas montanhas refúgio contra as náuseas do passado. De novo, teria que peregrinar por terras estranhas. Atravessaria outras cordilheiras, azuis como todas elas. Alcançaria vales e planícies, ouvindo rolar as pedras, sentindo o frio das manhãs sem sol. E agora sem a esperança de um paradeiro.
Alfredo, enternecido com a melancolia que machucava os meus olhos, passou de leve na minha face a sua áspera língua. Levantando-me, puxei-o pela corda e fomos descendo lentamente a serra. Sim.
Cansado eu vim, cansado eu volto.
Murilo Rubião, in Obra completa