terça-feira, 24 de abril de 2018

Um operário da escrita

Em primeiro lugar, não entendo muito bem isso que se chama de prazer da escrita. Por outro lado, também não sofro das agonias que sofrem outros escritores. Não! Eu me comporto mais como um operário que se senta prosaicamente para trabalhar e que o faz o melhor que pode. Não romantizo nada a atividade de escritor! A inspiração, a luz da mansarda, as quatro da madrugada e o ritual das pessoas que passam lá embaixo, longe, na rua…
José Saramago, in As palavras de Saramago

Capítulo 18 - Visão do Corredor

No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as ideias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...
- Um anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor.
E aí, como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites!
Vi-te ali mesmo correr atrás da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde saíste à rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a porta, vi na calçada três dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o da libré na boleia, e lá me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistência era inútil.
Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma ideia fixa... Malditas ideias fixas!
A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

Um Café Lá em Casa com Luiz Otávio e Nelson Faria

Evites a ostentação

Nunca te intitules Filósofo nem fales demasiado sobre os Princípios com os iletrados; faz, antes, o que deles decorre. Assim, num banquete, não discutas como devem as pessoas comer, mas come como é devido. Lembra que Sócrates evitava inteiramente a ostentação. As pessoas vinham a ele encaminhadas a filósofos, e ele próprio as encaminhava, tão bem suportava ser desdenhado. Da mesma maneira, se alguma conversa relativa a princípios ocorrer entre os iletrados, procura guardar silêncio. Pois corres o risco de vomitar o que digeriste mal. E quando alguém te disser que não sabes nada e tu não te apoquentares com isso, podes estar certo que estás finalmente no bom caminho.
Epicteto, in O festival da vida

Casal problema

Na discussão de relacionamento, as aparências enganam. Quem grita muito não deseja brigar. Quem fala baixo gosta de brigar. Mariano é do segundo grupo, adepto silencioso da rinha: suplica para a mulher se recompor e baixar o volume. Seu jogo é psicológico. Põe fogo no circo e senta para assistir ao espetáculo da plateia.
A impressão é de que Selma grita sozinha: a voz dele nem aparece.
A falsa calma de Mariano irrita Selma. Mas a irritação de Selma passa da conta e apavora Mariano. Não há santo naquele lar. Ambos sabem que não estão certos, mas tramam um jeito de convencer o parceiro de que ele é que está errado.
Ele não descansa sem fazer as pazes. Ela odeia paz forçada. Nenhum cederá: os vizinhos é que sofrem.
Formam o famoso casal-problema do prédio. Todo edifício tem um. A reunião de condomínio é dedicada às últimas peripécias do apartamento 201.
No início do ano, a vizinha de cima bateu à porta da dupla. Antes fosse para pedir sal ou açúcar.
Desculpe incomodar, tenho uma filha pequena, não estamos dormindo de noite, vocês podem gemer mais baixo?
Como? — Mariano atendeu.
Dá para ouvir tudo pela nossa janela.
O que sugere? Que use travesseiro no rosto? — ele ironizou.
Não sei mais como explicar à minha filha, avisei que eram gatos no telhado.
Episódio mais grave ocorreu em maio. Mariano e Selma não são mesmo calmos. O que esperar do encontro de orgulhosos, ciumentos, temperamentais?
Óbvio que uma carta de notificação da imobiliária, ordem para se comportar senão seriam obrigados a pagar multa.
Pô, Selma, não podemos transar nem brigar na própria casa.
É o fim da liberdade, amor. E o síndico desrespeita a lei do silêncio no domingo para apressar a reforma do corredor, né?
E se abraçaram e viveram em paz mais três meses.
Na última semana, após troca de insultos, o interfone do 201 apita:
Soldado Amauri, Brigada Militar…
Vizinhos desgraçados… — desabafou Selma.
Duas viaturas estavam estacionadas na entrada do prédio.
Eles pararam de discutir na hora, cheios de cumplicidade.
Quando roubaram o nosso carro na garagem, à mão armada, nenhum carro da Brigada Militar surgiu, Selma. Nenhum!
Mas para apartar uma briguinha, a corporação envia não somente um veículo, mas dois, Mariano.
Querem nos separar.
Nunca vão nos separar!
Nada melhor do que uma injustiça para desencadear a reconciliação.
O casal desceu de mãos dadas, envolvido em longos e acalorados beijos. Os policiais ficaram constrangidos diante de tanto amor e se retiraram.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sinais dos tempos

