sábado, 23 de setembro de 2017

António Zambujo e César Mourão cantam MPB

O estilo do desejo é a eternidade

Na paixão a recordação inclina-se ao intemporal. Congregamos as alegrias de um passado numa só imagem; os poentes diversamente rubros que contemplo a cada tarde serão na memória um único poente. Dito com outras palavras: o estilo do desejo é a eternidade. Fique, pois, em anedota emocional a vislumbrada ideia, e a na confessa irresolução desta página, o momento verdadeiro de êxtase e a insinuação possível de eternidade de que essa noite não me foi avara.
Jorge Luis Borges, in História da eternidade

III.39

A vida toda é um relicário itinerante,
uma precária coleção de alumbramentos
se apavorando, enquanto as pétalas do instante
vão-se arrancando, enquanto soltam-se nos ventos,

braços abertos, os relâmpagos violentos
do amor. Ah, a interminável noite em que o diamante
cai e estilhaça-se entre abraços, entre o amante
e a coisa amada, ah, a doce fábula em fragmentos!

Aquele amor, aquela noite perfumada
que se esbatia contra asas da alvorada,
foi todo assim, um delicado amontoamento

de aparições, Alexandria, e, fragmento
a fragmento, estilhaçavas na calçada
nossos cristais, fabulações do teu fermento.
Bruno Tolentino

Rulfo e seus fantasmas


A hipótese de que a realidade não passa de um sonho, que Jorge Luis Borges defendeu com obstinação, é, em geral, desprezada como um capricho intelectual, uma piada ou uma tese desprezível. Talvez um delírio, que merece tratamento, mas não crédito. Contudo, somos defrontados, dia a dia, com fatos inaceitáveis, ou inacreditáveis, ou mesmo intoleráveis. Eles guardam a consistência viscosa dos pesadelos e surgem de modo abrupto – como aparições ou vultos – naqueles momentos em que, entorpecidos pelas imagens banais do mundo, confiamos (em demasia) em nossas convicções.
A literatura, mais sábia, tira proveito (e potência) dessa matéria disforme que sustenta a vida humana. Outro argentino, Ernesto Sabato, disse que o escritor é “um homem que, em algo perfeitamente conhecido, encontra aspectos desconhecidos”. É inofensivo sentir assombro diante de relatos fantásticos ou de histórias extraordinárias. Doloroso é quando esse espanto emerge da vida diária, aquela em que estamos habituados (os pragmáticos diriam: “treinados”) a viver.
Ao se deparar com a débil pele que separa a realidade de seus fantasmas, a ciência a perfura, a filosofia a define e a religião a eleva. Só a literatura consegue parar e olhar. Alerta Sabato: “O romance não demonstra, mostra”. Um das mais assombrosas dessas exposições aparece em Pedro Páramo, novela do mexicano Juan Rulfo (1917-1986). Um livro fundamental da narrativa latino-americana, agora com nova edição da Best Bolso (tradução e prefácio de Eric Nepomuceno). Lançado em 1955, Pedro Páramo é uma narrativa em que a desolação e o assombro se entrelaçam – como dois apaixonados. Como a nos dizer que, sem perder alguma coisa, não chegamos a outra.
Limitar a novela de Rulfo a seu enredo é o mesmo que reduzir um bolo a sua receita. Com a mesma meia dúzia de ovos se pode fazer um manjar raro ou um pudim banal. Mas, sim, um enredo ali se esboça. Para realizar o desejo de sua falecida mãe, Dolores, o protagonista Juan Preciado, narrador inicial, retorna a Comala em busca do pai, Pedro Páramo. Sua luta para reencontrar o passado o carrega a uma cidade que não existe, onde circulam, como vivos, homens e mulheres mortos. Sua aventura se faz das vozes que ouve, e não das coisas que vê.
A história seria vulgar se Rulfo adotasse a lógica clássica, que afasta a realidade do irreal. Ocorre que, em Pedro Páramo, a realidade não é superior à fantasia; tampouco os mortos estão menos vivos que os vivos. A existência do próprio narrador não é digna de confiança. Fiel a seus fantasmas, de cuja companhia nunca abdicou, Rulfo escreveu a história de Juan Preciado como se tivesse só um olho, e não dois. Com o olho inexistente, ele se conecta a uma segunda realidade que, em vez de luz e firmeza, lhe oferece ignorância e tremor.
Ao fim, o leitor fica, ele também, com a sensação de que lhe contaram uma história pela metade. De que existe uma segunda história, que lhe foi roubada – e o ladrão seria o próprio Rulfo. Nesse momento, o desamparado leitor tem todo o direito de se apropriar das palavras do padre Rentería, um dos personagens do livro: “Saiu da casa e olhou o céu. Choviam estrelas. Lamentou aquilo, porque teria gostado de ver um céu quieto”.
É dessa verdade amputada, que quanto mais se revela, mais se esconde, que Pedro Páramo tira sua grandeza. Foi dela que grandes escritores como Gabriel García Márquez e Júlio Cortázar tiraram forças para compor suas grandes ficções. Depois de Pedro Páramo, a literatura hispano-americana deixou de ser um universo fixo, ancorado em uma realidade de pedra. Ela se transformou em um ponto de passagem, uma ponte precária pela qual transitam as fantasias do continente. Imita, assim, Colorado, o cavalo de Miguel Páramo, filho de Pedro, que, depois da morte de seu dono (como que desprovido, ele também, de um olho), passa a vagar, desesperado, pelas estradas.
Desde sua chegada a Comala, Juan Preciado percebe que entrou em uma outra formação do real. “Meu corpo, que parecia afrouxar-se, dobrava-se diante de tudo, havia soltado suas amarras e qualquer um podia brincar com ele como se fosse um trapo.” Carregado por forças das quais só captam estreitas tiras de luz, como se estivesse com os olhos vendados, ele se habitua, por fim, a entrever, em vez de ver. Entrever: divisar de forma parcial e confusa. Curioso que os repórteres, seguidores da realidade, falem, eles também, de uma “entrevista com fulano” e não de uma “vista”.
No senso comum, fantasmas são almas inquietas, que se recusam a aceitar seu destino. Em Pedro Páramo, Rulfo nos mostra quão redutora é essa ideia; o quanto ela asfixia não só os mortos, mas também os vivos. A realidade não é uma pedra, sólida e imóvel; ela é um líquido que circula pelo mundo e toma a forma de quem o recolhe. Foi na mesma zona de oscilação que Juan Rulfo escreveu seu segundo livro, a coletânea de contos A planície em chama, lançada dois anos antes de Pedro Páramo.
Borges dizia ser um absurdo supor que um homem é mais real do que um sonho. Antes de responder a essa pergunta, ele argumentava, “é preciso saber se o universo pertence à literatura realista ou à literatura fantástica”. O hábito nos leva a acreditar na primeira hipótese; a leitura de ficções como Pedro Páramo nos desvia para a segunda. A realidade, contudo, não está nem de um lado nem de outro; ela é um abismo que se abre entre os dois. Mesmo a mais bruta realidade se torna banal se dela excluímos a ficção.
No fim do livro, a morte de Pedro Páramo – que enfim o nivela à história que acabou de viver – aproxima a literatura da destruição. “Seus olhos mal se moviam; saltavam de uma recordação a outra, desfazendo o presente.” Morria ou escrevia? Volto a Ernesto Sabato, que, como um mestre zeloso, invadiu minha leitura de Juan Rulfo. Fala-se muito na crise da arte que, enfraquecida, inútil, não daria mais conta da realidade. Alerta Sabato: “O que está em crise não é a arte, mas o conceito de realidade. É a crença na realidade que começa a morrer”.
José Castello, in Sábados inquietos