Esses que, pelas estradas claras dos primeiros séculos, mendigavam e faziam pueris e deliciosos milagres, e viraram agora transformistas de palco. Santos que perderam a fé, socorrem-se habilmente dos recursos inesgotáveis que a técnica hoje em dia nos proporciona, quando seria muito mais fácil um milagre... A divina simplicidade de um milagre.
Mário Quintana, in Sapato florido

Street Art: O velho pescador, de Julia Volchkova


Rimo e rimos

Passarinho parnasiano,
nunca rimo tanto como faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimo, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
se amar fosse fácil.
Perguntarem por que rimo tanto,
responder que rima é coisa rara.
O raro, rarefeitamente, para,
como para, sem raiva, qualquer canto.
Rimar é parar, parar para ver e escutar
remexer lá no fundo do búzio
aquele murmúrio inconcluso,
Pompeia, ideia, Vesúvio,
o mar que só fala do mar.
Vida, coisa pra ser dita,
como é dita este fado que me mata.
Mal o digo e já meu dito se conflita
com toda a cisma que, maldita, me maltrata.
Paulo Leminski

Regra do mundo é muito dividida

Galopando junto com o Sesfrêdo, larguei aquele lugar do Burití das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam. E então eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfrêdo. Que ele, se sabia, tinha deixado, fazia muitos anos, em terras do Jequitinhonha, uma moça que apaixonava, e que era a mocinha de cabelos louros. ― Sesfrêdo, me conta, me fala nesse acontecer... ― nem bem cem braças andadas eu já pedia a ele. Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor.
E você não volta para lá, Sesfrêdo? Você aguenta o existir? ― perguntei. ― Guardo isso, para às vezes ter saudade. Berimbau! Saudade, só... ― e ele alargou as ventas, de tanto riso. Vi que a estória da moça era falsa. De inventar pouco se ganha. Regra do mundo é muito dividida. O Sesfrêdo comia muito. E sabia assoviar seguido, copiando o de muitos pássaros.
Ao viável, eu tinha de atravessar as tantas terras e municípios, jogamos uma viagem por este Norte, meia geral. Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido. A que viemos: por Extrema de Santa Maria ― Barreiro Claro ― Cabeça de Negro ― Córrego Pedra do Gervásio ― Acarí ― Vieira ― e Fundo ― buscando jeito de encostar no de São Francisco. Novidade não houve. Passamos, numa barca. Só sempre bater para o nascente, direitamente em cima de Tremedal, chamada hoje Monte-Azul. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. De madrugada, acordamos em sua janela um velhozinho, dono de um bananal. O velhozinho era amigo, executou o recado. Daí a cinco madrugadas, retornamos. Era para vir alguém, quem veio foi João Goanhá, próprio. E as descrições que deu foram de todas as piores. Sô Candelário? Morto em tiroteio de combate, metralhadoras tinham serrado o corpo dele, de esguêlha, por riba da cintura. O Alípio, preso, levado para a cadeia de algum lugar. Titão Passos? Ah, perseguido por uma soldadesca, tivera de se escapar para a Bahia, pela proteção do Coronel Horácio de Matos. Só mesmo João Goanhá era quem ainda estava. Comandava saldo de uns homens, os poucos. Mas coragem e munição não faltavam. ― E os Judas? ― perguntei, com triste raciocínio! por que era que os soldados não deixavam a gente em paz, mas com aqueles não terçavam? ― Se diz que eles têm uma proteção preta... ― João Goanhá me esclareceu! ― O Hermógenes fez o pauto. E o demônio rabudo quem pune por ele... Nisso todos acreditavam. Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que eu fui o primeiro que cri.
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade. Porque ele sabia que os Judas, reforçados, tinham resolvido passar o Rio em dois lugares, e marcharem em cima de Medeiro Vaz, para acabar com ele de uma vez, no país de lá. Onde era que o perigo, Medeiro Vaz precisava de nós.
Mas não pudemos. Mal a gente se tocou, para a Cachoeira do Salto, e esbarramos com tropa de soldados ― tenente Plínio. Foi fogo. Fugimos. Fogo no Jacaré Grande ― tenente Rosalvo. Fogo no Jatobá Torto ― sargento Leandro. Volteamos. Sobre aí, me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. No formato da forma, eu não era o valente nem mencionado medroso. Eu era um homem restante trivial. A verdade que diga, eu achava que não tinha nascido para aquilo, de ser sempre jagunço não gostava. Como é, então, que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém. Acho, acho, é do influimento comum, e do tempo de todos. Tanto um prazo de travessia marcada, sazão, como os meses de seca e os de chuva. Será? Medida de muitos outros igualasse com a minha, esses também não sentindo e não pensando. Se não, por que era que eram aqueles aprontados versos ― que a gente cantava, tanto toda-a-vida, indo em bando por estradas jornadas, à alegria fingida no coração?
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

As antigas saudações populares

No velho sertão nordestino, que as rodovias modificaram pela incessante aproximação com o litoral, até o Ano do Centenário (1922), conservavam-se, quase imutáveis, as linhas-mestras da sociedade setecentista. Chefes políticos, vigários, professores locais mantinham, pelo exemplo natural da vocação obstinada, a fisionomia cultural de outrora, fiéis à herança poderosa do regímen antigo no qual haviam nascido.
Regime, rejume, era uma norma inalterável, forma de vida estável e natural. Vivendo, há meio século, nessa região do Rio Grande do Norte e da Paraíba, justamente no sertão mais típico e severo, sertão de pedra, o oeste norte-rio-grandense e as ribeiras paraibanas do Rio do Peixe e do Piancó, sou uma testemunha, uma memória sobrevivente desse ciclo que desapareceu quase por completo.
Essas reminiscências constituem o fundamento de estudos que a biblioteca e a viagem completaram no plano da atualização e do confronto.
Um desses motivos de pesquisa tem sido a saudação, a cortesia do sertão velho, aos visitantes, hóspedes, familiares.
A lição etnográfica é que a primeira saudação humana seria pela voz tranquilizadora ou aliciante. Nasceram as fórmulas da polidez milenar, troca de palavras numa convenção insubstituível. Alusão à presença física, à saúde, ao perpassar do tempo. Ainda vivem essas perguntas, estabelecendo a confiança pelo interesse cordial. É o modo internacional de saudar.
Pelo litoral atlântico onde vivia o indígena tupi, os cronistas registraram a troca ritual das palavras indispensáveis, rápido comento pela vitória da jornada até a aldeia fraternal.
ERE-UI PE? Vieste então? PA-AIUT , sim, vim. É o nosso íntimo: – Então? Por aqui? – É verdade, estou por aqui! Hans Staden saúda Cunhambebe: – Vives tu ainda? – O grande soberano selvagem responde apenas: – Sim, vivo ainda! – No mundo caraíba nas cabeceiras do Xingu, Karl von den Steinen fixou o cerimonial: – Ama: tu! Úra: eu! – Nada mais. Eu e tu estamos diante um do outro, individualizados, reais, autênticos. Vamos viver juntos como amigos. Entretermo-nos. Para que maiores circunlóquios?
Antes da palavra expressiva haveria o primeiro gesto, ainda contemporâneo, de mostrar as mãos, uma só mão no mínimo, visivelmente sem armas, agitada na homenagem ao advena. E deste àquele. Desarmados, na confiança cordial. Mudamos milhares de coisas, mas essa saudação ficou.
Andei uns tempos indagando sobre o aperto de mão (Superstições e costumes, ed. Antunes, Rio de Janeiro, 1958). Não havia no Brasil ameraba. É uma presença europeia. Em 1884 os bacairis “mansos” do Mato Grosso não compreendiam a significação da mão estendida.
O mesmo ocorrera na África Ocidental e Oriental. O preto não sabia apertar a mão como um cumprimento. Presentemente é um índice de aculturação. A saudação normal do brasiliense consistia nas frases: – Vieste? Vim! Eu! Tu! Eu bom! Eu amigo! Nenhum gesto acompanhava. Havia nalgumas malocas a saudação lacrimosa, de uso vasto e velho fora do Brasil. Seguia-se, em qualquer dos casos, a entrega de alimentos e das ofertas do estrangeiro. Receber o hóspede, chorando, era um processo da cordialidade feminina. O estrangeiro devia chorar também.