Consciência

A consciência, a velha e boa consciência — ouço algum leitor dizer em tom triunfante: ele conversa com sua consciência! Vangloria-se de manter um diário para conversar com sua consciência! — Mas não é bem assim. Na realidade, o outro, para quem falamos, muda constantemente de papel. É verdade que pode, também, aparecer como consciência, e sou-lhe muito grato por isso, pois os outros papéis facilitam-nos demais as coisas: parece haver nos homens uma volúpia por se deixarem persuadir. Contudo, esse outro nem sempre é uma consciência. Algumas vezes a consciência sou eu , e falo a esse outro num tom de desespero e autoacusação, com uma veemência que eu não desejaria a ninguém. Nesses momentos, porém, o interlocutor se transforma num consolador perspicaz, que sabe exatamente onde me excedo. Ele vê que, como poeta, frequentemente me atribuo maldades e posturas malignas que absolutamente não são minhas próprias. Faz-me lembrar que, afinal de contas, tudo depende daquilo que se faz, pois pode-se pensar qualquer coisa. Com sarcasmo e serenidade, faz cair as máscaras da maldade de que nos vangloriamos, mostrando-nos que não somos assim tão “interessantes”. Sou-lhe, de fato, mais grato ainda por esse papel.
Elias Canetti, in A consciência das palavras

Tudo

Fora da História não há nada.”
José Saramago

O torcedor

Getty Images

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.
Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.
Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros.
É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.
Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquando vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Os ânimos rejuvenescendo