O sertão, mesmo do século XIX e primeiras décadas do XX, conheceu o aperto de mão para pessoas de sociedade, gente letrada, de importância. O sertanejo antigo não apertava a mão. Falava saudando. Ouvia, sorrindo, a resposta. Ainda hoje não é comum entre populares. Batem no ombro, nas costas, no deltoide. Fazem ar de riso. Mesmo o abraço é um toque de mão num ou em ambos os ombros. Bater no ombro é símbolo clássico de intimidade. Local de cerimônias fidalgas e sagradas. Andam de mão no ombro, amigos.
A saudação velha era essencialmente a palavra e não o gesto. Assim vi, há cinquenta anos passados. Identicamente entre o povo português, lavradores, gente do interior, fiel às regras de outrora.
No alpendre da fazenda velha. Lampião aceso. Conversava-se nas primeiras horas da noite. Os recém-vindos não vinham apertar a mão do dono da casa.
Entravam dizendo e ouvindo os períodos do preceito:
Boa! Boa noite pra todos! Boa! Tome assento!
Na saída: – Bem. Vou indo! Até! lntante!...
E a resposta: – lntantin!... Instante, instantezinho, até breve, até logo.
Nas feiras via o encontro dos compadres, semanalmente avistados. Batiam nos ombros, com empurrões afetuosos que semelhavam provocações. Nunca aperto de mão ou abraço. Este, quando em raro surgia, era um breve apertão na altura do deltoide. Entre nós, meninos, a educação mandava salvar, mas consistia infalivelmente nas frases: – Tá bom? Então? Como li vai?
As pesquisas posteriores nas cidades não modificaram o registro sertanejo. Bem poucos apertos de mão entre gente do povo. Batida no ombro, “a mão no ombro”, denunciadora amistosa.
Vezes a roda já estava formada quando aparecia um amigo. Sorria, abanando a mão na direção de cada um de nós. Vinha dar a mão ao mais graduado, ao de respeito, não íntimo. Entre as mulheres, nenhuma diferença do observado. A saudação com a cabeça nunca vi ou dificilmente vi fora da igreja. E mesmo nos templos os sertanejos e agrestinos são desajeitados, esquerdos, com um ar de cumprir encargo acima das possibilidades ginásticas.
Alguns vaqueiros de Campo Grande (Augusto Severo, RN) só sabiam bater nos peitos ou fazer o sinal da cruz diante do altar. O Vigário Velho, Manuel Bezerra Cavalcanti (1814-1894), 54 anos vigariando a mesma paróquia, afirmava que o sertanejo só sabe baixar a cabeça procurando rasto de bicho!…
Meus tios e primos nas festas da rua (Vila) cumprimentavam o grupo numa brusca sacudidela de ombros e cabeça ao mesmo tempo. Estiravam a mão hirta, dura, de pau, sem apertar. Quem aperta a mão é praciano. Do sertão de São Paulo afirma o mesmo Cornélio Pires.
O adeus a distância era estender o braço, curvo, pouco acima da cabeça, a mão direita agitada, abanando com a palma voltada para dentro. Mostrando a palma da mão é influência moderna e das cidades. E fazendo o gesto de quem lava vidraça, mexendo a mão como limpador de para-brisa, é recentíssimo.
Esses eram os estatutos da cortesia sertaneja, no tempo em que vintém era dinheiro.
Os Drs. Arthur Neiva e Belisário Pena (Viagem científica, 1916) registraram uma aculturação. Já apertavam as mãos, mas a mão no ombro era indispensável. Informam os dois sábios: “Na zona percorrida da Bahia, Pernambuco e Piauí existe curioso modo de saudação entre os recém-chegados; apertam as mãos e em seguida pousam uma das mãos sobre o ombro do amigo, enquanto fazem perguntas de estilo. É cumprimento obrigatório e provavelmente representa hábito de etiqueta usada em outras épocas”. A observação é de 1912. A etiqueta antiga seria a mão no ombro, unicamente. Assim saudavam-se os fidalgos cavaleiros da Idade Média.
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

domingo, 22 de abril de 2018

Calvin


Namorados

Foi neste quarto. Exatamente neste quarto.
Você está doido.
Aposto o que você quiser.
O quarto estaria o mesmo, tanto tempo depois?
Algumas coisas mudaram, mas olha a vista. A vista é a mesma.
Como você sabe? A última coisa que queria fazer, naquele dia, era olhar a vista.
Acho que eu estou me lembrando até do número. Era o 703. Tenho certeza.
Tá sonhando.
Lembra que você trouxe uma sacola com pijama? Achei aquilo maravilhoso. Em vez de uma camisola, ou de nada, um pijama de flanela azul.
Que no fim eu nem usei.
Tomamos banho juntos, lembra? Antes e depois.
Foi a primeira vez que vi você nu. E quis me casar assim mesmo.
Olha o banheiro. Igualzinho. Era o 703!
Que ideia, vir para o mesmo hotel, tantos anos depois...
E acabar no mesmo quarto! O que você está fazendo?
Ligando pra casa. Pra ver se está tudo em ordem.
Não vá dizer onde nós estamos.
Vou. Vou dizer “Olha, seu pai quis passar o Dia dos Namorados no mesmo hotel em que dormimos juntos pela primeira vez”.
Você trouxe os meus remédios?
Trouxe. Estão na sacola, junto com os meus. Aliás, na sacola só tem remédios.
Mais tarde:
Ela: — Você não vem pra cama?
Ele: — Já vou. Estou olhando a vista.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor veríssimo

Mundo espiritual

Não existe nada a não ser um mundo espiritual; o que chamamos de mundo dos sentidos é o mal no mundo do espírito, e o que chamamos de mal, apenas a necessidade de um instante em nossa eterna evolução.
Com a mais forte das luzes pode-se dissolver o mundo.
Diante de olhos fracos, ele se torna sólido, de olhos mais fracos, ele ganha punhos, de outros mais fracos ainda, ele fica envergonhado e esmaga quem ousa fitá-lo.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Paula Toller - Céu Azul