Você sabia, Fulgor, que essa é a mulher mais bela que se deu sobre a terra? Cheguei a acreditar que tinha perdido essa mulher para sempre. Mas agora não tenho vontade de tornar a perdê-la. Você me entende, Fulgor? Diga ao pai dela que continue explorando suas minas. E lá... imagino que seja fácil sumir com o velho naquelas bandas onde ninguém vai jamais. Você não acha?
Pode ser.
Precisamos que seja. Ela tem de ficar órfã. Temos a obrigação de amparar alguém. Você não acha?
Não parece difícil.
Então, andando, Fulgor. Andando.
E se ela fica sabendo?
Quem é que vai dizer? Vamos ver, me diga, cá entre nós, quem é que vai dizer?
Tenho certeza que ninguém.
Pois pode tirar essa coisa de “tenho certeza que”. Tira já, e você vai ver como tudo dá certo. Lembre-se do trabalho que deu encontrar La Andromeda. Mande o velho para lá, continuar trabalhando. Que vá e volte. Nem pensar em levar a filha junto. Nós cuidamos dela aqui. Lá estará o seu trabalho e aqui a sua casa, a qualquer momento que ele quiser. Diga isso a ele, Fulgor.
Torno a gostar do jeito que o senhor se movimenta, patrão, é como se os seus ânimos estivessem rejuvenescendo.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