Duas histórias a meu modo

Uma vez, não tendo o que fazer, fiz uma espécie de exercício de escrever, para me divertir. E diverti-me. Tomei como tema uma dupla história de Marcel Aymé. Encontrei hoje o exercício, e é assim:
Boa história de vinho é a do homem que deste não gostava, e Félicien Guérillot, dono exatamente de vinhedos, era o seu nome – inventados nomes, homem e história por Marcel Aymé, e tão bem inventados que para ser verdade só da verdade careciam.
Viveria Félicien – se vivesse – em Arbois, terra de França, e casado com mulher que não era nem mais bonita nem mais bem-feita do que é necessário para a tranquilidade de um honesto homem. De boa família ele era, apesar de não gostar de vinho. E no entanto as melhores do lugar eram as suas vinhas. De nenhum vinho gostava, e em vão procurava aquele que o libertasse da maldição de não amar a excelência do que é excelente. Pois que mesmo na sede, que é hora de aceitar vinho, o melhor gole a ele sabia a coisa ruim. Leontina, a esposa que não era nem muito nem pouco, com ele ocultava de todos a vergonha.
A história, agora por mim inteiramente reescrita, continuaria muito bem e melhor ainda se a nós o seu núcleo pertencesse, pelas boas ideias que tenho de como terminá-la. Marcel Aymé, porém, que a começou, neste ponto da descrição do homem que não amava vinho parece que da história mesma se enojou. E ele próprio interferiu para dizer: mas de repente ela me chateia, essa história. E para desta escapar, como quem bebe vinho para esquecer, eis que o autor começa a falar de tudo o que poderia inventar a respeito de Félicien, mas que não inventará porque não quer. Lamenta muito, pois até chegaria a fazer com que Félicien fingisse tremor alcoólico a fim de esconder dos outros a falta de tremor. Bom autor, esse Marcel Aymé. Tanto que várias páginas gastou em torno do que ele mesmo inventaria se Félicien fosse pessoa que lhe interessasse. A verdade é que Aymé, enquanto vai contando o que inventaria, aproveita e conta mesmo – só que nós sabemos que não é, porque até no que se inventa não vale o que apenas seria.
E é nesse ponto que Aymé passa para outra história. Não querendo mais história de vinho triste, para Paris se muda, onde pega um homem chamado Duvilé.
E em Paris é o contrário: Etienne Duvilé, esse gostava de vinho mas não o tinha. Garrafa cara, e Etienne funcionário estadual. Bem que gostaria de se corromper mas vender ou trair o Estado não é ocasião que apareça todos os dias. A ocasião de todos os dias era uma casa cheia de filhos, e um sogro que de comer sem parar vivia. A família sonhando com mesa farta, e Duvilé com vinho.
E vai um dia Etienne sonha mesmo, com o que desejamos dizer que dessa vez enquanto sonhava dormia. Mas agora que o sonho deveríamos contar – pois que Marcel Aymé o faz e longamente – agora é a nós que ça vraiment nos chateia. Escamoteamos o que o autor quis narrar, assim como foi escamoteado pelo autor o que de Félicien queríamos ouvir.
Dir-se-á aqui apenas que Duvilé, após o sonho de um sábado, à noite, de muito piorou na sede. E o ódio pelo sogro mais uma sede parecia. E tanto foi tudo se complicando, sempre tendo como causa a falta original do vinho, que de sede quase mata o pai de sua esposa, que esta Aymé não explica se era ou não bem-feita, pelo visto nem sim nem não, só o vinho na história importa. De sonho dormido passou a sonho acordado, o que já é doença. E queria Duvilé beber todo o mundo, e no distrito policial manifestou desejo de beber o comissário.
Permanece até hoje Duvilé no asilo de alienados, e não se vê hora dele sair, já que os médicos, não lhe entendendo o espírito o submetem à cura de excelente água mineral que estanca sedes pequenas e não a grande.
Enquanto isso, Aymé, talvez de sede e piedade, ele mesmo tomado, espera que a família de Duvilé o envie à boa terra de Arbois, onde aquele primeiro homem, Félicien Guérillot, depois de aventuras que mereceriam ser contadas, o gosto pelo vinho já pegou. E, como não nos dizem de que modo, também por aqui ficamos, com duas histórias não bem contadas, nem por Aymé nem por nós, mas de vinho quer-se pouco da fala e mais do vinho.
Clarice Lispector, in Todos os contos

E eles viveram felizes para sempre (2)

[…] Mas isso também é simplificar demais. Primeiro, porque baseia sua avaliação otimista em uma amostra muito pequena de anos. A maioria dos humanos só começou a colher os frutos da medicina moderna em 1850, e a drástica redução na mortalidade infantil é um fenômeno do século XX. A fome em massa continuou a acometer grande parte da humanidade até meados do século XX. Durante o Grande Salto para a Frente, de 1958 a 1961 na China comunista, algo entre 10 e 50 milhões de seres humanos morreram de fome. As guerras internacionais só se tornaram raras após 1945, em grande parte graças à nova ameaça de aniquilação nuclear. Portanto, embora as últimas décadas tenham sido uma era de ouro sem precedentes para a humanidade, é cedo demais para saber se isso representa uma mudança fundamental nas correntes da história ou uma onda efêmera de boa sorte. Ao julgar a modernidade, é demasiado tentador adotar o ponto de vista de um cidadão de classe média do Ocidente do século XXI. Não devemos nos esquecer do ponto de vista do minerador galês, do chinês viciado em ópio ou do aborígene tasmaniano do século XIX. Truganini não é menos importante do que Homer Simpson.
Em segundo lugar, até mesmo a breve era de ouro do último meio século pode ter espalhado as sementes de catástrofe futura. Nas últimas décadas, temos perturbado o equilíbrio ecológico do nosso planeta de muitas maneiras, provavelmente com consequências terríveis. Há muitos indícios de que estamos destruindo as bases da prosperidade humana em uma orgia de consumo desenfreado.
Por fim, só podemos ficar orgulhosos das conquistas sem precedentes dos sapiens modernos se ignorarmos completamente o destino de todos os outros animais. Grande parte da alardeada riqueza material que nos protege de fome e doenças foi acumulada à custa de macacos de laboratório, vacas leiteiras e frangos criados em linha de produção. Nos últimos dois séculos, dezenas de bilhões deles foram submetidos a um regime de exploração industrial cuja crueldade não tem precedentes nos anais do planeta Terra. Se admitirmos apenas um décimo do que os ativistas pelos direitos dos animais estão reivindicando, a agricultura moderna poderia muito bem ser o maior crime da história. Ao avaliar a felicidade global, é um equívoco considerar apenas a felicidade das classes superiores, dos europeus, ou dos homens. Talvez também seja um equívoco considerar apenas a felicidade dos humanos.
Yuval Noah Harrari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