A moralista

Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mamãe em minha ideia. Mamãe — não. O pescoço de Mamãe, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe café no pires. Essas risadas ela dava principalmente à noite, quando — só nós três em casa — vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, tão perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera própria, eram mais leves e delicados. Ela não se pintava nunca, mas não sei como fazia para ficar com aquela lisura de louça lavada. Nela, até a transpiração era como vidraça molhada: escorregadia, mas não suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miserável e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo físico, pequenos subterrâneos nos poros escuros e profundos, ou vulcõezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mamãe era um “muito obrigada” a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porém, ele mascarava essa adulação brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma espírita dissera a Mamãe algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha:
Procure impressionar o próximo. A senhora tem um poder extraordinário sobre os outros, mas não sabe. Deve aconselhar... Porque... se impõe, logo à primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos não falharão nunca. Eles vêm da sua própria mediunidade...
Mamãe repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra.
Se alguém ia fazer um negócio, lá aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasiões Mamãe, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mamãe a respeito de política, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, começaram a mandar-lhe também pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberrão incorrigível. Lembro-me de que Mamãe disse coisas belíssimas, a respeito da realidade do Demônio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E não apenas ela explicou a miséria em que o moço afundava, mas o castigo também com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaçador, e toda ela tremia de justa cólera, porém sua voz não subia do tom natural. O moço e a senhora choravam juntos.
Papai ficou encantado com o prestígio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patrão e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mamãe ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negócio, sentia afluir a confiança que se espraiava até seus domínios.
Foi nessa ocasião que Laterra ficou sem padre, porque o vigário morrera e o bispo não mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antônio. Mas, para suas novenas e seus terços, contavam sempre com minha Mãe. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de véu de renda, tão cheirosa e lisinha de pele, tão pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa não daria aquelas risadinhas, uma santa não se divertia, assim. O divertimento é uma espécie de injúria aos infelizes, e é por isso que Mamãe só ria e se divertia quando estávamos sós.
Nessa época, até um caipira perguntou na feira de Laterra:
Diz que aqui tem uma padra. Onde é que ela mora? Contaram a Mamãe.
Ela não riu:
Eu não gosto disso. — E ajuntou: — Nunca fui uma fanática, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao próximo. Se continuarem com essas histórias, eu nunca mais puxo o terço.
Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada:
Já estão me chamando de “padra”... Imagine!
Ela havia achado sua vocação. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversário de um compadre, Mamãe disse palavras tão belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu:
Por que a senhora não faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigário, e essa mocidade precisa de bons conselhos... Todos acharam ótima a ideia. Fundou-se uma sociedade: “Círculo dos Pais de Laterra”, que tinha suas reuniões na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mamãe falar. Diziam todos que ela fazia um bem enorme às almas, que a doçura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Várias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ninguém, nela. Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que até sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava:
Que significam estes escrúpulos? Ela não une casais que se separam, ela não consola as viúvas, ela não corrige até os aparentemente incorrigíveis?
Um dia, Mamãe disse ao meu Pai, na hora do almoço:
Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou.., contando a sua miséria. É um desgraçado!
Um sonho de glória a embalou:
Sabe que os médicos de Santo Antônio não deram nenhum jeito? Quero que você me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. Não é sacrifício para você, porque ele diz que quer trabalhar para nós, já que dinheiro eu não aceito mesmo, porque só faço caridade!
O novo empregado parecia uma moça bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e às vezes os recitava baixinho, limpando o balcão. Quando o souberam empregado de meu Pai — foram avisá-lo: — Isso não é gente para trabalhar em casa de respeito!
Ela quis — respondeu meu Pai.
Ela sempre sabe o que faz!
O novo empregado começou o serviço com convicção, mas tinha crises de angústia. Em certas noites não vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos.
Muitas vezes, Mamãe se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreensão. Ela o censurava, também, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porém sorrindo de bondade:
Tire a mão da cintura. Você já parece uma moça, e assim, então...
Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir:
Não há ninguém melhor do que você, nesta terra! Por que é que tem medo dos outros? Erga a cabeça... Vamos!
Animado, meu Pai garantia:
Em minha casa ninguém tem coragem de desfeitear você. Quero ver só isso!
Não tinha mesmo. Até os moleques que, da calçada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam sérios e fugiam, mal meu Pai surgisse à porta. E o moço passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mamãe. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papéis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o quê. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ninguém. Dava opinião sobre os meus vestidos. à hora da reza, ele, que era tão humilhado, de olhar batido, já vinha perto de Mamãe, de terço na mão. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele não se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranquilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, também, à sua modificação. Menos tímido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos já eram confiantes, suas atitudes menos ridículas. Mamãe, que policiava muito seu modo de conversar, já se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito à vontade, suas gostosas e trêmulas risadinhas. Parece que não o doutrinava, não era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que não estava no balcão. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moças que por namoradeiras tinham raiva da Mamãe, já diziam, escondidas atrás da janela, vendo-a passar:
Você não acha que ela consertou... demais?
Laterra tinha orgulho de Mamãe, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeição que pendia para o lado cômico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moço, atrás, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com unção, como se fora um pálio. Um franco mal-estar dominava a cidade. Até que num domingo, quando Mamãe falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeças se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malícia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu coração em expectativa. Mamãe foi a última a notar a paixão que despertara:
Vejam, eu só procurei levantar seu moral... A própria mãe o considerava um perdido — chegou a querer que morresse! Eu falo — porque todos sabem — mas ele hoje é um moço de bem!
Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou:
Acho melhor que ele vá embora. Parece que o que você queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mandá-lo para casa. Você é extraordinária!
Mas — disse Mamãe admirada. — Você não vê que é preciso mais tempo... para que se esqueçam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, até é um pecado! Um pecado que eu não quero em minha consciência.
Houve uma noite em que o moço contou ao jantar a história de um caipira, e Mamãe ria como nunca, levantando a cabeça pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora — seu pescoço — naquele gorjeio trêmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai não riu. Eu me sentia feliz e assustada. Três dias depois o moço adoeceu de gripe. Numa visita que Mamãe lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mamãe vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho.
Ela disse a meu Pai:
Você tem razão. É melhor que ele volte para casa.
À hora do jantar, Mamãe ordenou à criada:
Só nós três jantamos em casa! Ponha três pratos...
No dia seguinte, à hora da reza, o moço chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mamãe:
Saia!... — disse ela baixo, antes de começar a reza.
Ele ouviu — e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos.
Todas as cabeças o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, já perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colégio, desembocar pela noite. — Padre Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome... Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos últimos dias.
Ele não voltou para a sua cidade, onde era a caçoada geral. Naquela mesma noite, quando saía de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balançando de uma árvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. Descobriu o moço. Fomos chamados. Eu também o vi. Mamãe não. À luz da lanterna, achei-o mais ridículo do que trágico, frágil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multidão enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora não transigira, sua moralista não falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade. Em casa não falamos no assunto, por muito tempo. Porém Mamãe, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convicção — eu o sabia — a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoço.
Dinah Silveira de Queiroz, in Os cem melhores contos brasileiros do século

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Se eu quiser falar com Deus - Gilberto Gil

Juízos moral e religioso

O juízo moral tal como o juízo religioso baseia-se em realidades que não o são. A moral é unicamente uma interpretação de certos fenômenos, dito de forma mais precisa, uma interpretação falsa. O juízo moral, da mesma forma que o religioso, corresponde a um grau de ignorância ao qual ainda falta o conceito do real, a distinção entre o real e o imaginário: de tal forma que, a esse nível, a palavra “verdade” designa simplesmente coisas a que nós hoje chamamos “imaginações”. O juízo moral, por conseguinte, não deve ser tomado nunca à letra: porque tal constituiria unicamente um contra-senso. Porém enquanto semiótica, não deixa de ser inestimável: revela, pelo menos para o entendido, as realidades mais valiosas das culturas e dos espíritos que não sabiam o bastante para se “compreenderem” a si mesmos. A moral é meramente um falar por sinais, meramente uma sintomatologia: há que saber já de que se trata para obtermos proveito dela.
Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos

Cartas na mesa


Toda vida humana é destino em estado impuro. A mulher de novo baralhou e foi compondo na toalha, lâmina a lâmina, os 22 arcanos do Taro — dito o livro revelador, de páginas soltas, que os ciganos trouxeram do Egito. A estrela, o imperador, a roda-da-fortuna, o diabo, por exemplo. — “Não entendo, não percebo” — tugiu, e juntou as mãos, grossas curtas, bem brancas: o consultante observando-a com as de aluno. — “Salve-me, mas depressa. Acho que vou crer na senhora.” Ele respirou, boca aberta, espírito aspérrimo. Endireitou-se a cartomante; um pouco impressionava, quando cerrados os olhos de ave noturna, o epsilone do nariz e sobrancelhas. — “Ao senhor, não engano...” Mais amadora que charlatã. — “A predição é dom, não ciência ou arte. Vem quando vem. A hora não é boa...”
— “Sei. Segue-me um homem armado, doido de ciúme e ódio. Decerto me viu entrar e espera lá fora.” — “Um marido?” Madame de Syaïs outra vez misturava as cartas, mais digna, menos ágil. — “Verei. Distraia-se do assunto. Concentremo-nos.” Ele quis, agora era quem guardava os olhos; soletrava-lhe confiança a voz, impessoal humaníssima. — “Deus nos dê luz...” Virou o bobo, o mago, o enforcado, a lua, a torre e a temperança. — “As figuras desdizem-se! nada acusam...” — ela mesma se agastava. — “Tudo, mal para saber o futuro imediato... maluco ou sinistro” — ele se forçava a rir, não trazendo à testa os punhos, um instante sucumbido. A morte, o sol, o dia-de-juízo. A mulher também mordeu beiço, de pena e brio. — “Com o baralho comum, não as do tarô, quem sabe... Vale é o intuir, as cartas são só para deter a atenção.” O moço aprontou-se a ver. Tão logo a tentativa desnorteava-se. Espiavam nos naipes sutil indecifrar-se: de como por detrás do dia de hoje estão juntos o ontem e o amanhã. A adivinhã cruzou os braços.
Descruzando as pernas: — “A gente vive é escrevendo alguma bobagem em morse?” — Ladal levantou-se. — “Vou procurá-lo! Talvez eu nem me defenda...” — toou o que disse, com imperfeita altivez. Mirou-o a mulher desfechadamente: — “O senhor pede presságio ou conselho? E acerta. Sempre o que importa é viver o minuto legítimo.” Tornava a mexer as cartas coloridas. — “Nem tanto, Madame, nem tanto...” — escarniu-se. Mas esperou. Seu rosto parecia mais uma fotografia. — “Detesta esse homem?” — “Não.” — “Não o enfrente” — com vigor e veludo. A magia — o carro, a justiça, a grã-sacerdotisa. — “Teme?” A tentação — sendo o amor; o mundo, a força, o hierofante. — “Sua mente abrange previsões e lembranças, que roçam a consciência. Prefere não agir: evita novos efeitos, pior carma.” Ele nem teve de sorrir, depois de meneios com a cabeça. — “Seu destino já se separa do outro. A isso, sem saber, ele reage, estouvado, irrompente aproximando-se.” A sabedoria — o eremita. A imperatriz, que pinta a natureza. — “Algo pode ainda obvir, o mau saldo...” Ostentadas as íris claras. — “Fique. O tempo vale, ganhe-o. O tempo faz. O tempo é um dogma...” Ladal curvou-se. — “Tomo seu moscatel, não sua filosofia. Sou um néscio.” Meio mais tranquilo.
Ele falava (ela respondendo): Aconteço-e-faço? (Reze.) Que jeito? (Pare de pensar em seu problema — e pense em Deus, invés.) E lá creio? (Não é preciso.) Sem treino nem técnica? (Deus é que age. Dê a ele lugar, apenas. Saia do caminho.) Como? (Não forme nenhuma imagem. Tome-se numa paz, por exemplo, alegria, amor — um mar — etcétera. Deus é indelineável.) Teoria? Court de Gébelin? Etteilla? Em que grimório ou alfarrábio? (Emmet Fox. Experimente. Um livrinho de seis páginas.) Renega a cabala então, o ofício de profetisa? (A qualquer giro, a sina é mutável. Deus: a grande abertura, causa instantânea. Desvenda-se nas cartas a probabilidade mais próxima, somente. Respira-se é milagre.) E ele, o outro? É justo? Deus deve ser neutro... (A ativa neutralidade. Reze, ajudando o outro, não menos. O efeito é indivisível. Tem cada um sua raia própria de responsabilidade. Também o outro é indelineável.) Os termos contrastantes... (Deus — repito, repito, repito! Não pense em nada.) Deram uma única interjeição — trementemente:
Tinia a campainha, da entrada. — “Quem for, esperará, na ante-sala...” Não entreolhavam-se os dois, em titubeio, não unânimes, nos rostos o enxame de expressões. Caluda, já Madame de Syaïs ia colher, à porta do corredor, o cochicho de aviso da criada. Desapontadamente — devia, sim, de ser o outro, de atabalhôo, dando naquele contra-espaço.
— “Nada tem a fadar-me. Não há mais o tempo. Há é o fato!” — e Ladal elevava o copo, feito brinde. Ela ergueu mão: seu cheio feixe de dedos. — “Não. O tempo é o triz, a curva do acrobata, futuro aberto, o símbolo máximo: o ponto. No invisível do céu é que o mar corre para os rios... Nunca há fatos.” Saída alguma, de escape. Não onde esconder-se. Nem chamar polícia. Tortamente oposto, a três passos, preso, passearia o outro sua carga de amargo. — “Talvez pense que a mulher se encontre aqui...” — “Ou vem à consulta, simplesmente...”“O nome é Mallam, Dr. Mallam...” — “Vale que seu seja, de Syaïs, Râ-na-Maga ou Ranamaga?”
Era nem equilíbrio, pingo por pingo, d’ora-agora, o escoar-se. O transprazo. Subiam em si, não ouviam, não viam. Da parede o relógio debruçava-se para bater.
E: oh. O estampido, tiro, na saleta, de evidência dramática. Cá, os dois paravam, sem respiro, não unidos personagens sem cena. Ladal fez maquinal recuo. Madame de Syaïs emaçou ainda as cartas espalhadas. Um deles então abriu a porta.
Ali dera-se o dar-se-á — remorsivo — visão de tempos não passados. Tombado no chão, mais o revólver, amarrotava-se morto o outro, o peito em rubro e chamusco — que nem o mago, o diabo, o bobo — ele mesmo por si rejeitara-se, irresolvidamente, sem fim, de história e trapalhada. Quase o choravam, em atitude insuficiente.
Guimarães Rosa, in Ave, palavras

Street Art em escadaria de Seul

  
Fonte: Pinterest

Liberdade em Caiena

Por distração, ou incapacidade de lidar com tantas informações, passo semanas sem consultar meu correio eletrônico. Agora, ao fazer uma faxina na caixa de entrada, notei que havia 122 mensagens não lidas. Percebi, com culpa, que não enviei a um amigo um exemplar do livro Norte , de Marcel Gautherot; certamente ele teria apreciado o olhar do fotógrafo franco-brasileiro sobre a Amazônia. Mas, ao ler as mensagens seguintes, a culpa cresceu de forma exponencial, pois os encontros com outros amigos não passaram de promessas vãs.
Também me dei conta de que não respondi a convites para ir a cidades do outro hemisfério, só de pensar em fazer viagens longas me dá uma preguiça macunaímica, hoje em dia até crianças e idosos são revistados com rudeza nos aeroportos; prefiro viajar para o interior do Brasil, ou para dentro de mim mesmo, lendo livros que me levam para outro tempo e outra paisagem.
Apaguei 27 títulos com anúncios publicitários e, movido pela impaciência, dezenas de mensagens iniciaram uma corrida vertiginosa rumo à lixeira. Quando ia apagar tudo, eis que leio: Cayenne. Era um convite datado de setembro de 2009! Passou batido. E dessa vez lamentei… Quando criança, ouvia do meu avô materno descrições de Caiena, onde, há quase um século, o navio italiano em que ele viajava fez uma escala demorada antes de seguir para Recife.
Caiena era uma palavra tão fantasiosa que em setembro de 1990 fui conhecê-la. Mesmo sem entender o créole, me senti em casa: reconheci peixes e frutas da Amazônia; o clima era quase o mesmo, a água cor de fígado do rio Amazonas chegava até o litoral da Guiana Francesa e misturava-se com a do Atlântico, formando uma insólita paisagem oceânica e fluvial. Lembro que visitei os lugares descritos por meu avô. Alguns, como La Crique e a Place des Palmistes, ainda eram reconhecíveis; outros tinham sido destruídos ou pertenciam à imaginação de um contador de histórias.
Num bazar do bairro chinês vi uma urna funerária indígena, com desenhos que lembravam os da cerâmica marajoara. Perguntei em francês quanto custava, uma mulher respondeu: 65 francos.
O sotaque nos unia: ela era brasileira, de Macapá.
Vim para Caiena em 1979”, disse Edenilza. “Já tinha muito brasileiro na Guyane. Aprendi umas palavras em francês lavando e passando roupa na casa de uma família.”
Esticou o beiço para um homem sentado num banquinho e acrescentou: “Dois anos depois me casei com Charles Hung”.
Quando ele ficou de pé, o espaço do bazar encolheu. Era um mulato altíssimo e corpulento, cujo olhar revelava altivez; apertou minha mão e, talvez por cortesia, pronunciou umas poucas palavras na minha língua. Depois, quando conversamos em francês, Hung disse que era filho de um vietnamita que fora detido e enviado para a Guiana Francesa. Em 1933, seu pai e centenas de vietnamitas de Annam que lutavam contra os franceses na Indochina foram transportados para Caiena e encarcerados no Bagne des Annamites. Quando foi solto, casou com uma senegalesa, filha de um dos carcereiros dessa mesma prisão.
Os olhos levemente puxados de Edileuza assemelhavam-se aos de Charles. O colonialismo, em tempos e regiões distintos, havia selado o destino desse casal. Lembro que no mesmo dia consultei um mapa-múndi só para ver o itinerário desses degredados políticos: a longa e infernal travessia do Golfo de Tonquim até Caiena.
Na manhã seguinte voltei ao bazar e pedi para que Hung me acompanhasse até o Bagne, situado em Tonnégrande. Era uma tarde nublada e abafada, tipicamente amazônica. Ao avistarmos a cadeia, disse a Hung que eu estava surpreendido com a modesta dimensão do edifício, que eu julgava enorme.
Há coisas mais surpreendentes”, disse Hung. “Meu pai mofou nesse bagne e foi submetido a trabalhos forçados por ter lutado contra os franceses no Vietnã. Eu, em qualquer lugar do mundo, sou considerado asiático ou africano, mas sou francês, minha língua materna é a francesa. Casei com uma brasileira e meus três filhos são bilíngues. Um dia quero levá-los ao Brasil e ao Vietnã.”
Apontou a cela onde o pai dele penou por nove anos. Era a última de uma das duas fileiras separadas por uma passagem coberta de cascalho e pedras. Parecia uma jaula, como se os detentos fossem animais. Ou animais políticos. Notei que Hung queria voltar ao bairro de Caiena que seu pai ajudara a construir em 1945. No fundo de uma cela li com dificuldade uma palavra que um prisioneiro escrevera provavelmente com a ponta de uma pedra: liberté . As letras, quase apagadas pelo tempo, eram retorcidas e desiguais.
Talvez essa palavra ainda esteja lá, à espera de um visitante nesse lugar arruinado da história.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O corpo