sábado, 21 de abril de 2018

Cozinhar

Fotograma do filme A festa de Babette

Os textos sagrados dizem que, quando Deus voltar à terra do seu exílio, a sua presença será servida como um banquete: todos reunidos à volta de uma mesa, comendo, bebendo, conversando, rindo... Deus se dá como comida. Tal como aconteceu no filme A festa de Babette. Babette, a feiticeira, com a sua culinária, transformou uma aldeia de pessoas amargas em crianças! O comer é um ritual mágico.
Comer é o impulso mais primitivo do corpo. O nenezinho tudo ignora: para ele, o mundo se reduz a um único objeto mágico, o seio da sua mãe. Nasce daí a primeira filosofia, resumo de todas as outras: o mundo é para ser comido. Disse alguém que a nossa infelicidade se deve ao fato de que não podemos comer tudo o que vemos. Sabem disso os poetas. Os poetas são seres vorazes. Escrevem com intenções culinárias. Querem transformar o mundo inteiro, os seus fragmentos mais insignificantes, em comida. Quem sabe numa simples azeitona... Poemas são para serem comidos. “Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas”, dizia Neruda... “Comeria toda a terra. Beberia todo o mar...” “Persigo algumas palavras... Agarro-as no voo... e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparando-me diante do prato, sinto-as cristalinas, ... vegetais, oleosas, como frutas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as...”
A memória mais forte que tenho do cozinhar é a de um pai preparando um peixe para o forno. Ele ficava transfigurado. Acho que teria se realizado mais como cozinheiro. Quando via o prazer no rosto dos convidados, era como se estivessem devorando ele mesmo, o cozinheiro, antropofagicamente. Todo cozinheiro quer sentir-se devorado. Toda comida é antropofagia, toda comida é sacramento.
Fico a me perguntar: quais foram as razões que fizeram com que a culinária nunca tenha sido elevada à dignidade acadêmica de “arte”, como a música e a pintura? Talvez porque o prazer da comida seja tão intenso que não deixa espaço para as funções contemplativas e intelectuais, ligadas às outras artes.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

Portraits de Adriana Tavares

Caffe Greco (1996)

Artífices dos próprios dissabores

Não te ponhas a pedir o que não pretendes obter!” É que sucede muitas vezes nós pedirmos com empenho coisas que recusaríamos se alguém no-las oferecesse. Por ligeireza? Por excesso de gentileza? Seja qual for a razão, apliquemos-lhe um castigo: acedamos largamente ao pedido. Muitas coisas nós desejamos parecer querer quando de fato as não queremos. Numa leitura pública, um autor levou uma vez uma obra histórica enorme, escrita em letra miudinha, num volume muito denso, e, depois de ler a maior parte, disse: “Se querem, fico por aqui.” Ora os auditores, embora o seu único desejo fosse que o homem se calasse imediatamente, gritaram em coro: “Continua a leitura, continua!” Muitas vezes, também, queremos uma coisa mas escolhemos outra, e nem sequer aos deuses confessamos a verdade; o que vale é que os deuses ou não nos atendem ou têm pena de nós! Quanto a mim, vou proceder sem qualquer compaixão: vou mandar-te uma carta gigantesca! Se te custar muito lê-la, não terás mais do que dizer: “Bonito serviço que eu arranjei!”, e põe o teu nome entre o daqueles homens que se desfizeram em galanteios para casar com uma megera, ou se fartaram de suar para conseguir riquezas e nelas só encontraram angústias, ou usaram todos os truques e esforços para obter cargos públicos em que se sentem destroçados, em suma, inclui-te na lista dos artífices dos próprios dissabores!
Sêneca, in Cartas a Lucílio