Quando eu era jovem, a menor unidade do meu pensamento era o universo e a eternidade. Eu vivia no mundo dos deuses. Não havia percebido que meus deuses tinham pés de barro. Seus pés se esfarelaram, eles caíram e eu fiquei mais modesto. Troquei-os pelos heróis da política. Deixei os céus para os pardais e tornei-me um habitante do mundo. O marxismo era a grande religião. Ao envelhecer, dei-me conta de que também a política era muito grande para mim. Encolhi-me mais uma vez. Voltei ao meu corpo. É no corpo que vivo meu cotidiano. O corpo só conhece o presente.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

O banho surpreendido

Susana e os anciãos (1653), de de Jacob Jordaens 

Os cães habitam quadros célebres, como elementos acessórios de composição, mas para quem gosta de animais eles constituem o próprio tema da obra de arte. E mesmo para simples observadores da vida.
Um pintor renascentista que escolheu como assunto o banho de Susana surpreendida pelos velhos teve ideia de colocar um cão como guarda da pudicícia da banhista. O animal avança, irado, contra um dos anciãos indiscretos, que recua tomado de justo medo. Em face da determinação do cachorro e do susto do velho, a nudez de Susana torna-se secundária. O cão roubou a cena e seu significado bíblico. A mulher poderia até sair à rua assim como estava, sem que fosse notada, pois o interesse dos passantes havia de concentrar-se na perseguição do homem pelo cão, e em apostar quem levaria a melhor.
Requinte do artista, nem sempre observado pela crítica, é a decepção que se estampa no rosto de Susana. Ser vista na intimidade por olhos lúbricos não a afeta. O que a desaponta é ver o cão tornar-se mais importante que a sua nudez.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Vento novo

Estava enrolada em
teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.
Flora Figueiredo

13/09/91 - 17:28

O hipódromo está fechado. Não há apostas entre hipódromos com Pomona, aqui ó que eu vou dirigir nesse calorão. Provavelmente, vou acabar nas corridas à noite em Los Alamitos. O computador veio outra vez da oficina, mas não corrige mais a ortografia. Tentei de tudo para descobrir por quê. É provável que eu tenha que ligar para a loja e perguntar para o cara: “O que é que faço agora?”. E ele vai dizer alguma coisa como: “Você vai ter que transferi-lo do disco principal para o disco rígido”. Provavelmente, vou acabar apagando tudo. A máquina de escrever está atrás de mim e diz: “Olhe, ainda estou aqui”.
Tem noites em que esta sala é o único lugar onde quero estar. Ainda assim, me levanto e sou uma casca vazia. Sei que poderia fazer o diabo e fazer as palavras dançarem nesta tela se me embebedasse, mas tenho que buscar a irmã de Linda no aeroporto amanhã de tarde. Ela vem fazer uma visita. Ela mudou seu nome de Robin para Jharra. Quando as mulheres ficam mais velhas, trocam de nome. Quero dizer, muitas fazem isso. Imagine se um homem fizesse isso. Conseguem me imaginar telefonando para alguém:
Ei, Mike, aqui é o Tulipa.”
Quem?”
Tulipa. Antes era Charles, mas agora é Tulipa. Não vou mais atender ao nome Charles.”
Vá se foder.”
Mike desliga...
Ficar velho é muito estranho. A coisa principal é que você tem que ficar constantemente dizendo a si mesmo estou velho, estou velho. Você se vê no espelho quando desce no elevador, mas não olha diretamente para o espelho, dá uma olhada de lado, um sorriso amarelo. Você não está tão mal, você parece algo como uma vela empoeirada. Azar, fodam-se os deuses, foda-se o jogo. Você já deveria estar morto há 35 anos. Isto é uma cena a mais, mais uma olhada no show de horror. Quanto mais velho o escritor fica, melhor ele deve escrever, ele já viu mais coisas, já aguentou mais, já perdeu mais, está mais perto da morte. Esta última é a maior vantagem. E há sempre a nova página, a página em branco, 8 e ½ por 11 polegadas. O jogo continua. Daí você sempre lembra de uma ou duas coisas que os outros caras disseram. Jeffers: “Zangue-se com o sol”. Maravilhoso demais. Ou Sartre: “O inferno são os outros”. Direto no alvo. Nunca estou sozinho. A melhor coisa é ficar sozinho, mas nem tanto assim.
À minha direita, o rádio trabalha duro me trazendo mais excelente música clássica. Escuto isso por três a quatro horas por noite enquanto estou fazendo outras coisas, ou nada. É minha droga, lava a sujeira do dia de dentro de mim. Os compositores clássicos conseguem fazer isso por mim. Os poetas, os novelistas, os escritores de contos, não. Uma gangue de fajutos. Existe alguma coisa em escrever que atrai os fajutos. O que é? Os escritores são os mais difíceis de aguentar, nos livros ou ao vivo. E são piores ao vivo do que nos livros e isso é muito ruim. E nós adoramos falar mal uns dos outros. Como eu.
Quanto a escrever, hoje escrevo basicamente da mesma forma que fazia há 50 anos, talvez um pouco melhor, mas não muito. Por que tenho que chegar aos 51 para poder pagar o aluguel com os meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, por que demorou tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora? Mal, é isso. Mas não acho que não fiquei burro por acaso. Será que um cara burro se dá conta que é? Mas estou longe de estar satisfeito. Há alguma coisa em mim que não consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me faz seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda. Não me surpreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso.
Ouvi falar que encontraram minha primeira mulher morta, na Índia, e que ninguém da família quis o corpo. Pobre garota. Ela tinha o pescoço aleijado, não virava. Fora isso, era perfeitamente linda. Ela se divorciou de mim e devia ter feito isso. Não fui bom ou generoso o suficiente para salvá-la.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Primavera se abrindo

Prímulas

Uma coisa de que me orgulho é que sempre pressinto as mudanças de estação: alguma coisa no ar me avisa que vem coisa nova, e eu me alvoroço toda, não sei para o quê.
Na primavera do ano passado ganhei de uma grande amiga uma planta, prímula, tão misteriosa que no seu mistério está contida a explicação inexplicável de uma presença divina: o segredo do cosmos.
Essa planta, que aparentemente nada tem de singular, é dona do segredo da natureza.
Quando se aproxima a primavera, suas folhas morrem e em lugar delas nascem várias flores fechadas. A cor é roxo-violeta e branco, e mesmo fechadas têm um perfume feminino e masculino que é extremamente estonteador.
O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia da primavera elas se abrem e se dão ao mundo. Como? Mas como sabe esta modesta planta que a primavera acaba de se iniciar? E as flores se abrem de repente. A gente está sentada perto, olhando distraída, e eis que elas vagarosamente vão se abrindo se entregando à nova estação, sob os nossos olhos espantados. E a primavera então se instala. “Cresci como a vinha de frutas de agradável odor e minhas flores são frutos de glória e abundância.” (Eclesiástico, 24:33)
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo